Podcast - A fé | Plural
22 set 2019 - 15h53

Podcast – A fé

Gosto da calma dos que têm fé. Há um conforto, mesmo que o céu esteja desabando

Poucas palavras têm tanta força e atração quanto a palavra fé. Curtinha e poderosa. Evocativa de uma força superior e misteriosa que, por algum motivo ainda mais misterioso, vela por nós, acompanha nossos passos, dirige nossas ações. Lógico que tudo isso fica mais confuso quando é em um jogo de futebol no qual as duas partes evocam a fé, como se esse senhor da fé torcesse ora pra um time e ora para outro. Ou quando, logo após um acidente com vários mortos alguém reza agradecendo ter sobrevivido. A fé é, como o que ela própria evoca, um mistério total.

Nunca fui dado a ter fé. Às vezes tento e aperto os olhos e as mãos na esperança de alguma reação do meu espírito, mas só minhas articulações é que reagem. Às vezes busco os significados nos fatos inusitados, como se apenas um código inacessível, uma linguagem especial pudesse decifrar. Mas acabo concluindo que é tão somente um fato inusitado, como tantos os que acontecem todos os dias mas que não reparamos porque não acontecem conosco ou não chamam nossa atenção.

Não digo isso para desdenhar da fé. Morro de inveja dos que têm fé. Esse dias, jantando com um crente, ele perguntou-me se eu não me preocupava com o fim dos tempos. E eu, pensando que ele falava da devastação da Amazônia, disse: lógico! Ele então sorriu aquele sorriso dos que sabem e balançou a cabeça vitorioso.

Gosto muito da calma dos que têm fé. Há um conforto em relação a tudo, mesmo que o céu esteja desabando por aqui. Afinal, a fé é a fé de que há uma outra explicação e uma outra história acontecendo paralelamente . Como uma festa oculta. Uma festa no céu.

A democracia sofre bastante com o excesso de fé. A democracia é a crença efêmera nesse tempo efêmero e nas expectativas mínimas das pessoas comuns. É duro isso concorrer com a certeza da eternidade e da felicidade celestial. O patrimônio público, as florestas, os direitos da cidadania parecem muito pouco diante de tudo o que se espera com o que a fé garante. Isso me confunde um pouco, pois  não consigo crer no imensurável. Creio no Estado de Direito. Ressalto que a  palavra crença é a mesma, mas o significado é bem outro: o meu “crer” é o resultado da ação política e racional de uma opção civilizatória que resolve contrariar a natureza humana – baseada na sobrevivência e na reprodução – e construir um espaço civil no qual todos terão garantidos alguns direitos mínimos. Uma invenção humana em um espaço físico durante um tempo definido. A crença é a de que enquanto as energias se mantiverem concentradas nesses propósitos, esse espaço poderá continuar a existir e novos humanos poderão contar com essa rede de direitos básicos, inventados por nós. Não há eterno aqui e não há salvação aqui. Não há um poder mais alto aqui; ao contrário, o poder é o que resulta da horizontalidade das expectativas: quanto mais amplo esse horizonte, maior a rede de proteção que ele proporciona.

Gosto de refletir sobre essa minha questão de fé. Não me importo com os que têm fé, nem poderia: há tantas vontades e manias no mundo que não me cabem discutir. Discuto, só por diversão, a convicção que a fé dá aos que têm fé. Lembro das minhas aulas de geografia e dos tempos geológicos, cada era com milhões de anos, umas três ou quatro extinções, a espécie humana aparecendo tão tarde, tão no finzinho do dia.  E então vem essa fé toda de que é conosco, com cada um de nós, que essa força celestial , poderosa e misteriosa se importa? Nietzsche, sarcástico e um tantinho cruel, compara os humanos a moscas que vivem uma vida de um dia e acham que tudo existe para elas e que tudo se justifica para elas. Não me escapa esse sarcasmo: troco a eternidade pelo cumprimento do capítulo dos direitos fundamentais da Constituição de 1988.

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