13 jan 2022 - 14h54

O barulho em torno do criado-mudo

Será que expulsar J.K. Rowling da festa de Harry Potter ajuda o mundo a melhorar?

https://www.spreaker.com/user/11044706/sine-ira-criado-mudo

Se você entrar agora no site da Amazon e escrever “criado mudo”, vai aparecer uma resposta automática dizendo que você não deve usar essa expressão porque ela é racista. Se você é uma pessoa que repudia práticas racistas de qualquer natureza, certamente ficará desconcertada com essa imputação e descobrirá rapidamente que o “correto” é escrever mesa de cabeceira. E só então aparecerão diversas ofertas para a sua livre escolha. E melhor, com a consciência limpa: você não é racista.

A despeito dessa contribuição tão edificante do maior site de compras do mundo, a discriminação e a violência contra negros não para de crescer. O mapa da violência é um exemplo claro: ser jovem e negro no Brasil faz com que se tenha 17 vezes mais chance de ser morto pela polícia do que se a pessoa for jovem e branca. Mesmo que todo mundo passe a dizer mesa de cabeceira três vezes ao dia, em voz alta, na praça.

Mas o mais curioso não é o empenho em ensinar como falar coisas prosaicas sem ser racista: é que a associação da expressão criado mudo com a escravidão é simplesmente falsa. Não há nenhuma relação entre escravos que serviam seus donos no Brasil do século XVIII, XIX, com o movelzinho que serve pra  colocar o livro de auto-ajuda que você lê antes de dormir e os remédios pra dor de cabeça que você toma assim que acorda. É como a verbo denegrir, outro enjeitado termo “racista” que é motivo de cancelamentos massivos nas redes sociais dos incautos que desavisadamente o praticam. Ficam com a reputação manchada para sempre. Ou seja, são denegridos.

Mark Lilla, em famoso artigo publicado no The New York Times, em novembro de 2016, chamado “O fim da identidade Liberal”, no qual  anteviu a derrota de Hilary Clinton para Donald Trump, já destacava que a onda do politicamente correto atingia pessoas que nunca alimentaram qualquer comportamento discriminatório e que o mal-estar provocado por essas acusações só serviu para afastar esses grupos moderados do campo democrata, enfraquecendo as chances de um governo empenhado nas causas reais e urgentes para o país, como a desigualdade social e as políticas ambientais. Afirmava o autor: “A política de identidade está produzindo uma geração de liberais e progressistas narcisistas e inconscientes das condições existentes fora dos seus grupos autodefinidos, e indiferentes à tarefa de atingir os estadunidenses em todos os âmbitos da vida”.

O importante a destacar é que fazer a crítica dos excessos do controle terminológico identitário não implica, em absoluto, deixar de reconhecer o problema da marginalização de muitas dessas minorias. O que tem acontecido, porém, é que fazer a crítica tem se tornado um problema grave, na medida em que há uma rápida obstrução e um movimento em pinça de acusação e cancelamento que impede que a crítica seja desenvolvida em seu campo natural, o do debate público, marcado pela liberdade de expressão e pela civilidade da refutação fundamentada.

O caso da escritora J.K. Rowling é emblemático. Aliás, lembro que ela grafou seu nome com duas consoantes para escapar da estigmatização do autor feminino e buscar um lugar em um universo no qual o machismo ainda é prevalente. Pois agora, a criadora do universo de Harry Potter foi desconvidada do especial de vinte anos do primeiro filme da série, para evitar constrangimentos, em face de uma declaração que ela fez e que foi considerada politicamente incorreta.

Mas essa é só uma gota no oceano de posturas correcionais que têm gerado pânico nos mais diversos produtores de conteúdo e muitas vezes esse pânico se transforma em ressentimento e esse ressentimento acaba alimentando os oportunistas de plantão que ganham visibilidade defendendo justamente a discriminação que essas posturas tentam combater. É o paradoxo do politicamente correto servindo de lenha para a fogueira dos que defendem a perpetuação da desigualdade. Prova de que o clichê “de boas intenções o inferno está cheio” está mais atual do que nunca.

O que deve ser ressaltado, como lembra a pensadora Hannah Arendt, é que não existem direitos humanos sem políticas protetivas dos direitos humanos. São essas que constituem a garantia necessária a uma vida digna e elas só podem ser elaboradas e aplicadas por governos comprometidos com o bem estar geral da população, fundamentado em regras de aplicação geral, reconhecendo a isonomia corretiva necessária para compensar as profundas desigualdades ocorridas ao longo da nossa história sem perder, porém, o horizonte de um projeto de sociedade múltipla em identidades e igual em direitos e deveres. Fraturar essa ideia de igualdade cidadã em nome do reconhecimento multifacetado das identidades, pode funcionar ao contrário do que se parece desejar, empurrando para os grupos conservadores a ideia de Pátria e de Unidade, de Sociedade e de República, (conquistas iluministas, nunca esqueçamos), e fortalecer justamente aqueles que mais se distanciam da busca por respeito e reconhecimento de direitos para todos. Como lembrou Emmanuel Macron, em entrevista para a revista Elle de primeiro de julho de 2021: “estou do lado universalista. Não me reconheço em uma luta que remete a cada um a sua identidade ou seu particularismo.”

O criado mudo não é uma expressão racista. Isso é falso. Mesmo que fosse, sua manifestação não deveria ser repudiada e criminalizada, mas contextualizada e pedagogizada, pois quem desconhece não comete um crime. Pelo contrário, torna-se grato por aprender sem ser acusado. Ao ser acusado sente-se injustiçado e ressente-se. Ressentimentos são peças chave da política de divisão que vigora nos nossos tempos. Por isso devem ser combatidas. Devemos buscar resgatar campos comuns de aproximação, suspendendo o dedo acusador e substituindo-o pela mão estendida ao bom diálogo e ao acordo em torno de uma pauta de direitos para todos e de resgate dos mais vulneráveis. O resto é só comida para lobos.

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3 comentários sobre “O barulho em torno do criado-mudo

  1. Comecei a estudar o feminismo de raiz e vi que nada do que a JK fala está incorreto. O sexo biológico é uma realidade material e é a base da opressão das mulheres no patriarcado. Negar isso é fantasioso, mas ninguém tem coragem de questionar o movimento queer/transativismo por medo de cancelamento. O rei está nu enquanto todos elogiam suas vestes. / Em tempo, não sou conservadora, bolsominion nem de extrema direita.

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