A primeira vez que vi Aroldo Murá foi em 1998 na sede do Indústria & Comércio, na época um jornal de peso na cidade. Me ligaram para uma entrevista de estágio e saí correndo da casa do André Tezza, que até me emprestou uma camisa para a ocasião. A ideia era fazer três dias de reportagem e ver no que dava. Não deu em nada: eu estava absolutamente cru e perdi a vaga sei lá para quem.
Mas conhecer o "Professor Aroldo" foi curioso. Ele me recebeu numa sala isolada da redação, disse que conhecia meu avô e meu tio (ele conhecia todo mundo) e que seria ótimo se eu passasse no teste. Parecia um sujeito gentil (uma amiga me diz que, comparado com os outros chefes de redação de Curitiba da época, ele estava alguns degraus acima, junto com o Mussa, do Estadinho).
Na época, enquanto escrevia minhas primeiras reportagens naqueles computadores de tela preta com letras verdes fosforescentes, eu não sabia quase nada dele. Mas trabalhando como jornalista em Curitiba era impossível não saber do Professor. Ele era conhecido tanto pelo seu histórico (era daqueles que tinha feito jornal na composição em chumbo, trabalhando na Voz do Paraná, como também por algumas curiosidades excêntricas.
Dizem que ele contratou um repórter porque perguntou o PIB do Canadá: e o menino sabia! Outra amiga conta que ele andava pela redação em certos momentos dizendo que precisava de alguém com "espírito germânico" para certa matéria. Era do tipo que sabia informações sobre a história do Paraná de ponta cabeça - e conhecia a Igreja Católica como ninguém.
Conservador, sim. Mas não desses malucos de porta de quartel. Era daqueles que tinha suas convicções, principalmente religiosas, e que não abria mão delas - mas no Indústria, contam que abrigava os vermelhinhos numa época em que isso era bem malvisto. Tinha lá seus comunistas e não deixava que mexessem com eles.
Na balada da religiosidade aberta para o conhecimento, criou e presidiu o Instituto Ciência e Fé, talvez sua obra preferida. Tinha orgulho também de ter dado uma contribuição para a cultura da cidade - foi chamado por Jaime Lerner para conselheiro da Fundação Cultural de Curitiba, e continuou lá no mandato do prefeito Saul Raiz.
Tinha fama de generoso. Martha Feldens, uma das minhas primeiras editoras, e que trabalhou com ele em dois períodos diferentes, conta que ele emprestava dinheiro para muita gente, e nem sempre recebia de volta. "O tanto de gente que ele ajudou, que ele acolheu. Eu fui uma dessas. Cheguei em Curitiba e foi ele quem abriu as portas para mim ", diz Martha, que começou foca com ele, antes de ir para o Jornal do Brasil - e que voltou para dividir a chefia do I&C nos anos 90.
Depois de encerrar a carreira em redações, continuou escrevendo. Por um lado, fazia sua coluna que mandava por e-mail. Teve seus furos mesmo nesse período: foi ele, por exemplo, quem antecipou o fim da Gazeta do Povo impressa, num momento em que os donos juravam de pés juntos que isso não aconteceria (a fonte foram amigos da igreja que tentaram renovar a assinatura e não conseguiram. O velho Aroldo entendeu o que viria).
Por outro lado, fazia seus livros. Inventou uma série de volumes com perfis biográficos, chamada "Vozes do Paraná". Começou com os nomes grandes, depois foram entrando outros, e logo eram 13 volumes. Quando ficou doente do câncer, estava preparando o número 14. Também não conseguiu um outro livro chamado "Encontros do Araguaia - Construtores do Paraná no Século 20". Mas fez a biografia de João Elísio Ferraz de Campos, o livro "Seu nome é João".
E continuava passando pra frente o que sabia. Diego Antonelli, um raro jornalista especializado em História, diz que adorava ficar conversando com ele. "Me estendeu a mão quando fiquei sem emprego, me indicou inúmeras vezes para diversos trabalhos e projetos, me confiou a tarefa de escrever o livro sobre o jornal Voz do Paraná e, sem eu esperar, me mandava mensagem só para saber como estava a vida", disse. "As nossas conversas navegavam pelos mais diversos assuntos, incluindo política, filosofia, religião, viagens e gostos culinários. Os papos duravam horas."
Nos últimos dias, já em estágio terminal, foi internado no São Vicente. Por alguns dias, ainda lúcido, recebeu amigos e gente que ajudou a se iniciar na profissão. Nesta terça (3), faleceu, aos 82 anos, com 60 de carreira no jornalismo.