A maioria das pessoas não precisa fazer nenhum esforço para realizar as atividades mais simples do dia a dia, como escolher e identificar a cor da roupa que quer usar e vesti-la com tranquilidade. A ação é automática, não tem segredo. Em alguns segundos, as peças que compõem o ‘look’ já estão no corpo, prontas para servir como uma forma de identidade diante do olhar dos outros.
Para as pessoas com deficiência física, visual ouintelectual, a história é diferente. Quem não consegue enxergar geralmentenecessita da ajuda constante de um familiar ou cuidador para a simples tarefade separar a calça ou a camisa da cor que gostaria de usar. Afinal, como oscegos sabem que uma roupa é vermelha e a outra é azul? Como eles têm certezaque estão sendo vestidos do jeito que querem?
Quem se debruçou sobre essas questões foi a doutoranda Sandra Marchi, do curso de Engenharia Mecânica da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ela desenvolveu um sistema de código de cores, o ‘See Color’, que tem o objetivo de auxiliar os deficientes visuais a identificarem as cores em diferentes objetos do cotidiano, desde esmaltes, batons, sapatos, a tecidos e embalagens de tintas. O projeto foi orientado pelos professores Maria Lúcia Leite Ribeiro Okimoto e Ramón Sigifredo Cortés Paredes.

Graduada em Artes Plásticas pela Universidade do Estado deSanta Catarina (Udesc), Sandra veio para a capital paranaense para fazer mestradoe doutorado e se aprofundar nos estudos sobre as cores. “Aqui eu comecei atrabalhar com tecnologia assistiva, que é aquela que melhora a vida daspessoas, principalmente as com deficiência. Um dia eu conversei com umprofessor de Física da Udesc, Milton José Cinelli, que me contou sobre otrabalho que fazia com crianças cegas em uma instituição e disse que estava comdificuldade para ensiná-las sobre as cores. Então eu, como artista e professorade pintura em tela por muitos anos, comecei a pensar sobre como faria paraajudá-lo”, conta.
O primeiro sistema que veio à cabeça foi o Braille, a leituratátil utilizada pelos cegos. Segundo Sandra, o problema, no entanto, é que essalinguagem é bastante extensa. “Eu percebi que teria que ser algo em trêsdimensões. Vi que já existiam algumas pesquisas, mas os códigos não eramsuficientes. Para escrever ‘amarelo’ em Braille na etiqueta de uma roupa, porexemplo, ficaria muito longo. A ideia era fazer uma coisa pequena, mas quefosse perceptível ao tato, para que o cego pudesse compreender”.
Reconhecendo as corescom o tato
No começo, Sandra criou um sistema com bolinhas de isopor epalitos de madeira, até chegar no triângulo cromático, com as três coresprimárias: vermelho, azul e amarelo. “O cego sente o código com as mãos e é bemsimples de aprender. É só imaginar um relógio com um ponteiro no centro. Eu useio ponto do Braile e uma linha. Se ela está apontando para cima é o vermelho,para o lado esquerdo é o azul e para o outro o amarelo. A pessoa só precisafazer um mapa mental disso”, explica.
O que antes era um protótipo, criado em impressora 3D, virouum triângulo feito de madeira, onde é possível encaixar também as coressecundárias, entre as primárias. “Assim, a pessoa consegue ter uma noção de mistura.Além disso, o preto e o branco estão em uma estrutura separada do triângulo, umdo lado esquerdo e o outro do lado direito, respectivamente”.
A partir daí, é só aplicar o código nos objetos, usando de um molde vazado e de tinta em relevo. “A própria pessoa pode customizar as suas roupas ou outros pertences sozinha. A ideia é justamente a independência. Um cego não precisa depender de ninguém para fazer as coisas mais simples, como escolher o que vestir. A autossuficiência, o empoderamento, aumenta a autoestima”, avalia a artista plástica.
É fácil de memorizar
De acordo com a doutoranda, as pesquisas mostraram que oprocesso de aprendizagem do código é muito rápido. “Nós fizemos uma experiênciacom 18 cegos. O que vimos é que tanto eles quanto as pessoas que enxergammemorizaram o sistema em 20 minutos, já que só é preciso gravar a posição dascores. Eu mesma fiquei surpresa com isso, porque achei que levaria três, quatrodias para ensinar como o triângulo funciona”.
Como a moda é dinâmica e os produtos não são feitos apenas de cores primárias e secundárias, o jeito foi ir além: hoje, o ‘See Color’ tem um total de 94 cores, uma variação das oito iniciais.

