Os escritores e as ditaduras | Jornal Plural
10 nov 2019 - 16h01

Os escritores e as ditaduras

Quando do afastamento de Dilma, Bolsonaro exaltou torturador Brilhante Ustra. É hora dos novos manifestos

O Brasil teve duas ditaduras que, como era de se esperar, foram particularmente cruéis com os jornalistas e escritores. No Estado Novo, o Departamento de Imprensa e Propaganda censurava até boletim meteorológico. O jornal Estado de São Paulo foi perseguido e seu diretor, Julio de Mesquita Filho, foi preso 17 vezes e acabou tendo de ir para o exílio. Muitos escritores, como Graciliano Ramos, foram para a prisão sem sequer ouvir a acusação formal contra ele. Na ditadura militar não foi diferente. Aliás, foi. Foi pior. A censura prévia impediu que qualquer coisa – até boletim meteorológico – fosse publicada sem que antes os censores dessem o seu talquei. Quando os jornais resolveram não substituir as matérias censuradas e tentaram publicar os jornais com os espaços em branco, os censores censuraram os espaços em branco. Pois é. A ditadura militar foi a época na qual até espaço em branco era coisa de “subversivo comunista”.

Mas os jornalistas e escritores não se calaram. Ficaram com medo, é lógico e muitos foram buscar refugio no exílio, porque mais do que o silêncio, os ditadores muitas vezes querem os pensamentos escondidos nas cabeças dos intelectuais. E lá no exílio jornalistas e escritores também eram perseguidos. O medo não tem fronteiras.

Mas a marca principal dessa pequena história é a resistência dos jornalistas e escritores. Primeiro, contra o governo Vargas. Em 1942, foi fundada a Associação Brasileira de Escritores, no Rio de Janeiro. Nomes consagrados da literatura brasileira assinaram a ata de fundação, como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Erico Verissimo, Mário e Oswald de Andrade. Aliás, nesse mesmo ano, lembrando os vinte ano da Semana de Arte Moderna, em palestra no Itamaraty, Mário de Andrade destacava a importância da mobilização dos intelectuais na defesa dos valores democráticos. Dizia Mário: “Julgo que nós, rapazes daquela época, devíamos ter participado mais da vida pública do país, deveríamos ter nos interessado mais pelo Brasil, – por um Brasil que não fosse somente arte. Fomos uns contemplativos, uns abstencionistas. Está claro que houve exceções nada convincentes. No geral, permanecemos à margem de certas realidades. E hoje em dia me parece que não tínhamos esse direito. É esse um direito que os moços jamais têm”.

Em janeiro de 1945,  os escritores resolveram realizar um congresso. O governo Vargas já periclitava, afundado na contradição de ser um ditador lutando uma guerra contra ditadores. No encontro, foi escrito um manifesto exigindo a legalidade democrática como garantia da completa liberdade de pensamento, e a instalação de um governo eleito pelo povo mediante sufrágio universal direto e secreto. No mês seguinte, Vargas iniciou a redemocratização.

Em 1976, o governo militar censurou três romances de escritores brasileiros. Eram os romances Araceli, meu amor, de José Louzeiro, Feliz ano Novo, de Rubem Fonseca e Zero, de Ignácio de Loyola Brandão. O decreto do então ministro da Justiça, Armando Falcão, tinha apenas 4 linhas. Proibia a circulação e exigia a retirada imediata dos livros das livrarias, porque as obras eram atentatórias da moral e dos bons costumes.

1046 artistas, jornalistas, escritores de todo o Brasil assinaram um manifesto que foi entregue no gabinete do ministro exigindo a revogação do decreto e defendendo o fim de qualquer censura no Brasil. O então senador Itamar Franco, disse, na época, sobre a censura: “é possível impedir a divulgação de uma peça, de uma música, mas nunca comandar o cérebro humano”.

As manifestações se multiplicaram. Greves no ABC. Manifestações em favor da anistia. Reprovação da opinião pública internacional. Em dezembro de 1978, o general Geisel revoga o AI-5. Em 1979, as obras são liberadas. No mesmo ano, o Congresso aprova a anistia. Outra ditadura iniciava sua viagem para o Tártaro.

No dia 24 de março de 2016, é lido o documento “Escritores e profissionais do livro pela democracia”, na Cinelândia, centro do Rio. A poetisa Elisa Lucinda, que leu o manifesto, afirmou: “Estou adorando que todos os setores da sociedade, os setores que produzem conteúdo, estão se manifestando. Isso não é um movimento partidário, é um movimento pela democracia. Nós que produzimos palavras, que produzimos pensamento e fazemos ele circular, produzimos a circulação dos saberes, que é uma coisa revolucionária, a gente tem que estar na linha de frente dessa luta.”

O manifesto se posicionava “pela defesa dos valores democráticos e pelo exercício pleno da democracia em nosso país, de acordo com as normas constitucionais vigentes.” Reagia às manobras para impedir a presidente Dilma. O manifesto teve mais de 8 mil assinaturas.

Em agosto, Dilma foi impedida de governar. No dia 7 de abril de 2018, o ex-presidente Lula foi preso. No dia 28 de outubro, venceu em segundo turno, o ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro. Quando do afastamento de Dilma na Câmara, Bolsonaro exaltou o coronel Brilhante Ustra, torturador durante o regime militar. É hora dos novos manifestos.

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