Coringa traz consigo o som da loucura | Plural
21 out 2019 - 22h38

Coringa traz consigo o som da loucura

A música foi composta apenas com o roteiro em mãos. Depois de pronta a trilha é que o filme foi gravado

O filme é polêmico, visualmente arrebatador e, sem dúvida alguma, consiste em uma obra a ser estudada por diferentes pontos de observação. A música é um deles. A compositora da trilha sonora desse fenômeno mundial é a islandesa Hildur Gudnadottir, violoncelista e que até há alguns meses ainda era desconhecida do público. Depois do trabalho que fez em Chernobyl e agora, com o filme do Coringa, certamente será uma figura muito lembrada pela crítica especializada.

Chernobyl e Coringa são dois trabalhos completamente diferentes. O primeiro envolve um tipo de construção musical que remete à música concreta do século XX, por manipular sons gravados em uma usina nuclear abandonada; o segundo é um mergulho musical profundo no universo de quem sofre com problemas mentais.

A música e o ator

Os movimentos dançantes de Joaquin Phoenix (Coringa) parecem conduzir visualmente o público como se a cena fosse uma partitura e ele o regente. Um exemplo disso está na cena em que toca a música Bathroom Dance, que tem o violoncelo como instrumento principal. O som grave do instrumento evoca um timbre masculino e, ao mesmo tempo, andrógino, por mesclar alguns nuances de som agudo e elementos orquestrais diversos, sempre embasados em um encadeamento harmônico que direciona a obra ao atonalismo. Para quem não está acostumado aos termos, a música atonal é aquela que não tem tonalidade definida. Trocando em miúdos, uma música pop, tipicamente tonal, conduz os nossos ouvidos a uma resolução estabelecida. Na música atonal isso não acontece. O caráter de suspensão perdura e nossa audição é levada a outros lugares, onde nem sempre haverá uma resolução clara.

Processo

Aqui reside o sucesso musical de Coringa. Normalmente o compositor entra numa produção quando esta já está praticamente pronta. A composição da música ocorre a partir das cenas montadas. Neste filme o processo foi invertido. Em entrevista à Esquire, Gudnadottir revela que compôs a música do filme apenas com o roteiro em mãos. Depois de pronta a trilha sonora é que o filme foi gravado. Ela conta que a música foi utilizada durante as filmagens, influenciando na interpretação do ator. Talvez por isso exista a sensação de que ele rege a música com sua dança e loucura.

Canções

A atmosfera retrô do filme exigia uma seleção de canções adequada. Entre essas músicas estão “Send in the Clowns” e “That’s Life”. Além disso, a jazzband do talkshow estrelado por Robert De Niro toca clássicos do jazz da década de 1940.  

Erro (spoiler leve)

Para não dizer que tudo foi perfeito em termos musicais, existe um pequeno erro de performance ao piano logo na primeira cena do filme. O Coringa está em frente a uma loja de instrumentos musicais prestes a fechar, mostrando um cartaz promocional ao público. Em frente à loja um pianista toca. Os movimentos das mãos não correspondem exatamente ao som ouvido. Um pequeno vacilo, só isso.

Para ir além

Playlist com a trilha sonora no Spotify

That’s Life

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