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Até cursar Mestrado em Química, o cinema não passava pela cabeça de Paulo Abrão

Com o curta-metragem “Interior, Dia", o cineasta de trajetória improvável venceu a Mirada Paranaense do Olhar de Cinema

Até cursar Mestrado em Química, o cinema não passava pela cabeça de Paulo Abrão
Paulo Abrão e Luciano Carneiro, na Premiação do Olhar de Cinema. (Foto de: Lina Sumizono/Divulgação).
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O curta-metragem “Interior, Dia” venceu o prêmio da Associação de Vídeo e Cinema do Paraná (Avec-PR) como melhor filme da Mostra Mirada Paranaense no 14º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba. Com direção e roteiro de Paulo Abrão em parceria com Luciano Carneiro (que também assina como montador), o filme concorreu com outros oito rodados no estado. 

A produção está naquele entrelugar onde o documentário e a ficção se cruzam, um gênero híbrido que  foi um dos prediletos da curadoria neste ano. Na história que se passa em Sapopema, cidade com aproximadamente sete mil habitantes localizada no Norte Pioneiro do Paraná, o próprio Abrão interpreta o personagem Paulinho. O cineasta viveu ali por muitos anos e sua mãe ainda mora lá.

O enredo mostra uma mulher misteriosa que toca fogo em seu passaporte e numa peruca. Isso é o ponto de partida para uma jornada, guiada por Paulinho, que chega à cidade de Sapopema e encontra um retrato 3×4, além de outros registros fotográficos sobre o território e os moradores dali. 

Paulo Abrão

O filme de estreia de Abrão rendeu um currículo e tanto para o jovem de 29 anos. Codirigido por Indigo Braga, "Animais noturnos" (2024), emplacou entre os selecionados do Curtacinema - Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro, do Mix Brasil de Cultura da Diversidade e da Mostra de Cinema de Tiradentes, entre outros eventos do gênero. A despeito das apostas em sorte de principiante – justificadas pela trajetória improvável até o lado de trás das câmeras – o roteirista e diretor agora ganha espaço entre os nomes promissores com a premiação conquistada por “Interior, Dia” (em sua primeira exibição).  

O cineasta conversou com o Plural sobre sua carreira e o filme premiado. Falou da influência do documentarista brasileiro Eduardo Coutinho e do português Miguel Gomes, sobre a parceria com Luciano Carneiro, e também contou como nasceu a ideia para o curta. Ele ainda deu uma dica a respeito de outro filme paranaense que esteve em cartaz durante o Olhar de Cinema. Confira a entrevista com Paulo Abrão a seguir.

 Qual a sua formação, onde estudou ou se profissionalizou? 

Sou natural de Curitiba, me mudei para Sapopema aos nove anos e voltei para Curitiba para cursar Química na UFPR. Depois me mudei para o Rio de Janeiro, onde fiz Mestrado em Química na UFRJ. O cinema não me passava pela cabeça antes disso. No período em que morei no Rio de Janeiro, comecei a me atentar mais ao mundo das artes e do audiovisual. Então busquei por cursos de curta duração de produção cultural, a própria Bolsa Qualificação Cultural durante a pandemia do Covid-19, oferecido pelo Governo do Estado do Paraná, e me especializei em Ações Poéticas e Educacionais na Contemporaneidade pela UEL.  

Por favor, conta um pouco de sua trajetória no segmento audiovisual? E qual é sua atividade principal hoje? 

Dirigi o filme “Animais noturnos” (2024), com Índigo Braga, que circulou por diversos festivais, como o Janela Internacional de Cinema do Recife, e venho atuando na produção audiovisual entre o Paraná e o Rio de Janeiro. Sou doutorando em Educação em Ciências e Saúde na UFRJ, onde pesquiso a interface entre educação do campo e agroecologia em uma escola do campo em Sapopema. 

Quais são suas principais referências no cinema? Alguma delas pode ser reconhecida no curta-metragem exibido no Olhar de Cinema?

O documentarista Eduardo Coutinho sempre foi uma grande referência, pela forma com que ele experimentou com a linguagem documental e principalmente na relação dos entrevistados com a própria construção do filme. Outra inspiração para o filme foi “Aquele querido mês de agosto” (2008), do diretor português Miguel Gomes, pelo jogo livre que ele estabelece entre a ficção e o documentário para construir o retrato de um território.

