Grammy 2020: o melhor álbum do ano foi feito em casa | Jornal Plural
28 jan 2020 - 23h43

Grammy 2020: o melhor álbum do ano foi feito em casa

Ao falar das crises existenciais e de outras demandas da vida social e emocional adolescente, a cantora dá voz à própria realidade

A festa do Grammy Awards levou ao topo uma artista que carrega a inovação na corrente sanguínea. Billie Eilish, a cantora de apenas 18 anos que venceu em quatro categorias, incluindo a de melhor álbum, é um caso a ser estudado.

Há muitos caminhos
possíveis para analisarmos o álbum When
We All Fall Asleep, Where Do We Go?,
de Billie, porém escolho falar da produção.
Chama a atenção o fato de que o trabalho premiado não foi gravado em Abbey Road ou na Capitol Records, mas sim em um home
studio
, montado por Finneas O’Connell, irmão da cantora. Quando identificamos
qualquer coisa utilizando o Inglês, como no caso do Home Studio, é comum que nos venha à mente uma impressão de que
estamos falando de algo gourmetizado.
Vamos fugir disso e escrever tudo em Português, para que as expressões tenham o
peso que precisam ter. O disco foi feito em casa, ou seja, em um “estúdio
caseiro”. Existe algum problema nisso? Nenhum. Muito pelo contrário, esse
prêmio evidencia que o mercado musical do século XXI está voltado à produção
própria, fazendo com que o estúdio seja também um meio de composição a serviço
do artista, quase como um instrumento na mão de quem faz música usando o
computador pessoal, para depois compartilhar sua obra com o mundo, que passa a
ter a canção na palma da mão, literalmente falando.

Contudo, vale
ressaltar que o sucesso do trabalho de Billie e Finneas não está no uso do
estúdio caseiro, mas sim na alta comunicabilidade que a cantora estabelece com o
público. Ao falar das crises existenciais e de outras demandas da vida social e
emocional adolescente, a cantora, em certa medida, dá voz à própria realidade.
Daí, somando-se uma produção musical eficiente e a força avassaladora da
internet, temos um fenômeno de massa genuíno. 

O que é preciso para montar um estúdio caseiro?

O sucesso do disco de
Billie levanta essa questão. Não sei exatamente a configuração do estúdio
caseiro em que ela gravou, mas isso não muda o fato de que poucos equipamentos
ligados a um computador são suficientes para que qualquer pessoa comece a
gravar em casa. Se você quiser tentar, basicamente precisará adquirir uma
interface de gravação, um microfone e um software DAW (sigla em inglês para
Estação de Trabalho em Aúdio Digital). Há versões gratuitas desse tipo de
programa para computador que atendem bem às demandas no estúdio caseiro. Depois
disso, com uma boa dose de criatividade, sua canção de sucesso pode nascer.

Qualquer cômodo da minha casa pode servir?

Depende. O ideal é que você disponha
de um espaço adequado, com pouca entrada de som externo, mas isso é difícil de
conseguir e demanda investimentos. Aí reside um aspecto muito importante, que é
o entendimento do tipo de som que você deseja captar. Omid
Bürgin, que pesquisa a acústica em estúdios caseiros
, explica que uma casa pode oferecer uma riqueza
enorme em termos de espaços sônicos, que dificilmente seria igualada por um
estúdio convencional. Por exemplo, diz ele, que se você deseja gravar um violão
e quer um som bastante reverberado, uma solução é gravar no banheiro. Os
azulejos vão fazer com que o som tenha uma reverberação natural, que pode ser
interessante para o projeto. Mas se você quer exatamente o oposto e busca por um
som seco e com pouca ou quase nenhuma reverberação, uma alternativa é gravar
dentro de um closet. Os armários,
carpetes e cabides com roupas garantirão que o som tenha o mínimo de
reverberação. Note, são soluções simples e domésticas.

Mercado musical: ontem e hoje

As músicas gravadas no estúdio caseiro
podem ser distribuídas diretamente às plataformas de streaming a um custo bastante acessível, ou até mesmo
gratuitamente. Essa nova tendência do mercado, da qual Billie Eilish é uma
nativa, mudou o consumo de música. É possível até estabelecermos um parâmetro
de comparação com outro fenômeno de massa, mas desta vez no Brasil dos anos
1960. Falo de Chico Buarque. Quando o compositor venceu o II Festival de Música
Popular Brasileira com “A Banda”, em 1966, a canção estourou nas rádios, bares,
lojas, lares e em todo os lugares onde houvesse um toca-discos.

Reportagens da época contam que, nas
semanas seguintes, havia filas de pessoas nas lojas de discos, interessadas em
comprar uma cópia do compacto da música, gravada por Nara Leão. O interesse era
tanto que as tiragens acabavam em poucas horas. Para amenizar a decepção de
quem não conseguira um disquinho, os lojistas deixavam sempre uma última peça
fora da prateleira, que ficava rodando numa vitrola. Assim, o cliente pelo
menos ouvia a música antes de ir embora. Isso é impensável nos dias de hoje. Se
você quiser ouvir qualquer artista, basta acessar uma plataforma digital e
pronto: música tocando.

Para ir além

Ouça o álbum When We All Fall Asleep, Where Do We Go?

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