Podcast - Manual de Política para jovens | Plural
29 jun 2019 - 20h35

Podcast – Manual de Política para jovens

Daniel Medeiros fala sobre o manual que sempre quis escrever em seu novo podcast

Sempre quis escrever um manual com orientações políticas para jovens. Agora chegou a oportunidade. Como ensinou Descartes, pretendo que o meu manual seja composto por regras simples e aplicáveis, de forma que, de posse deles, qualquer jovem possa desenvolver sua habilidade política. Também, como lembrava outro grande pensador do século 17, Francis Bacon, quero alertar para os ídolos que embotam  a mente aprendiz dos jovens, desvirtuando o conhecimento e tornando-o o contrário do que se deseja. O fundamental é evitar a precipitação e o preconceito, lembrava Descartes. Mas também as leituras superficiais e, principalmente, as ideologias, completava o filósofo inglês. Eu, da minha parte, atento a estes conselhos, formulei um manual com frases rápidas e diretas, claras e objetivas. Verdadeiros axiomas.

Bom, antes de apresentar esse manual que sei tão bem fará aos jovens do meu país, quero ainda lembrar que quando eu falo política não me refiro, em absoluto, aos políticos ou aos partidos, ou aos credos ou às cartilhas e nem mesmo aos slogans gritados e cantados nas campanhas eleitorais, nos programas de televisão ou nas aglomerações ruidosas em torno dos coretos ou dos pátios da Matriz. Falo da política como a que ocorria na polis, na ágora, lugar do encontro entre pessoas estranhas entre si, sem camisas iguais ou bandeiras compradas na mesma banca, sem livros com frases sublinhadas esquentando debaixo do braço. Falo de indivíduos que se encontram na sua sensível diferença, buscando traçar , no território  imaginário que ocupam, linhas demarcatórias de suas existências singulares e, a partir desses postos avançados, ouvir e falar aos outros – tão diferentes quanto – coisas que vão, aos poucos, sendo traduzidas em acenos de cabeças, murmúrios de aprovação e , ah, se tudo funcionar, em apertos de mão, essa concessão efêmera de unidade, logo apartada para que se reinstitua a natureza do único que nos define a todos.

Montaigne já lembrava do erro de nos preocuparmos mais em colocar nossa mercadoria para vender do que buscar adquirir coisas novas: “em vez de procurarmos tomar conhecimento dos outros, esforçamo-nos por nos tornar conhecidos”. Meu manual vai destacar esse problema logo no início, EM GRANDES LETRAS DE FORMA: a política não é uma competição na qual saber o vencedor seja a graça. É, na verdade, um jogo de piquenique no parque entre amigos e amigas, onde as risadas, a improvisação, a imaginação e a teatralidade valem mais do que saber quantos pontos conquistamos ou o que ganharemos após o término da partida. Ao final, todos já teremos vencido. Assim encerro a parte central do meu manual que ora apresento, sem mais delongas, de maneira sóbria e com ritmo de voz pausado.

Proponho, no meu manual, tomarmos um pouco de distância, porque não há política sem distância. Quando todos são irmãos, não há espaço público, mas festa de família. E festa de família se faz no quintal da casa, na sala de visitas, na copa ou na cozinha. Pra ser na ágora, há de ter um necessário espaço de estranheza, diferença, pluralidade. E neste espaço há de se buscar seduzir e produzir laços de confiança provisória, aproximando, chegando aos ouvidos, aos toques dos braços e das mãos, mas nunca eliminando a distancia que garante a marca da integridade de cada um.

Agora vamos começar. O começo de qualquer ação dá um frisson particular, porque sabemos sempre o que começamos, mas nunca onde vai dar, quais caminhos vamos percorrer, quantas pessoas vão ser atingidas. Por isso começar exige uma responsabilidade danada. E também uma vontade de ultrapassar limites, de interromper processos automáticos, que são as coisas que fazemos sem que estejamos realmente lá. A Política é o contrário do esperado. O que se espera é o já repetido, repisado. O agir, fundamento da Política, é o sair do perímetro de quem somos, é uma exposição, um deslocamento. Tudo o que decorre é o novo, o irrecuperável. O agir é movimento que fazemos em direção ao Outro, sabendo que ele está lá e que será afetado. Só humanos são capazes disso e isso é o que nos faz humanos.

É isso. Sempre quis escrever um manual com orientações políticas para jovens.

Espero que vocês tenham gostado e um dia façam bom uso.

Obrigado.

Últimas Notícias