Sobre o que é, qual o enredo de “Interior, dia"? Este não é seu primeiro trabalho em cinema. Ele conversa com a temática de seu filme anterior?

“Interior, dia” é muito diferente de “Animais noturnos”, mas ambos exploram o cinema de gênero. “Interior” é um híbrido entre documentário e ficção. Paulinho, o personagem que interpreto, recebe um envelope com fotos trocadas e inicia uma busca pela mulher misteriosa das imagens. No meio do caminho, conversa com moradores da cidade que interpretam a si mesmos, como a minha mãe, Rose, e Elizeu, o barbeiro.

A linha curatorial desta 14ª edição do festival foi guiada por produções que discutem a memória e o tempo. Como isso aparece em seu filme? De onde surgiu a ideia para o roteiro?

Em 2021, durante a pandemia, comecei a pesquisar o acervo do fotógrafo Almiro da Silva, de Sapopema, logo após a sua morte. Ele deixou um arquivo de mais de 8 mil fotos com pessoas da cidade. Algumas fotos desse acervo, junto com histórias da minha família e de outros sapopemenses, deram origem ao filme. 

Há um codiretor e corroteirista no filme. Como é o trabalho conjunto, a dinâmica e a parceria de vocês?

“Interior” é uma parceria de direção e roteiro com Luciano Carneiro, que também é montador do filme e já havia trabalhado com filmes de arquivos. Desde o início da minha pesquisa com as fotografias do acervo do fotógrafo Almiro da Silva, trocamos ideia do que seria possível fazer com elas, então vimos a possibilidade de transformar estas imagens em um documentário. Luciano não conhecia Sapopema, mas a experiência dele com o cinema foi fundamental para o projeto. Foi a partir do nosso encontro que a ideia do filme foi se transformando e ganhando também elementos do mundo da ficção. 

Documentário e ficção. Existe um limite entre esses gêneros, alguma fronteira que não se deve cruzar? Como os dois gêneros estão presentes no curta-metragem?

Esse entrelugar do documentário e da ficção sempre me interessou muito. Neste filme, o caminho do hibridismo nos permitiu explorar a cidade de Sapopema e os temas que nos interessam de uma maneira mais livre. Criamos a narrativa junto com os personagens, descobrindo o filme durante os seis dias em que gravamos na cidade. Depois, a montagem do filme completou esse processo, também de maneira livre. 

Anos atrás, antes mesmo de sonhar em trabalhar com cinema, fui muito tocado por “Jogo de cena” (2007), do Eduardo Coutinho. A forma como o filme aborda o documentário de entrevistas através de uma perspectiva da performance, abraçando ao mesmo tempo a tradição documental e o melodrama, me impactou muito, e refletiu no “Interior, dia”. 

Quanto tempo levou o processo de produção do filme e como ele foi financiado? Qual foi a maior dificuldade no caminho até a estreia de “Interior, dia"? 

O projeto foi aprovado pela Lei Paulo Gustavo na prefeitura municipal de Sapopema, em 2023, e recebeu complementação de recursos via Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) pela SEEC/PR. A maior dificuldade foi dar início a uma cultura de produção audiovisual numa cidade pequena como Sapopema porque, embora a LPG tenha sido importante para descentralizar recursos do audiovisual, na esfera municipal essa articulação foi bastante trabalhosa, já que alguns municípios sequer tinham produzido editais de incentivo à cultura antes.

Você é um jovem cineasta, qual a importância de ter um filme selecionado e exibido em um festival de destaque no Brasil e que acontece em Curitiba?

Nasci em Curitiba e fui embora jovem, mas conforme os anos foram passando senti que talvez seria mais realizado profissionalmente se tivesse continuado aqui, por ter mais acesso a educação e cultura. Depois de tantos anos, vejo que essa mudança para Sapopema foi importante e o interior é parte fundamental do meu trabalho. Fico feliz por voltar para Curitiba nesse momento, com esse filme. 

Além do seu curta, o que você assistiu de melhor nesta edição do Olhar de Cinema? 

A programação do Olhar deste ano estava ótima, mas gostaria de destacar um outro filme do Norte do Paraná, que também estava na mostra Mirada Paranaense. “Dança dos vagalumes”, de Maikon Nery, é tematicamente diferente, mas compartilha este mesmo cenário do interior. É um filme que mistura linguagens de forma muito poética e se passa no assentamento Eli Vive, em Londrina.

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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