Tempus edax | Jornal Plural
Clube Kotter
14 jun 2020 - 15h18

Tempus edax

Morreu um professor de que eu gostava muito. É inútil: o tempo tudo devora

Noventa dias inteiros em casa, com raras e apenas necessárias saídas. Olho-me no espelho e vejo que envelheci, não porque passaram-se 90 dias, mas porque senti-os todos, inteiros, hora a hora, incluindo as longas vigílias pela madrugada. Nunca vivi algo assim, pelo contrário, perco-me nos dias e confundo os anos dos acontecimentos do passado, não sei a data dos aniversários dos meus mais próximos e só a rede social me salva de um constrangimento maior. Os alertas do tempo eu não os atendia e vivi até aqui em uma agradável suspensão etérea, como quem ingere uma taça de vinho a mais.

Hoje acordei com a notícia da morte de um amigo, vinte e cinco anos mais velho do eu. Tornou-se amigo ao longo do tempo e há tempo já estávamos distantes. Essa aproximação começou sem que ele soubesse, com o seu nome estampado em um livro de Ciências quando eu, menino recém ingresso no colégio militar de Fortaleza, acariciava os livros didáticos que meus pais compravam e sentia o suave perfume de suas páginas cheias de imagens e conhecimentos. No livro desse amigo havia um macaco de olhos azuis na capa. Encantava-me aquela imagem, a profundidade daquele olhar.

Muitos anos depois, já em Curitiba, aluno de ensino médio, ganhei alguma menção honrosa por alguma atividade escolar e fui convidado a conversar com o diretor do curso. E era ele, o homem do livro do macaco de olhos azuis. Seus olhos também eram claros (ou era sua pele que era muito clara, não tenho certeza) e ele foi simpático e gentil, perguntando-me sobre o que eu queria ser da vida. Eu não sabia, mas apenas três anos depois, eu estaria trabalhando junto com ele, como professor da escola da qual ele era um dos donos.

Os anos – dizer assim, agrupando tantos dias e meses intensos em duas únicas palavras parece tão irreal – foram passando e tornamo-nos amigos, trocando ideias sobre trabalho e jogando conversa fora no bar. Algumas vezes ele foi na minha casa e outras fui na casa dele. Ele me chamava de “Heródoto” e nunca se cansava de rir ao repetir essa brincadeira.

Envelheci, envelhecemos todos os que sobrevivem a este tempo voraz, na inútil luta por vencê-lo, quando sequer somos capazes de encará-lo. E distanciamo-nos porque outras urgências foram surgindo ou porque simplesmente fomos nos enganando, preenchendo os dias com suas horas e minutos com muitos afazeres, como a dizer “olha, estou aproveitando, estou fazendo bom uso de seu presente, senhor tempo”. Ou sei lá, porque hoje estou triste e a tristeza é como um soro da verdade, impede as desculpas que damos a toda hora e deixa-nos sós diante de nós mesmos.

Escrevi para o filho dele, que conheci menino e que hoje é homem feito, homem culto e viajado, com quem também dividi trabalhos muito agradáveis mas de quem, igualmente, fui me afastando. Ele foi gentil e respondeu-me quase de imediato.

Noventa dias inteiros em casa e só agora percebo que meu distanciamento social nada tem a ver com a Covid, com as medidas dos governos, com a minha consciência de cidadão. Venho me exercitando para essa tarefa há anos e só agora dou-me conta. Talvez essa seja a doença contra a qual devamos nos curar, urgentemente. O vírus é um recado que diz assim:  “matar o mensageiro não vai adiantar de nada”.

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