18 out 2021 - 20h25

Democracia e Juventude: quatro afirmações pungentes e uma conclusão peremptória

Ou recuperamos o espaço público ou não adianta arranjar culpados na horda que nos assedia

Primeiro: o Espaço Público não é propriamente um lugar, mas uma função, fundamental em toda sociedade democrática. Funciona como campo de falar e ouvir , produzindo ideais coletivas e tomando posições à partir delas. No Espaço Público, todos são iguais no direito de falar e ouvir e todos têm a Liberdade de se manifestar, respeitando o propósito da fala e a dignidade do ouvinte.

Segundo: Essa função de produzir decisões democráticas para o conjunto da sociedade foi uma das mais inventivas e ousadas criações dos gregos. Mas seu vigor dependia da preparação dos cidadãos para as tarefas a eles dirigidas, daí a necessária busca por conhecimento e pelo desenvolvimento de habilidades que permitissem a maior desenvoltura frente aos demais, com o propósito de aparecer e singularizar-se, não para se tornar um diferente entre iguais, mas um igual a ser lembrado pelos iguais.

Terceiro: a Modernidade atrofiou o Espaço Público e reduziu a relação entre as pessoas basicamente a um circuito de bens, no qual tudo passa a ter preço e, portanto, quase nada tem valor. 

Quarto: A sociedade de consumo erigiu a Economia ao posto de totem maior e o Mercado tornou-se o seu sacerdote sem rosto. Os propósitos, os horizontes, principalmente  dos jovens, reduziu-se a uma busca desenfreada pelas filas dos smartphones ou ( e às vezes ao mesmo tempo)  pelas filas do subemprego. E a importância da igualdade, da liberdade, da construção de uma voz comum, cívica, política, deixou de ter importância. Para alguns, aliás, tornou-se até motivo de escárnio e de raiva, como se fosse sua presença a responsável pela falta de mais bens disponíveis para atender a sede impossível de saciar do consumo desenfreado.

Conclusão: recuperar a função do Espaço Público, principalmente entre os jovens de 16 a 18 anos, é tarefa primordial para quem quer um futuro como invenção e não como repetição. Hannah Arendt já dizia que a Ação, atividade humana própria da Política, é a única capaz de criar o Novo, e dessa natividade dependemos nós para inventarmos um país democrático, resgatando a possibilidade de construir regras de funcionamento orgânico, vitais e que recuperem a saúde do nosso país e da nossa sociedade. 

Não há saída fora disso. Ou compreendemos isso urgentemente ou não adianta arranjar culpados na horda que nos assedia. Cabe a nós enfrentá-los e vencê-los. 

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