Chega a ser difícil elaborar ou descrever como era a rotina das pessoas antes da popularização dos smartphones. Hoje, o aparelho que também substituiu os relógios, despertadores e câmeras fotográficas é responsável pela primeira e também pela última ação que fazemos no dia: olhar o celular.
Tudo está lá, hora, data, dinheiro, interações sociais e até nossas memórias, condicionadas à existência de fotos e vídeos salvos. Contatos, aniversários, receitas de família, tudo a um clique. Se antes de 2010 os celulares eram raridade, hoje é quase impensável não ter um aparelho que nos acompanha até mesmo no banheiro.
Isso, é claro, faz com que boa parte da nossa rotina esteja condicionada à companhia do celular. Passamos cerca de 9h por dia conectados, segundo uma pesquisa da Consumer Pulse publicada em 2025. A pesquisa ainda mostra que, dessas nove horas, os brasileiros gastam cerca de três delas dedicadas somente ao uso das redes sociais.
São horas vendo fotos, respondendo mensagens e assistindo a vídeos nas redes sociais, que falam sobre os mais variados assuntos: mercado de trabalho, entretenimento, moda, consumo e, é claro, saúde mental.
No Instagram, a hashtag #saudemental possuía mais de 17 mil publicações; no TikTok, são mais de 1,9 milhão de posts. As publicações abordam uma ampla gama de conteúdos: sintomas, cuidados, ajuda, tratamentos e até mesmo diagnósticos. As informações são sempre acompanhadas de comentários com relatos de identificação com os conteúdos publicados ou pedidos de indicações para buscar ajuda ou tratamento. Mas será que as redes sociais estão mesmo discutindo saúde mental ou debatendo apenas os transtornos mentais?
Saúde mental ≠ Transtorno mental
Em primeiro lugar, é preciso entender a diferença entre saúde mental e transtornos mentais. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde, saúde mental é um estado de bem-estar que permite que as pessoas lidem com os momentos estressantes da vida, desenvolvam todas as suas habilidades, sejam capazes de aprender e trabalhar adequadamente e contribuam para a melhoria de sua comunidade. Já os transtornos mentais são geralmente caracterizados por uma combinação de pensamentos, percepções, emoções e comportamentos anormais, que também podem afetar as relações com outras pessoas.
Entre janeiro e agosto de 2026, o termo de pesquisa “onde fazer terapia” foi buscado 1.530 vezes no Google Trends, um aumento de 50% em relação ao mesmo período de 2025.
Essa tendência pode estar diretamente associada ao crescimento da procura por atendimento psicossocial. No Paraná, por exemplo, os dados oficiais da rede pública estadual mostram que os atendimentos aumentaram 19% em 2025 na comparação com o ano anterior, passando de 2.144.086 atendimentos para 2.551.463. Já no primeiro mês de 2026, foram registrados 428.220 atendimentos na Atenção Primária à Saúde apenas no estado.
Mas será que essa busca começa mesmo na internet? Uma breve olhada nos vídeos publicados na #saudemental no TikTok mostra que eles vêm acompanhados de outras hashtags, como #ansiedade e #depressão. Para o mestre em Psicologia, doutor em Educação e professor do curso de Psicologia da PUCPR, Wallisten Passos Garcia, na tentativa de discutir saúde mental, a internet acaba focando a discussão nos transtornos relacionados:
“A internet fala muito mais sobre transtorno mental do que propriamente sobre saúde mental. As pessoas falam mais sobre suas dificuldades. Associado ao fato de que as pessoas também passaram a se expor muito mais, acabamos passando por um processo, que não se restringe ao mundo virtual, da patologização das nossas emoções.”
Mas o que seria a patologização das emoções?
