Criador do palhaço Fidalgo fazia arte com coragem | Jornal Plural
25 ago 2020 - 8h57

Criador do palhaço Fidalgo fazia arte com coragem

Marcos Gabriel Freitas usava o humor para dizer verdades, brincar com temas densos e inspirar reflexões

A palavra fidalgo caracteriza um indivíduo com título de nobreza. Mas Fidalgo, com F maiúsculo, era o nome do palhaço criado e interpretado por Marcos Gabriel Freitas, um artista que saiu de cena prematuramente na última terça-feira (18) ao morrer de Covid-19, em Curitiba. Ele tinha 38 anos.

Foi por volta de 2010 que nasceu o bufão Fidalgo Filho de Algo, uma espécie de bobo da corte que usava o humor para dizer aquilo que pensava de verdade. Seus espetáculos brincavam com temas densos, como política e igreja, mas sempre carregavam a leveza do humor que busca, na verdade, inspirar transformações e reflexões. 

“Penso que o palhaço é um ser brincante, ele brinca com a dificuldade da vida. Acho que a vida precisa ser vivida com leveza, sem estresse”, disse o criador do Fidalgo, em uma entrevista para a série documental “Curitiba et Ciercenses”, em 2015.

O personagem

“O palhaço não é um personagem que vem de fora para dentro. Quando você vai para um curso de palhaço você busca encontrar a sua persona, quem você é sem as máscaras do dia a dia. Uma essência maior sua”, afirma o artista e educador, Rafael Barreiros, intérprete do palhaço Alípio. Barreiros foi um dos professores de Freitas que, com Fidalgo, parece ter realizado esse encontro entre pessoa e personagem de forma magistral. 

Freitas falava criticamente de temas densos, como a igreja. Foto: Jorge Franzoni/Studio-F

“Ele era um doce, mas era um doce com pimenta. Quando ele estava no palco essa pimenta ganhava potência”, diz o produtor cultural e artista Rodrigo Fowolski, que interpreta um palhaço Fowolski. Ele conheceu o artista em 2009, em meio a cursos de palhaçaria. 

É dessa mescla entre vida pessoal, espetáculo e busca incessante dentro da própria arte, que Fidalgo chegou a uma linguagem única, definida por sua força e energia intensa. 

“Não conheço no Brasil alguém que faça algo como ele fazia: essa extrema coragem de falar o que pensava na hora”, afirma o artista e amigo pessoal de Freitas, Silvestre Neto, o palhaço Macaxeira. “Ele não entrava pela metade em cena”, resume o amigo ao relembrar que Freitas trazia sua história única de vida para o palco. 

Antes da pandemia, Fidalgo e Macaxeira se preparavam para uma apresentação com outros artistas da palhaçaria curitibana. Os ensaios, no entanto, precisaram ser interrompidos pelos riscos impostos pelo coronavírus. 

Hemodiálise

Acontece que Freitas tinha problemas nos rins. O artista perdeu seu primeiro rim quando ainda era criança, aos 10 anos. Precisava fazer hemodiálise duas vezes por semana e, desde 2017, vivia bem com seu segundo transplante. 

Natural de Faxinal, a pouco mais de 300 quilômetros Curitiba, Freitas veio para a capital aos 9 anos com a família, por causa de seus problemas de saúde. Na pandemia, o fato de ter um rim transplantado o colocou no grupo de risco. 

“Ele estava com dor de garganta fazia uma semana, mas não era uma inflamação, ele dizia que era uma dor diferente”, afirma Letícia Lopes Freitas, esposa do artista. Ela também teve a infecção, mas não apresentou sintomas. 

O embate com o vírus foi dramático: começou em 27 de junho, quando Freitas foi ao médico e voltou para casa com alguns medicamentos, mas sem diagnóstico de inflamação e sem febre. 

A falta de ar veio uma semana depois, mas foi entendida como uma consequência da asma. Só no dia 7 de agosto, quando Letícia percebeu que a falta de ar acontecia quando o marido tentava andar, que ele teve o diagnóstico de Covid-19.

Quando o casal chegou ao hospital, Freitas já estava com metade do pulmão comprometido e precisou ficar internado. O período hospitalar foi de vai-e-volta entre quarto e Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Quando tudo indicava que ele voltaria para o quarto, seu quadro piorou. Dois dias depois, morreu. 

Voluntários

Marcos e Letícia estavam juntos há 13 anos. Os dois se conheceram por meio de um grupo de voluntários, dentro da igreja, em 2007, mas só ficaram próximos nos cursos de arte circense. Ele já atuava como palhaço desde 2006, como voluntário dentro da igreja. “Ele sempre gostou muito de fazer coisas com artes, teatro, essas coisas”, diz Letícia. Marcos também gostava de se aventurar como pintor.

“O Marcos era muito inteligente em cena, muito perspicaz, tinha uma percepção e uma capacidade de raciocínio fora do comum”, diz Silvestre ao falar do trabalho do amigo que, no tocante à arte palhaçaria, é definido como atento e presente. 

Para além do palco, Freitas deixa sua marca de alegria e força. “O que fica dele é essa alegria, essa energia de não se abater com as coisas. De estar sempre confiante, forte, ali…”, diz Letícia. 

“Sou negro, não quero mais ser um fidalgo, mas quero ser o quê? Um rei”, afirmou Freitas em sua entrevista de 2015. Com sua partida, o homem que encontrou na palhaçaria seu propósito de vida, não deixa dúvidas de que, tomando para si o título de “bobo da corte”, conquistou sua coroa.

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