Secretário de Meio Ambiente de Ratinho Jr. chama restinga de "mato" e diz que vai "endireitar isso" | Jornal Plural
27 jan 2020 - 22h45

Secretário de Meio Ambiente de Ratinho Jr. chama restinga de “mato” e diz que vai “endireitar isso”

Em vídeos publicados nas redes sociais, Márcio Nunes sugere plantar grama para evitar erosão

Colaborou Rafaela Moura:

Em video gravado por ele mesmo no litoral do Paraná, o Secretário do Meio-Ambiente e Recursos Hídricos do Estado, Márcio Nunes, reclama que a casa “à beira-mar” virou “à beira-mato” e diz que vai “endireitar isso”. A gravação mostra o rosto do secretário e a vegetação – a restinga, que ele chama de mato – ao fundo.

Ao ser questionado pelo Plural, o secretário disse estar balizado por um decreto de utilidade pública. Segundo ele, a restinga é utilizada como esconderijo para “drogas, animais peçonhentos, cobra, rato e peste bubônica”, além de ser depósito de lixo, “que vira depósito de dengue.” O turismo é também um forte motivo para a retirada – ou poda – da vegetação nativa. “O pessoal quer praia bonita. Estamos fazendo uma faixa entre a calçada e a quebração de onda, a praia, onde as pessoas frequentam. Não estamos no meio da Mata Atlântica. As pessoas confundem restinga com mangue”, afirmou Nunes, ele próprio confuso.

O secretário repete, ainda, o argumento das espécies exóticas. “Vamos proteger uma coisa que não é daqui? É a mesma coisa que proteger o pínus que está proliferando dentro da Araucária. Aquelas plantas que estão na restinga não são daqui, é coisa que a universidade plantou 20 anos atrás e está tomando conta de tudo. É que nem um ET. Se você põe um ET num lugar, pode acontecer um desastre. O que é nativo é do lugar, é baixo, é rasteiro.”

Os especialistas, no entanto, discordam. Em nota técnico-científica assinada por 28 professores doutores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), os pesquisadores afirmam não haver estudos que tragam evidências de que a vegetação de restinga favoreça a ocorrência doenças e nem menção às restingas como ameaça à segurança pública ou à saúde coletiva no Plano de Desenvolvimento Sustentável do Litoral do Paraná (PDSLitoral/2019).

Inexistem também estudos listando as espécies exóticas e as categorizando como invasoras. “Ainda que estas possam existir, a remoção das espécies requer análise técnica e plano de manejo que não interfira na própria vegetação nativa objeto da ação e integridade do ecossistema (neste caso, a restinga)”, diz a nota.

Em um segundo vídeo, ao elogiar o quintal de um empreendimento à beira-mar, o secretário defende o uso do gramado na proteção da praia contra erosão marinha. “A função da restinga é estabilizar a duna. Hoje tem materiais de baixo porte, gramíneas, herbáceas, que fazem o papel de estabilizador sem estar com o troço daquela altura lá”, explicou Nunes ao Plural, ignorando os demais serviços ecossistêmicos proporcionados pela vegetação. Segundos os especialistas da UFPR, além de estabilizar o sedimento, as restingas abrigam diversidade de flora e fauna, têm participação na ciclagem de nutrientes e no controle de inundações.

Em resposta aos argumentos presentes no laudo técnico-científico e ao posicionamento do Ministério Público, que disse haver indicativo de crime ambiental na poda da vegetação, o secretário do meio-ambiente disse que “a justiça julga” e que a população que tem casa ou apartamento lá está 100% com ele. E reclamou: “Aí tem gente que mora aqui em Curitiba, não tem nem casa, nem apartamento lá, fica atrás de uma escrivaninha, do ar condicionado e vai pra Camboriú ainda, porque lá não tem restinga, que é contra. Teve um cara que, 2020 anos atrás, falou para não fazer com os outros o que não quer que faça com você mesmo. Ele curou leproso, ressuscitou Lázaro. E teve gente contra. Os contra são contra o que está errado e o que está certo. Estou dizendo que temos segurança técnica, segurança jurídica e estamos cobertos por decreto governamental”.

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