17 abr 2022 - 17h00

Hugo Mengarelli, protagonista do teatro curitibano e professor da UFPR, morre aos 76

Argentino radicado em Curitiba, Hugo Mengarelli idealizou o Teatro Experimental Universitário e fundou a companhia PalavrAção

O dramaturgo e professor Hugo Mengarelli morreu neste domingo (17), em Curitiba, devido a complicações renais. Ele estava internado no Hospital Nossa Senhora das Graças desde o dia 9 de abril. E tinha 76 anos.

Nascido em 28 de julho de 1946, na Argentina, Mengarelli chegou ao Brasil na década de 1970. Aqui, viveu em Curitiba e tornou-se um dos nomes mais importantes no cenário das artes, tendo participação determinante na formação não só de artistas como de todo o contexto de produção cultural da cidade.

UFPR

Durante mais de três décadas Mengarelli foi professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Lá, ele criou o curso Técnico em Artes Cênicas/Ator (hoje extinto). Também fundou a Companhia de Teatro PalavrAção, em 1995. Além de ter idealizado o Teatro Experimental Universitário (TEUNI). 

Entre as peças que dirigiu, estão “Uma Coroa de Orquídeas para uma Fria Pecadora” (1998), “Agidi – Uma Antígona Brasileira” (2001) e “Tanguapo” (2007).

Como um artista polivalente, dirigiu o filme “Roça” em 1985, e publicou o livro “Ética e Estética no Ator: Uma Questão de Desejo”, em 2014. 

Despedida

O ator, produtor e diretor teatral Thadeu Peronne conta que, apesar de não ter trabalhado com Mengarelli, teve a oportunidade de encontrá-lo em cursos e rodas de conversa sobre teatro. “A partida do Hugo me pegou de jeito”, diz Peronne. “Minha relação com ele foi de muita admiração, sempre aprendi muito com ele. Minha eterna gratidão ao Mengarelli por tudo que ele fez pelo teatro paranaense que se reverberou pelo Brasil e pelo mundo afora.”

Thadeu Peronne e Hugo Mengarelli em um dos últimos encontros dos dois. Foto: Arquivo pessoal

Tupaceretan Matheus atuou em três peças de Mengarelli: “O Eucalipto e os Porcos”, em 1986, “Love Hysteria”, em 1988 e “O Incrível Retorno do Cavaleiro Solitário”, em 1997. Hoje aposentado, Tupaceretan relembra o trabalho artístico do amigo, sempre sensível e orientado a partir de uma visão crítica da sociedade e do mundo.

“Falar de Hugo é mais que falar de um irmão. Hugo é um capítulo ímpar na cultura do Paraná, uma joia rara no coração daqueles que privaram da sua amizade e uma perda irreparável para as artes cênicas como um todo, quer como diretor, quer como dramaturgo, quer como amigo.”

Tupaceretan Matheus

Referência ética

Para o ator, diretor e professor Alaor Carvalho, Mengarelli era uma referência ética e estética tanto na arte quanto na docência. Carvalho o conheceu em 1996, quando assistiu a um espetáculo da Companhia PalavrAção e decidiu fazer um teste para entrar no elenco da próxima peça do grupo. 

“A partir dali eu comecei a trabalhar com o Hugo, ser dirigido e ensinado por ele. Hugo Mengarelli foi meu diretor, meu pai muitas vezes, meu guia e meu mestre”, diz Carvalho, que é hoje o diretor da Companhia PalavrAção. 

Último encontro entre Alaor Carvalho e Hugo Mengarelli, em 2018. Foto: Arquivo pessoal

Professor único

A coordenadora do curso de Pós-Graduação em Cinema da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) Denize Correa Araujo recorda como Mengarelli foi essencial para a formação dos alunos da universidade. “Hugo foi um professor dedicado e um dos pesquisadores mais relevantes do teatro e do cinema. Ele foi um apaixonado pelas artes e transmitia isso em suas aulas e apresentações. Deixa um legado memorável à pesquisa acadêmica.”

Adriano Esturilho, diretor, produtor e presidente do Sindicato de Artistas e Técnica em Espetáculos de Diversões do Estado do Paraná (SATED-PR), conheceu Hugo há 22 anos. Foi quando ingressou na primeira turma do Curso de Formação de Atores da UFPR. Logo depois, passou a ser assistente de direção do dramaturgo na Cia PalavrAção.

“O Hugo foi uma das minhas grandes referências na arte e na militância pela arte. Ele foi meu maior mestre e meu segundo pai.”

