Podcast - Sobre as comédias românticas | Jornal Plural
8 dez 2019 - 12h44

Podcast – Sobre as comédias românticas

Toda idealização – como nos filmes românticos em que os casais acordam e se beijam com hálito refrescante – é à prova de defeito

Como diz Julian Assange, os Estados não são nada, não têm nada, pois todas as propriedades públicas e decisões públicas advêm da soberania popular. Logo, todos os registros do Estado devem ser igualmente públicos. Transparência total. 

Concordo tão inteiramente com essa ideia que passo a desconfiar de mim mesmo. Onde está a falha desse raciocínio? Por que ele parece, com o perdão do trocadilho, tão transparente?

Ora, porque ele provém de uma idealização do Estado e toda idealização  – como nos filmes românticos nos quais os casais acordam e já se beijam, os cabelos arrumados e o hálito refrescante – é à prova de defeitos. Mas eles, os defeitos, existem. No caso do povo: há que se pensar de que povo falamos quando imaginamos que a soberania parta deles e constitua o Estado. Não haveria, por exemplo, que existir alguma consciência da intenção de que esse ato contratual cria, constitui, produz um Estado que nos representa? Ou será que a simples existência física de um cidadão é suficiente para considerá-lo parte do povo?

Outra coisa: Não haveria a necessidade de que esse povo compreendesse as  implicações de uma política de transparência total dos atos do Estado para que ele fosse exigido? Imagina, por exemplo, um país com uma massa de analfabetos funcionais, que busca informações nos grupos de Whatsapp, qual o efeito de disponibilizar todas as operações de um governo sem qualquer tipo de filtro ?

Pois então. Apesar disso, continuo com uma queda pelo argumento de Assange. Informação demais é melhor do que informação de menos. Mas aí  creio que pode surgir outro problema. Vejamos:  E se essa informação gerar uma distorção na percepção que devo ter sobre o funcionamento das instituições que, de resto, não sei bem como funcionam? Por exemplo: descubro que no orçamento do Ministério das Relações Exteriores há um gasto com artigos de alta gastronomia, como lagosta e camarões, além de vinhos importados. Ora, eu não consumo esses bens, então como pode ser correto o dinheiro dos meus impostos servir para isso?

Ainda: descubro que o Poder Executivo dispões de carros blindados para a locomoção dos seus representantes e familiares. Que absurdo! Se não são capazes de enfrentar o povo, que não exerçam a função!

Estarei certo quanto a isso? Saber essas informações faz com que a minha percepção sobre meus representantes se torne mais precisa e crítica?

E não saber, melhoraria o que a respeito dessas mesmas perguntas?

Há algum tempo, o Congresso modificou regras de financiamento público, proibindo que empresas financiem candidatos. Por outro lado, há uma grande resistência da sociedade que usemos os recursos públicos para financiar as campanhas dos nossos representantes. Um candidato rico pode dispor de seus próprios recursos. Um candidato pobre certamente estará em desvantagem se não tiver recursos públicos para auxilia-lo. Mas para auxilia-lo devemos destacar  recursos  que poderiam ir para Educação e Saúde. No entanto, para que tenhamos certeza de que esses recursos irão para Educação e Saúde, precisamos de representantes sensíveis a estas causas, ou os recursos irão para o subsídio de grandes produtores rurais ou para o pagamento de nebulosas dívidas com bancos. O que fazer?

O que fazer. Aqui tenho uma resposta que considero menos suspeita. E qual é ela? Fazer perguntas. Questionar. Não somente os outros, mas a nós mesmos. Principalmente. Questionar sobre a relevância das questões que fazemos e sobre a importância dessas questões para consolidar um Estado democrático. Como todo processo de amadurecimento em qualquer relação – menos nas comédias românticas nas quais nenhum amadurecimento é possível – as questões que propomos sobre o funcionamento do governo ou sobre as prerrogativas dos governantes deveriam ser antecedidas por um esforço crítico de compreensão da sua importância e , principalmente, da sua efetividade. Porque prefiro financiamento público de campanha a pagamentos de uma dívida púbica não auditada. Porque prefiro um carro blindado que proteja um presidente comprometido com a liberdade do que um presidente que ande com as multidões enquanto delibera medidas para impedir que essas mesmas multidões se manifestem livremente. Porque prefiro continuar a fazer perguntas e procurar respostas livremente. Porque não gosto de comédias românticas.

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