31 out 2021 - 18h03

Breve reflexão sobre perdas

Se cuidamos bem da memória, lembraremos ainda por um bom tempo do que já não está presente

Nessa época, quando outubro já vai dando adeus sem que ao menos tenhamos notado sua presença, começamos inevitavelmente a falar do fim do ano, na virada, no recomeço, no novo ciclo, todas essas coisas que empolgam alguns e entristecem outros. É também a época de fazer um balanço das perdas.

Meu pai perdeu a mobilidade do joelho esquerdo, o que fez com que ele abandonasse suas caminhadas diárias pelo condomínio em que mora há cerca de vinte anos. Minha mãe, que sofre de degeneração macular, já não distingue os personagens das novelas que adora e abandonou a costura, a leitura e só cozinha com alguém para cortar as coisas para ela. Eu mesmo, que sofro de poliartrite aguda, quase não consigo mais mexer minha mão esquerda e fiz mais infiltrações este ano do que declarações desastrosas do presidente.

Meu filho vai de mudança para São Paulo e agora nossos agradáveis encontros vão se tornar mais raros, para a minha pena. Meu país perdeu muito da sua simpatia e um tanto da sua dignidade e confesso tristemente que perdi o respeito por muitos antigos amigos com os quais não penso mais em nenhuma conversa viável. Perdemos todos um pouco a esperança, embora essa seja uma resiliente de mão cheia, insistindo em querer se insinuar a qualquer leve momento de maior otimismo. Mas otimismo ficou bem raro, é preciso admitir. Dele também notamos a perda.

Perder, no entanto, não é uma surpresa e, eu diria, é algo esperado, embora não desejado. Afinal, como supor que permaneceríamos , sem qualquer degeneração? Não somos, como tudo, fadados à obsolescência? Como lembrava Montaigne, estranho é não temermos o desperdício da nossa vida, porque a chegada do fim e a perda das coisas já está no contrato, em letras grandes, desde sempre, com a nossa assinatura embaixo.

Perdemos o que temos mas, se cuidamos bem da memória, lembraremos ainda por um bom tempo do que já não está presente, com um breve sorriso nos lábios: “ah, quantos momentos bem vividos”. Enxergamos tantas paisagens, sentimos tantos aromas e sabores, ouvimos tantas lindas melodias. Um dia – faz parte – os dias ficam menos intensos e as horas menos prazeirosas e as cores vão se esmaecendo e os horizontes se comprimindo. E é hora de diminuir o passo, encontrar um lugar confortável para se encostar.

Como um Clint Eastwood que troca os roteiros complexos de lutas e inimigos globais por uma dança com a viúva na cidadezinha do interior do México, ao som de um bolero portenho. Aos 90 anos, o que mais se pode querer?

Teremos um novo ano, certamente, e o sol fará mais uma das suas translações e teremos mais trezentos e sessenta e cinco dias para acordar, trabalhar, amar, pensar, sonhar, brigar, iniciar, abandonar, modificar, dormir e , no meio disso tudo, pensar no que há mais para se perder e preparar-se para esse adeus. Somos de barro, animados por um sopro, mas que, aos poucos, vai escapando de nós, enrugando-nos como a folha que se demora, sem culpa ou pena de nada, cumprindo apenas o seu papel de ocupar espaços e deixar espaços para espalharem-se novamente.

Como afirmou Spinoza, quanto maior é a Alegria com que somos afetados, tanto maior é a perfeição a que passamos. E assim é do homem sábio usar as coisas e, o quanto possível, deleitar-se com elas. Epicuro lembrava que não devíamos temer a morte porque quando ela chegar não estaremos mais aqui. A morte não é uma experiência que sentiremos em nós. Somos fadados a sentir apenas a vida. Por isso, uma vida sem muita dor é o mais próximo que podemos almejar. Minha artrite me dá a cota de dor que eu preciso para lembrar o quanto tenho de compensá-la para ficar com um crédito de alegria. Por isso me esforço muito para não tornar minha experiência no mundo tão somente uma cantilena das minhas mazelas e muito menos uma memória dessas tristezas.

E sim, sou daqueles que comemora o ano que está por vir e que faz planos e que acredita que as coisas vão melhorar. Entre as narrativas disponíveis, essa é a melhor que eu conheço. Ou, simplesmente, é a que eu prefiro, sem que eu precise justificar nada para ninguém. Não faz sentido entregar-me às tristezas que diminuem minha presença no mundo, meu ânimo e minha potência. Só posso mudar coisas se eu puder fertilizá-las. Na medida em que colho menos frutos, planto mais sementes. 

Passarei. Evoé, passarinhos.

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