Podcast - O poder do “não" | Plural
1 dez 2019 - 22h31

Podcast – O poder do “não”

Os negros tinham o “seu” lugar. Por que queriam ser iguais e ocupar o lugar dos outros?”

Em um dia primeiro de dezembro de 1955, em Montgomery, Alabama, a costureira Rosa Parks entrou no ônibus que a levaria para casa, depois de um exaustivo dia de trabalho e dirigiu-se para os fundos do veículo, local destinado aos negros. A lei no Alabama era clara: os brancos sentavam nas filas da frente e os negros nas filas de trás. No entanto, havia ainda uma outra exigência: caso entrassem mais brancos no ônibus, o cordão que separava as fileiras dos brancos e dos negros era alterado e os negros deveriam ir ainda mais para o fim do ônibus ou então ficarem de pé, para que os brancos fossem acomodados. Rosa Parks conhecia essa regra e a repudiava, mas várias vezes levantou-se e terminou a viagem de pé para que um senhor ou senhora branca, ou uma jovem de cabelos bem penteados com pacotes de compras ou um rapaz vindo de um passeio com a namorada pudessem sentar onde até então ela estava.

Mas naquele dia primeiro de dezembro de 1955, quando na terceira parada alguns brancos entraram e ficaram de pé diante dela, ela olhou pela janela e  disse “hoje, não”. Seus pés doíam e ela estava um pouco irritada. Ela não deveria ter de se levantar apenas porque era negra. Isso simplesmente não estava certo. O motorista, James Blake, pediu que ela se levantasse. Mas ela disse não. Ele então alertou-a, como se fossem duas pessoas em uma conversa amigável, sobre um mero cumprimento de uma regra conhecida por todos e obedecida por pessoas boas e sociáveis: ““Bem, então vou fazer com que a prendam”. Rosa Parks tinha ali a chance de se levantar e chegar em casa e preparar o jantar e depois dormir para que no dia seguinte sua jornada recomeçasse. Mas ele disse apenas: “pode fazer isso”.

Rosa foi presa por isso. Por um não. Um não que comoveu a comunidade negra e levou o então jovem pastor Martim Luther King, de apenas 26 anos, a liderar um boicote aos ônibus de Montgomery. Outros nãos se juntaram ao de Rosa Parks. Por todo sul do país e logo por todo país, manifestações engrossavam esse não. O caso foi levado à Justiça e no dia 21 de dezembro de 1956, 382 dias depois do não de Rosa Parks, a Suprema Corte decidiu que a segregação racial nos ônibus norte-americanos era incorreta, ilegal. E a proibiu. Rosa e todos os negros estadunidenses não precisariam mais levantar para que um branco não ficasse de pé. Diante da decisão, Rosa Parks disse: “Foi uma vitória importante. Mas o caminho ainda é longo”.

E ela sabia o que estava dizendo. Perseguida por supremacistas brancos, Rosa teve de se mudar, primeiro para Virgínia e depois para Detroit, em Michigan. Mesmo lá continuou sofrendo com a decisão que tomou e que a tornou um símbolo da luta por igualdade racial. A igualdade incomodava a quem considerava que era mais igual do que os outros e que via seus privilégios como direitos inalienáveis. Por isso essas pessoas viam os negros – e Rosa Parks, que começou aquilo tudo –  como pessoas que queriam lhes tirar algo, o que era incorreto. Os negros tinham o “seu” lugar. Por que queriam ser iguais e ocupar o lugar dos outros?”

Quando Rosa estava no banco do ônibus, diante do motorista que a instava a se levantar, ela disse: “eu não deveria ter de me levantar”. Essa certeza era maior e mais relevante do que a lei. E por isso ela foi presa, porque havia uma lei que a proibia de ter a dignidade de não se considerar menor ou inferior aos outros e defender essa dignidade em público. Mas a lei acabou modificada porque cerca de 40 mil outros negros que usavam o sistema de ônibus em Montgomery também disseram não, abalando a saúde financeira dos empresários do setor. E porque negros (e muitos brancos também) de todo o país se juntaram às manifestações e marchas de protesto contra a lei que difamava a todas as consciências dos que que tinham consciência, segregando pessoas como se umas fossem superiores a outras. Até que a lei foi modificada. Rosa Parks, que morreu em 2005, depois de uma vida de luta e sofrimentos, foi enterrada com honras e discursos. Sua vida não foi em vão, porque ela soube que há um momento no qual temos de decidir se dizemos não ou baixamos a cabeça. E baixar a cabeça impede que olhemos para frente e então tudo fica como está, do jeito que os que oprimem chamam de “normal”, “natural”. E os que sofrem a opressão chamam de intolerável.

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