Uma das maiores divas pop americanas. Anos a fio de construção de uma imagem que cristalizou opiniões altamente negativas a seu respeito ao redor do mundo.
São centenas de tabloides com fotos e chamadas escandalosas sobre consumo de drogas, negligência materna e descontrole psiquiátrico. É difícil mensurar o alcance da criação midiática em cima da personalidade (e da incapacidade mental) de Britney Spears.
Por quê? Por que Britney Spears chegou ao ponto de ser interditada, tendo a sua liberdade (artística e de expressão, inclusive) controlada pela tutela do pai? Por que Britney foi internada mais de uma vez em hospitais psiquiátricos? Por que perdeu a guarda dos filhos?
O movimento #FreeBritney, iniciado por fãs da cantora e atualmente propagado por grandes nomes nos Estados Unidos, problematiza a história, que já dura quase 13 anos. O debate agora é tema do documentário Framing Britney, feito pelo The New York Times e que chega ao Brasil pela Globoplay.
Britney nasceu em dezembro de 1981. Desde cedo sua voz era forte, límpida e impecável. Aos dez anos de idade, já cantava em programas televisivos e recebia atenção especial dos apresentadores e do público americano. Seus pais não tardaram a perceber que tanto talento não podia ser oprimido; a voz e o brilho da filha precisavam ser desenvolvidos, vistos, explorados. O último termo, aparentemente, sempre foi o de maior peso para Jamie Spears – pai da cantora. Uma oportunidade única de lucrar.
A cantora cresceu, e, aos quinze anos, já era conhecida e idolatrada pelos Estados Unidos. Todos a amavam, desejavam. O documentário retrata Britney trabalhando em sua carreira com extrema dedicação desde o início: comandando a produção, insistindo com veemência no aprendizado da dança e explorando intensamente sua criatividade.
A sexualização da jovem celebridade é o pontapé do debate proposto pelo New York Times: simultaneamente virginal e extravagante, Britney despertou a atenção (e a fúria) da mídia precocemente. Comentários a respeito de seu corpo, de sua vestimenta e de seu comportamento vieram à tona e não pegaram leve.
Após uma série de discos de platina, milhões faturados, dois casamentos conturbados, dois filhos e a crescente obsessão dos paparazzi em retratar Britney nos seus momentos mais íntimos e vulneráveis, a estabilidade emocional da diva pop colapsa gradualmente.
Críticas duvidosas a respeito de sua capacidade de ser mãe, por exemplo, pressionam a cantora que luta para manter-se forte e provar que ama e cuida de seus filhos. A situação toma dimensões exorbitantes, até que, de fato, Britney saia de si, quando o ex-marido Kevin Federline pede (e ganha) a guarda integral dos filhos.
O principal ponto levantado pela produção do New York Times e pelo movimento #FreeBritney é que a cantora, após treze anos de tutela, é capaz de administrar a sua vida financeira, pessoal e artística. Além disso, levanta-se o debate a respeito de que o descontrole psicológico de Britney Spears tenha sido causado por uma perseguição midiática excessiva e cruel e uma resposta do público tão impiedosa quanto. As consequentes perdas com as quais a cantora se depara em decorrência disso são brutais.
Problematiza-se também, o interesse de Jamie Spears em se manter tutor da filha. Em certo ponto do documentário, antes do declínio da carreira de Britney, ele chega a dizer: “minha filha vai ficar muito rica. E vai me comprar um barco”. A posição do pai da cantora a respeito da situação de tutela é clara. Jamie é veementemente contra a suspensão da tutela, ainda que saiba da atual capacidade da filha para dar conta de sua própria vida.
Britney já se declarou extremamente incomodada com a situação da tutela. Abertamente e inúmeras vezes. Mas antes mesmo da decisão judicial, ela gritou por socorro. Em 1999, no lançamento da música “Lucky”, são claras as suas angústias relativas à perseguição midiática e à distorção consequente de sua imagem.
“Não é sortuda, esta garota de Hollywood?
Ela é sortuda, mas por que ela chora?
Se não há nada faltando na vida dela,
Por que caem lágrimas à noite?”
(Trecho traduzido de “Lucky” - Britney Spears, 1999)
A condução do documentário é comovente, dinâmica e bastante clara. Os fãs que tocam o movimento #FreeBritney têm bastante visibilidade no longa-metragem. Por fim, vale dizer que a reflexão levantada pelo filme é tremendamente relevante: quais são os limites de interferência da mídia na vida das pessoas públicas? Até que ponto a sociedade é capaz de considerar entretenimento o sofrimento de celebridades? O que essas pessoas podem perder com isso? E, ainda, que fenômeno é esse da desumanização que vem com a fama?
A resposta plausível está no questionamento.
Por quê? Por que Britney perdeu sua liberdade?
Por quê – e o que – tantos(as) outros(as) perdem quando vivem esse grau de invasão?
O que é distorção de imagem e qual é, de fato, a história de alguém?
Talvez seja interessante que a cultura do cancelamento, tão debatida recentemente, abra espaço a essas perguntas.
O documentário está disponível na plataforma Globoplay desde segunda-feira (22) e foi lançado no dia 5 de fevereiro pela plataforma Hulu, nos Estados Unidos.
Pela liberdade de Britney
Documentário do New York Times discute tutela judicial imposta à cantora
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