Fácil de aprender e aplicar, o projeto foi tão bem recebidopela comunidade que foi destaque no prêmio Viva Inclusão, organizado pelaprefeitura de Curitiba, em dezembro do ano passado. A iniciativa homenageia as boaspráticas pela igualdade de direitos desenvolvidas na capital.
“Ter o trabalho reconhecido depois de tantos anos dededicação é muito gratificante. Diante de um caminho sofrido, saber que osistema deu certo e gerou bons resultados é maravilhoso”, comenta.
E se todo mundoaprendesse?
O próximo passo agora, segundo Sandra, é tornar o código decores um sistema popular e acessível, com o uso nas escolas e no mercado demodo geral. “Nós estamos conversando para transformar o ‘See Color’ em umalinguagem universal. Normalmente, quando as crianças aprendem sobre as cores,ou é no papel ou pintando. Mas esse processo é abstrato. Por outro lado, se apessoa manuseia o triângulo, as cores viram algo palpável”.
Para ela, todas as crianças podem aprender como o código funciona, independente de serem ou não deficientes visuais. “Nós queremos colocar o triângulo nas escolas, para que os alunos brinquem com ele, sem estigmatização. Assim, o cego e o estudante com baixa visão aprenderão juntos com aqueles que enxergam”, conclui.
Moda funcional
Escolher a cor da roupa ou de um acessório é apenas o começode uma série de dificuldades que pessoas com qualquer tipo de deficiênciaenfrentam quando o assunto é vestimenta. O tipo de tecido, o fecho e a costura,por exemplo, são itens que têm o poder de facilitar ou complicar a vida dosdeficientes no dia a dia.
Partindo desse princípio, a designer de moda formada pela Udesc e também doutoranda da UFPR, Bruna Brogin, desenvolveu o projeto ‘Co-Wear – Método de Cocriação de Moda Funcional’, para produzir peças inclusivas, desenhadas e criadas especificamente para pessoas com deficiência.

No total, já são seis anos de pesquisa: dois no mestrado, feitona Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com orientação do professorVilson João Batista, e quatro de doutorado, com a mesma professora de Sandra, MariaLúcia Okimoto.
“A iniciativa partiu da percepção de que roupas não adaptadascausam dependência. Muitas vezes, quando as pessoas não conseguem se vestirsozinhas, elas deixam de participar da vida social, por não se sentirem belasou capazes. É importante frisar que a moda inclusiva não se trata apenas decobrir o corpo, mas também de lidar com o manuseio das peças, quando faz frioou calor, ou na hora de tirá-las para ir ao banheiro. Se você não tem ninguémpara ajudar nesse último caso, acaba deixando de ir trabalhar, estudar ou defazer um passeio”, diz Bruna.
É caso de saúde
Quando a doutoranda afirma que o projeto vai além da vaidade, ela está falando sério. De acordo com a designer, são inúmeros os casos em que zíperes machucam a pele ou que a pressão causada por botões provoca feridas graves.
“São vários relatos de alergia ou até mesmo de sufocamento,no momento em que uma blusa fica travada no pescoço e a pessoa não tem aagilidade necessária para passá-la até a região do peito. Há muitas outrassituações sérias, entre elas, o caso em que um cuidador foi tentar colocar a roupaem uma criança e acabou quebrando o braço dela”, relata.
Uma pequena alteração em uma calça pode melhorar a saúde e a qualidade de vida. “Quem não realiza movimentos de destreza fina com as mãos não consegue fechar um zíper. Além disso, para colocar uma calça, geralmente a gente estica a coluna e encolhe a barriga. Os cadeirantes não têm como fazer isso com facilidade, como se vestem sentados. Então nós deslocamos a parte do fecho para a lateral do corpo e substituímos o zíper por imã ou velcro, o que já faz muita diferença.”
Outras mudanças aprovadas por quem teve contato com o projetosão as alças costuradas dentro das calças, ajudando os cadeirantes a sevestirem sentados; e a aposta de elásticos mais grossos nas bermudas, paraevitar nós e laços. Assim, a peça sobe e desce com tranquilidade, sem o perigode prender no momento em que a pessoa vai tirá-la para usar o banheiro.
Por que ‘cocriação’?
Bruna explicou que a participação da pessoa com deficiência épeça-chave para o desenvolvimento da moda funcional. Daí o conceito decocriação, em que designer e público-alvo se unem para tornar o projetopossível. “Quem melhor pode falar quais são as necessidades de mudanças são osdeficientes. Alguém que não vive essa realidade não vai ter como produzir algobom sozinho. Juntos, o projetista e a pessoa interessada realizam todas asetapas, usam as ferramentas disponíveis e chegam a um desenho final, que seráprototipado e confeccionado”.
Antes da produção da roupa, no entanto, os envolvidos precisamresponder um questionário detalhado sobre o modo como se relacionam com o guarda-roupa.A partir daí, o designer vai descobrir qual é o tecido preferido da pessoa, emque posição ela senta e se veste, e se o seu cuidador tem ou não algum tipo de desconfortopara relatar.
“A simples tarefa de vestir uma calça, que pode ser bem complicada, é seccionada em 15 mini atividades. Nós analisamos se a pessoa consegue inserir o pé no lado direito da peça, depois no lado esquerdo, e assim por diante. No total, são três ou quatro momentos de cocriação. É um trabalho bem minucioso”, declara.

E engana-se quem acha que a autora do projeto não se preocupa com as estampas e modelos das roupas. Muito pelo contrário: a iniciativa conta com uma pesquisa de tendências para que os deficientes façam parte do mundo da moda. “A ideia não é fazer só uma peça e acabou. Queremos desenvolver coleções completas, por isso analisamos o mercado e buscamos as melhores soluções, tecidos, cores e adaptações”.
Assim como o código das cores, o ‘Co-Wear’ também foi destaque no prêmio Viva Inclusão, da prefeitura. “Eu fiquei muito feliz com o reconhecimento. Nós vimos muitas iniciativas boas e saber que o meu projeto tem o potencial de ajudar os outros é incrível. O que queremos é continuar motivando as empresas a colocarem peças inclusivas no mercado e, quem sabe, até fazerem um desfile de moda, para que essas pessoas se sintam representadas em todos os setores”, finaliza.