Podcast - A Passagem | Jornal Plural
12 abr 2020 - 13h03

Podcast – A Passagem

Há lembranças que nos assaltam e que nos perturbam. Não sei se isso ocorre com você. Comigo, é constante

Há lembranças que nos assaltam e que nos perturbam. Não sei se isso ocorre com você. Comigo, é constante. O curioso é que não há o famoso gancho que abre o cone da memória e deposita no meu colo, uma vez mais, a lembrança indesejada. É como uma legião de fantasmas que me cercam, cutucando-me, colocando o pé à frente do meu, deixando a transparência por uma fração de segundo e postando-se, inteiro, diante de meus olhos assustados.

As lembranças são das coisas que fiz ou das que deixei de fazer. Uma das que freqüentemente volta para me assombrar  é a de uma viagem com meus pais, uma longa viagem de ônibus, nos anos setenta. No meio da madrugada, depois da parada para o banheiro e lanche, o ônibus começa a se movimentar e meus pais não haviam retornado ainda. Olho estarrecido aquela ausência e minha cabeça de criança estala do medo de ficar abandonada. O moço vem passando, contando as pessoas, passa por mim, eu encolhido no banco da janela e a voz de dizer “meus pais não subiram ainda” não consegue sair; só um espasmo toma conta do meu corpo e meus cabelos ficam eriçados.

Não sei como essa história acaba. Já perguntei a meus pais e eles não lembram de nada disso. Só o fantasma da lembrança passa diante da minha porta, vez por outra, pra lembrar o que é a solidão e o abandono.

Às vezes, diante dos outros, em uma conversa trivial, ou no trabalho, ou, enfim, em qualquer lugar, sou apanhado pela lembrança de uma mentira, de uma grosseria, de uma traição e da cadeia de eventos que dela resultou, e me contraio como se um estranho estivesse próximo, um assaltante, alguém capaz de me infligir violência. Dura tudo muito pouco tempo e quando percebo, o tremor é de mim mesmo, da pessoa que um dia fez coisas assim sem pudor ou pena. Balanço a cabeça, buscando afastar aquela pessoa, ou nega-la, nem sei. Certa vez, o terapeuta disse-me que é preciso superar essas passagens de minha vida, porque não há como resgatar o passado e, por isso, revive-lo é apenas um exercício de auto-piedade ou coisa que o valha, pois confesso que depois de cinco minutos, nem sei qual dos meus fantasmas é quem ouvia o que ele tinha para dizer. Mas, embora não discorde, não consigo relevar a existência dos passos todos que foram dados, dos sustos, das perdas e das dores.

Dizem que antes de morrermos – outra ideia de passagem – a vida inteira é mostrada, em um segundo, diante de nossos olhos. Assusta-me essa ideia e, ao mesmo tempo, faz-me rir. Então o que me acontece é que estou morrendo em prestações? O que mais ainda haverá de ser lembrado quando a hora chegar? Serei entediado com uma espécie de “vale a pena ver de novo”? Não sei, estou simulando. Na verdade, nada disso tem graça para mim.

Na minha adolescência, no jantar de Páscoa, liamos as histórias da libertação do jugo do faraó. Impressionava-me a passagem do anjo da morte, da marca nas portas, do mal divino a ser praticado para que o mal do falso rei possa ser confrontado e que finalmente o povo possa voltar para casa, livre da escravidão, exceto pelo amor incondicional ao seu D’us.

A passagem e a memória sempre estiveram unidas. Para lembrar a alegria de onde estou. Para não esquecer das agruras que fiz e sofri para chegar aqui.

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