Para a felicidade da piazadinha, nesta quinta-feira (27) entra em cartaz nos cinemas do Brasil “O Homem-Cão", animação da Universal Pictures em parceria com a DreamWorks baseada na série de HQs – que conta as aventuras do personagem metade homem, metade cão e totalmente herói – assinada por Dav Pilkey. Eu não sei como é na casa de vocês, mas por aqui a foto do autor (que também é o criador de "Capitão Cueca”) quase ganhou um oratório por milagres que opera na batalha pela leitura.
https://youtu.be/2dR9o0_PBSc?si=72EyO-tTLHXEezRX
E agora ele tem companhia. Peter Hastings, roteirista e diretor do filme, pôs fim à angústia de um menino de nove anos de idade que há seis meses aguardava a estreia do longa-metragem (já estava chato provar dia a dia que os ingressos ainda não estavam à venda).
Para quem prefere a versão curta da história, o filme – com seu humor maroto que não escorrega para o gênero "5ª série B" – é tão bacaninha que a mãe, de mera motorista e provedora de ingressos, foi promovida à turminha descolada dos fãs do Homem-Cão. Já o menino me deu um susto ao dizer que não foi tudo o que ele esperava. “Não?! Como assim?” “É que eu esperava menos, e foi mais.” “Ah, tá!”
Roteiro surpreendente
O Leonardo, aquele guri que andava ansioso pelo lançamento, saiu do cinema empolgado e foi logo dizendo o que achou mais surpreendente “eles resumiram do livro um ao oito… em meia hora”. O tempo passa mais rápido quando a gente está se divertindo, o filme tem 90 minutos. Ele seguiu explicando a grandiosidade da façanha de levar tantos, talvez todos os personagens das HQs para a tela, enquanto lembrava de easter eggs do nono ou décimo título da série. Mas eu garanto, não precisa ter lido nenhum dos volumes da coleção para acompanhar o roteiro. (Meu filho discorda, indica ler pelo menos até o número sete “ou não dá para entender nem a metade”).
A história é fácil de seguir, assim agrada uma faixa etária ampla, algo mais ou menos entre 5 e 10 anos, não cai na monotonia porque tudo é uma aventura na eterna luta do herói contra o supervilão. Com risadas no lugar de qualquer caretice, eu me surpreendi com o tanto de coisas legais mostradas em cena, por exemplo: que cães e gatos não precisam se odiar e podem ser bons amigos; que um gato teimoso pode mudar de ideia; que apesar de ser um cachorro bonzinho, às vezes a sua vida muda, mas novas bolinhas virão; que não conhecemos as batalhas internas de um gatinho que virou um ser malvado, que é muito massa ser certinho e que livros são importantes… Não, não estamos falando só do Homem-Cão e do Pepê e tem momentos em que rola um exagero (justificável: é um filme para crianças).
E ainda caiu um cisco no meu olho, daí eu atrapalhei a concentração do meu filho com um abraço meio fora de hora, exatamente quando saquei que o superpoder da história é o afeto. Ele é a arma que vence todos os vilões e destrói qualquer plano maligno, é fofo demais. (A questão da fofura revoltou o moleque e fui acusada de estar desmotivando a audiência: "Tem muita ação!")
Decidir qual personagem mais gostou não foi fácil: “entre os principais, aí complica”. Dá para entender, eu adorei o Pepezinho, dá vontade de apertar esse gatinho, só que ele sozinho renderia um filme chato… precisa do grupinho dos principais para balancear emoção e aventura com boas piadas. No time dos coadjuvantes, a escolha do menino foi rápida (não será revelada para evitar spoiler). Nem todas as expectativas relacionadas ao elenco foram atendidas, houve uma reclamação pelo papel muito pequeno da cachorra Zuzu, a poodle da repórter Sarah Hatoff no longa. “Mas, no livro, ele participa bastante!”
Gráficos 'top' e dublagens
https://youtu.be/rdvY8ZkUSd8?si=gZ2hFrPDGttAN758
Do nada, o piá soltou “Os gráficos são top!”, e ainda reforçou a opinião repetindo a frase várias vezes. Eu concordo, certamente por motivos diferentes. Ele, intuitivamente, deve ter curtido a fidelidade ao trabalho de Pilkey. O diretor Hastings anteriormente foi responsável pela série “As Épicas Aventuras do Capitão Cueca", suas escolhas para a animação de “O Homem-Cão” foram generosas com o autor e, principalmente, com os fãs.
Eu fui pega pelo estilo e pela nostalgia. Confesso que os animes e seus agregados não estão entre os meus prediletos, então já começou ganhando pontos por não se tratar disso. Depois, o efeito do enredo com os traços abriu a porta para lembranças do "Manda-Chuva” (Top Cat, nos Estados Unidos), desenho animado da Hanna-Barbera do início dos anos 1960, que foi exibido na TV aberta brasileira nas décadas de 1980 e 90. Para quem não tem a referência, era uma gangue de gatos de rua que tentava emplacar planos de golpes para enriquecer e enfurecia o guarda Belo, que vivia tentando prender a patota. Ao contrário de “O Homem-Cão”, Manda-Chuva não era exatamente edificante, os anos 80 tinham disso; contudo, foi muito bom lembrar da minha infância enquanto observo a do Léo.
E a dublagem me impressionou, está ótima. Há tempos eu não ouvia uma tão boa, e os anos assistindo filmes e animações dubladas por causa do meu filho (e um certo grau de chatice auditiva) me dão autoridade para elogiar. Os dubladores estão de parabéns. Meu filho concordou, “a dublagem tá bem boa".
Gostei, não gostei
Agora vem a discórdia e uns acordos. Entre as coisas que o Leonardo mais gostou, ainda temos a Casinha do Homem-Cão, o motivo é que parece mesmo com a dos livros. "Porque muita coisa foi meio modificada no filme". “Sim, filho. É um filme, não dá para seguir tudo como está nas HQs". Argumento aceito, um pouco a contragosto.
Vieram os ‘nãos’: “não teve laser!” (não foi bem assim, ele queria mais lasers); "não gostei daquele quadro dos vilões procurados, que tem o cara do livro oito" ... "porque passou muito rápido e eu não consegui ver direito" (falou enquanto os olhinhos brilhavam, denunciando o quanto adorou o tal do quadro); “não gostei que, tipo assim, a história não estava em ordem; teve um pedaço do livro dois, foi pro três, voltou pro dois e foi direto pro sete”...
“Sim filho, é porque é um filme.”
Finalmente, chegamos ao ‘não gostei’ em que ele tem toda a razão e eu absolutamente concordo: gente, faltou a cena extra (ali, após os créditos ou até no meio deles). O garoto fincou o pé e só saiu da sala quando o último nome subiu e acenderam as luzes, com a esperança frustrada de ver uma graça ou um spoiler sobre uma sequência a ser filmada em breve. Foi uma pena, perderam a chance de colocar a cereja no topo do bolo.

Com a colaboração de Leonardo de Melo Ogassawara.
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"O Homem-Cão"
Filme infantil em animação, comédia, ação, 1h29. (Dog Man, 2024, EUA.)
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