Adriano Esturilho

Esturilho também deixou um relato nas redes sociais em que fala sobre o legado de Mengarelli para o teatro, o cinema e a universidade pública: “Artista, professor único, provocador, pensador, semeador de novas sementes. Meu pai, meu mestre, você segue vivo nos muitos que foram transformados por ti. Você segue vivo em mim, nas ideias e no meu corpo, na arte que pulsa nas minhas veias, no que me faz levantar todos os dias, na minha paixão e no meu desejo”, escreveu. 

Depoimentos

No Facebook, amigos, ex-alunos e colegas relembraram a importância de Mengarelli para o cenário artístico paranaense.

“Ensinou muita gente a fazer filme, a fazer teatro, a interpretar, a ser mais gente, mais artista, mais apaixonado, mais amoroso. Hugo foi meu conselheiro intelectual. Foi meu professor formal e informal! Foi meu amigo!”

Ulisses Iarochinski

“Conheci seu trabalho…é uma perda para a cultura do Paraná”, diz um post. “Inesquecível professor. Passional, apaixonado, inesquecível mesmo”, diz outro. Um terceiro relato define Mengarelli como um “batalhador de nossa cultura”.

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6 comentários sobre “Hugo Mengarelli, protagonista do teatro curitibano e professor da UFPR, morre aos 76

  1. Hugo Mengarelli foi docente da Pós em Cinema UTP-Universidade Tuiuti do Paraná- por muitos anos, desde 1997, data de uma das primeiras turmas. Foi também palestrante do Mestrado e Doutorado em Comunicação e Linguagens da UTP, que teve início em 2.000. Pessoalmente fiquei muito triste com seu falecimento e deixo aqui meus adeus e minha homenagem a um dos pesquisadores mais relevantes do teatro e do cinema. Hugo foi um apaixonado pelas artes e transmitia isso em suas aulas e apresentações. Deixa um legado memorável à pesquisa acadêmica. Obrigada, Mengarelli!

  2. Muita tristeza pela perda de meu amigo Hugo Mengarelli! Desde que o conheci, em 1991, na Biblioteca Freudiana de Curitiba, apresentado pelo amigo comum, o saudoso Norberto Irusta, mantivemos uma relação de admiração e afeto mútuos. Apesar da distância física, pois moro em São Luís, encontramo-nos inúmeras vezes em eventos de Psicanálise, e era sempre uma grande alegria. Tive a honra de escrever o prefácio do seu livro “Ética e Estética do Ator: uma Questão de Desejo”. Adeus, querido amigo! Saudades…

  3. Fui tomado por uma profunda tristeza quando soube da morte de Hugo Mengarelli. Homem do teatro e do cinema, brilhou em ambos, formando e inspirando várias gerações de atores, diretores de teatro e de cinema. O conheci em meus primeiros anos em Curitiba, frequentando o cineclube na Cinemateca que foi minha primeira escola de cinema e onde assisti a seus primeiros filmes em Super 8, feitos em seu país natal, a Argentina. Nunca perdeu o forte e característico sotaque, que eu achava delicioso e soa agora em meus ouvidos enquanto escrevo. Acho que jamais houve um argentino tão curitibano, tomou-se de amores pela cidade nos anos 70 e nunca mais quis saber de voltar para seu país de origem. O vi pela última vez no doutorado que estou cursando, onde foi ministrar um seminário avançado sobre cinema, com sua típica verve e passionalidade que tornavam suas aulas inesquecíveis, como testemunham vários ex-alunos em depoimentos que não param de passar em minhas redes sociais. Erudito sem ser pedante, rendia sempre uma conversa gostosa, animada pela gesticulação expressiva indissociável do seu sangue argentino-italiano. Materialmente não habita mais esta terra, mas através de seus incontáveis discípulos e admiradores deixou raízes inextinguíveis que vão perpetuar seu legado de saber e generosidade pelos tempos afora.

  4. Hugo Mengarelli foi meu professor e orientador no curso de Pós-Graduação em Cinema, da Universidade Tuiuti do Paraná. Sua paixão pelo Cinema, pelo Teatro e em lecionar, associada a seu senso de humor e seu enorme coração, me mostraram que é possível sim se divertir e ser generoso, mesmo no universo da pesquisa científica. Meu convivio com ele, mesmo que breve, foi inspirador e decisivo para eu me tornar o professor que sou, e que eu quero ser.
    Descanse em paz, maestro.

  5. Fui aluno do Hugo Mengarelli na antiga escola de cinema Artecine em Curitiba. Anos mais tarde reencontrei o professor quando assisti a peça “Agidi – Uma Antígona Brasileira” na Federal… Realmente uma grande perda. Deus o tenha! Adeus, mestre!

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