Suicídio e vexame em Curitiba | Jornal Plural
Clube Kotter
Sem categoria
11 fev 2019 - 0h00

Suicídio e vexame em Curitiba

Na Curitiba dos anos 30, o suicídio era retratado com casualidade e até ironia nos jornais, relata Heros Shwinden

O assunto é delicado e requer extremo cuidado ao ser mencionado, conviver com um vexame não é fácil. Meu último foi amoroso, enredo clássico que começa com os meses de entrega, passa pela negação e se vai com aquele silêncio cósmico, fiasco mesmo.

Fui buscar a cura em uma prática que divido com amigos de vasculhar páginas de jornais antigos da cidade. Na hemeroteca eletrônica buscamos reportagens policiais, esportivas, textos sobre o cotidiano da cidade, reclames, colunas sociais e histórias mais parrudas que os stories diários oferecem.

Curitiba certamente é um dos lugares mais férteis para toda a sorte de fracassos. Andava meio preso em reportagens policiais dos anos 1970 – o motim no navio Chinês no litoral do Paraná; a saga de Celso Hanick, o assaltante de bancos conhecido como Jack Palance e o noivo que apunhalou a noiva no dia do casamento.

Precisava de algo mais contundente e me arrisquei nas páginas de O Estado, periódico que circulou em Curityba entre 1936 e 1938. Logo na segunda edição do diário encontro a coluna “Na Polícia e nas Ruas” com nota informando o suicídio de um pai de numerosa família, um “typhographo”, por motivo de aperturas monetárias.

A onda

“Continuam a se repetir em nossa capital os suicídios, numa onda de sangue assustadora.” Que se lasque o chororô, Curityba registrava uma onda crescente de suicídios e tinha que ver isso de perto, logo eu que senti a dor incurável de gente muito próxima que se foi.

Ao que parece, naquele tempo não havia restrição aos veículos de divulgarem o tema, pelo menos em Curityba. Até aí tudo bem. O sinistro foi encontrar uma coluna na qual a autora além de confessar pensar em suicídio sugere criatividade aos suicidas. “E depois essa coisa de corda, sulfatos venenosos e revólver, já está muito batido.”

O bizarro não se esgota aí. Além de divulgar a passagem dos que “resolviam por termo à existência”, também eram divulgadas as tentativas de suicídio incluindo endereço completo da pessoa. Algumas muito violentas e outras com um final mais ameno como da menina Ephigenia, que por uma desilusão amorosa tentou “desertar a vida” se jogando no lago do Passeio Público.

O redator parecia se divertir com o malogro da moça. “Felizmente o intuito da adolescente não surtiu o effeito (assim mesmo, com ff) desejado a não ser um banho em momento impróprio”. Melhor assim Ephigenia. Foi só um vexame que você passou!

Em tempo

Durante décadas prevaleceu o tabu de falar sobre suicídio em veículos de comunicação. Entendia-se que a divulgação de casos pudesse inspirar potenciais suicidas. Em 1974, o sociólogo David Phillips batizou de “Efeito Werther” o fenômeno detectado após 20 anos de observação. Seus estudos revelaram que a partir da notícia de um suicídio veiculada no The New York Times no mês posterior era registrado significativo aumento de ocorrências.

O nome do efeito vem da obra Os sofrimentos do jovem Werther, do escritor alemão Wolfgang von Goethe, na qual o protagonista se suicida por amor. Talvez a primeira relação entre mídia e suicídio.

Ainda recentemente, a série 13 Reasons Why foi classificada como conteúdo adulto na Nova Zelândia e banida como assunto nas escolas do Canadá.

Hoje já se admite que bons relatos sobre o tema possam servir como material de prevenção. A própria Organização Mundial da Saúde, por meio do programa Suicide Prevention Program, deixa disponível um manual com informações fundamentais para os profissionais de mídia tratarem do assunto como deve ser.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias