Podcast - Nunca quis matar Hitler | Plural
18 ago 2019 - 18h47

Podcast – Nunca quis matar Hitler

Daniel Medeiros conta por que sempre achou que Hitler deveria acabar preso e julgado

Minha criação foi toda marcada pelo ódio ao nazismo. Desde os testemunhos, passando pelas histórias dos livros, das palestras, dos filmes e então de novo, filmes, palestras, livros, misturando tudo, em uma purgação sem fim. O nazismo sintetizou, para a criança que eu fui, todos os males do mundo e por meio dele é que devíamos aprender como evitar os males, como identificá-los, como enfrentá-los, etc. Porque, desta vez, os nazistas não teriam vez.

Meus amigos simulavam, nas nossas brincadeiras de mocinho e bandido, cenas horripilantes de tortura e violência santa contra os coitadinhos que resolviam fazer de conta que eram soldados da SS. E voltávamos rindo, juntos, lembrando das facadas e pauladas que daríamos se tudo aquilo acontecesse de novo, de verdade.

Também cresci em um país que era uma ditadura e, nesse tempo todo li e vi violência contra muitas pessoas, uma brutalidade que deixava meus sentidos enevoados. Depois que meu país voltou a ser uma democracia, acreditei que os bandidos seriam presos e julgados e que tudo aquilo seria o fim de uma época. Um fim de filme sem continuação. O fim de um clássico triste como Casablanca. Nada de Casablanca, parte dois.

Agora devo fazer uma revelação: nunca gostei das brincadeiras de matar nazistas. Meus pais achavam que eu era muito fraquinho, meio efeminado, como era comum dizer na época, e se preocupavam comigo, achando que eu deveria ser como meus colegas. “Como assim, não querer matar nazistas?” Demorei a compreender meu incômodo e nem sei realmente quando isso se deu com clareza. Mas o fato é que meus sentidos se embotam com qualquer tipo de violência, apenas isso. No fundo, sem que eu jamais tivesse revelado aos meus amigos, sempre pensei que deveria existir uma forma melhor de enfrentar os nazistas. Sei o que eles me diriam: “Acontece que os maus não pensam assim, e vão fazer de você picadinho.” Eu, meio fraquinho, molenga, certamente  os meus sentidos iam virar geleia.

Cresci em um país que virou uma democracia e enredou-se em terríveis transações. No fundo da caixa de Pandora, a esperança que é o outro nome da vontade egoísta de satisfazer desejos, despertou muitas vontades com nomes inquietantes: “limpar”,”varrer”, “novo tempo”. As ruas se encheram de intensas intenções e, como o meu país era uma democracia fraquinha, molenga, era possível até mesmo querer rodar uma continuação daquele filme triste.

Eu continuo não gostando da ideia de matar nazistas, de atirar em Hitler, como na comédia que achei completamente sem graça dos bastardos inglórios. Para os meus sentidos, a violência, toda a violência, se parece. Por isso penso que deve haver alguma outra forma. Meu ódio, estimulado por adultos e amigos, nunca teve nenhuma utilidade prática para mim. Pensar sobre ele, assumir meu assombro e minha inquietude, estas foram as coisas que me fizeram começar a me sentir adulto. E agora é a hora de assumir: eu nunca quis matar Hitler. Sempre quis vê-lo julgado e condenado. Como todos que, como ele, usam o ódio como palanque, transformam os desejos mesquinhos das pessoas egoístas em promessas e se regozijam com a discórdia e com a violência.

Eu nunca quis matar Hitler. Mas sei que gente como ele é o que faz com que muita gente deseje matar. Por isso penso neles como uma doença que contamina e vai tornando todo mundo assim, cheio do mesmo ódio que eles disseminam. E penso que por eu já ter visto e lido tantas formas de violência, fiquei meio vacinado disso tudo. Desculpem todos os que espumam sua raiva santa. Para enfrentar nazistas e não acabar parecido com eles, tem de ser de outro jeito..

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