Para o professor, isso está relacionado a passarmos a associar o que sentimos apenas a transtornos ou divergências mentais e esquecermos que esses sentimentos isolados não representam um quadro clínico:
“Hoje em dia, qualquer sentimento negativo demanda uma compreensão a partir de um determinado diagnóstico ou transtorno. Se a gente for parar para pensar, desde sempre nós, enquanto seres humanos, vivemos momentos bons e momentos ruins. A tristeza, a angústia, a ansiedade sempre fizeram parte da nossa vida de alguma forma. Quando a gente fala desse processo de patologização das emoções, das relações sociais, a gente está falando de que qualquer sentimento que vem contra um suposto bem-estar é visto como um transtorno.”
A tristeza vira automaticamente depressão, o estresse vira ansiedade, a falta de atenção se torna TDAH e a dificuldade em interagir com outras pessoas é considerada como um dos sintomas do transtorno do espectro autista. Esses “sintomas” podem estar associados a transtornos, mas isolados e sem diagnóstico correto não podem ser considerados doenças, afinal são sentimentos inerentes à existência humana. Garcia reforça:
“A internet, por si só, não é negativa, nem ruim. A tecnologia, e nesse caso a internet, as redes sociais fazem parte da nossa vida, então é algo que não podemos vilanizar. Ela pode ser utilizada como uma ferramenta de busca para levar ao autocuidado. Eu vou pra internet, percebo uma queixa, noto que preciso olhar para isso com mais atenção. Esse seria o melhor caminho, já que a internet não é por si só e nem deve ser considerada como o cuidado em si.”
Esse é o caso de Viktoria Kuhl Rakucki, de 26 anos, diagnosticada há três anos com autismo, diagnóstico que começou no TikTok. Um dia, ao navegar pelo aplicativo, ela foi impactada por um vídeo com o título “Coisas que eu achava que eram completamente normais mas na verdade eram sintomas de autismo”. Ao terminar de assistir, comentou com o namorado: “todo mundo faz isso” — mas foi surpreendida pela resposta negativa.
“Eu já fazia acompanhamento com psicóloga há muitos anos, mas ela não era neuropsicóloga. Conversei com ela sobre e ela fez o encaminhamento para uma psico específica para avaliar. Nesse meio tempo eu consumi tudo que eu podia sobre o assunto, não só em redes sociais, mas tudo mesmo. Um mês antes dos testes eu li três livros seguidos sobre o assunto. Eu processei muito do que significava esse diagnóstico antes de ir atrás dele oficialmente, mas esse se analisar pela lente do diagnóstico é algo que vai permanecer pra vida toda.”
Para Viktoria, os estereótipos relacionados aos transtornos que também são propagados pelas redes dificultam diagnósticos:
“Um dos motivos de não ter ido atrás de um diagnóstico antes, ou até ter considerado essa possibilidade, é porque eu não me encaixo no estereótipo de autista. Eu não sou um garoto de 6 anos que chora no mercado enquanto resolve equações matemáticas complexas. Eu sou uma mulher, artista, extremamente tagarela e com muitos amigos. Nunca nem considerei isso ser uma possibilidade, e aqui entram todas as questões de gênero que podem ser aplicadas a um assunto complexo como esse. Mulheres mascaram muito mais do que homens, porque muitos dos comportamentos comuns em meninos autistas são podados em meninas muito antes.”
As redes sociais também ajudaram Viktoria a se entender e lidar de forma mais leve com o diagnóstico:
“Acho que existe conforto em ver pessoas falando de dores compartilhadas, de entender-se semelhante quando tudo que sempre te falam sobre é que essa é uma parte essencialmente errada de quem você é.”
Em 2022, o IBGE mapeou o Transtorno do Espectro Autista no Brasil pela primeira vez. Os dados apontam que cerca de 2,4 milhões de brasileiros possuem diagnóstico de autismo feito por um profissional de saúde, o equivalente a 1,2% da população. Na proporção o diagnósticos do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é mais comum em homens, cerca de 1,44 milhão de homens são diagnosticados contra 960 mil mulheres.