3 lições que podemos aprender com a crise do Neymar | Plural
6 jun 2019 - 7h00

3 lições que podemos aprender com a crise do Neymar

Melina Santos avalia o caso envolvendo o jogador e traz dicas para evitar confusões virtuais

Primeiro de tudo, quero deixar claro que esse texto não se propõe a debater, discutir e nem especular se Neymar é inocente ou culpado da acusação de estupro. Tampouco, vou entrar na seara da nossa cultura de sempre culpar a vítima ou da síndrome de Peter Pan de ter todas as suas atitudes justificadas por ser um “menino” ou do machismo de que isso é “coisa de homem”. Outras pessoas entendem disso muito mais do que eu, como a Mariana Paris.

Vou falar do que eu entendo um pouco, que é de mídias sociais e gestão de crise. E sempre sob meu ponto de vista, que neste caso pode ser bem particular, taokei?

Acho que o Neymar sendo o Neymar, com mais de 119 milhões de seguidores só no Instagram, tinha que falar sobre o caso depois que ele se tornou público. Não dá pra alguém com essa exposição se defender apenas no processo.

Mas…

O que se seguiu foi uma sequência de VDMs sem precedentes na internet brasileira.

E que pode sim servir de lição a outras personalidades públicas e/ou marcas que eventualmente se envolvam em algum tipo de confusão virtual.

  1. Um erro não justifica o outro

Neymar tentou se defender da acusação de um crime grave… cometendo outro crime!

Mesmo que se considere inocente, mesmo que ele fosse uma vítima de um golpe mesmo, mesmo que seja provado que a moça em questão mentiu.

NADA. NADA. NADA JUSTIFICA expor uma conversa com fotos íntimas para todos os seus milhões de seguidores. É crime mesmo, pelo qual ele vai ter que responder independentemente do desfecho do processo inicial.

E quer saber mais? Nem precisava.

Se ele queria defender a tese de que não houve estupro, poderia ter colocado apenas o trecho em que supostamente eles teriam conversado normalmente no dia seguinte. Seria um argumento suficiente pra sua defesa, sem precisar descer tão baixo.

2) Gestão de crise não é pra amadores

Existe uma regra básica em gestão de crise, principalmente nas redes sociais. Não se pode deixar que as pessoas que se sentem “ofendidas” ou “injustiçadas” respondam diretamente sem supervisão adequada, isenta e profissional. No caso dele, dinheiro não falta pra contratar alguém pra cuidar disso e que tivesse bala na agulha suficiente pra falar: cara, isso vai dar merda e não é pouca.

A declaração dele no vídeo postado no IGTV e as entrevistas do Neymar pai que se seguiram mostram a qualquer outra “marca” que nada de bom pode vir quando a gente responde ao que quer que seja – estando certo ou errado – com sangue no olho.

3) Nem toda conversa vale a pena entrar

Sim, é prática nesse universo de social media a gente ficar de olho no que é trending topic, naquilo que todo mundo está comentando e tentar enxergar nisso uma oportunidade de entrar na conversa pra surfar na onda do engajamento.

Às vezes, é melhor deixar a onda passar e não entrar nela.

Nem toda conversa vale a pena. Essa, definitivamente, é uma que na minha opinião não vale.

Admito que cheguei a pensar em alguns memes bem engraçados com frases da conversa divulgada por ele assim como muitas marcas, desde as maiores até a mais tosca que vi até agora: uma lanchonete que usou a expressão “estupro do estômago” pra fazer gracinha com uma conversa simulada no WhattsApp.

Tiradas de contexto, algumas dessas ações até poderiam ser consideradas engraçadas.

Mas sabe qual o problema? Tem contexto. E é um contexto pesadíssimo. Um contexto que fala de violência, intimidade, interesses, manipulação, crime. Quem, em sã consciência, quer ter seu nome ligado a esse tipo de conceito? Eu não, obrigada.

Não sei quantos de vocês lembram, mas em 2015 viralizou um vídeo de uma briga na escola em que a menina, ao final, dizia: já acabou, Jéssica?

Virou meme. Muita gente riu, achou engraçado, compartilhou.

Várias empresas pegaram carona e optaram por criar suas versões para o “bordão”.

Já naquela época, eu trabalhava com mídias sociais e arrumei briga pra não fazer nada relacionado a esse assunto. Prefiro ficar de fora a esquecer que aquele era um contexto de violência.

E, no fim, a melhor ideia foi a da polícia militar de Minas Gerais. Essa sim entrou na conversa pra somar e merece respeito.  

 

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