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O muro e o amor

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Entre “O muro”, minha primeira coluna para este Plural, e “O muro e o amor”, outro muro se rompeu em Brumadinho. Há uma crônica do Rubem Braga chamada “Os mortos de Manaus” e nela o cronista briga com a consciência por estar fazendo dos mortos (apenas números num boletim de estatística) matéria para um texto, motivo para ganhar um dinheirinho e gastá-lo no boteco, esquecendo assim os próprios mortos, anônimos, de que ele se valeu.

Não falarei sobre os mortos de Brumadinho, darei continuidade aos meus raciocínios desviantes. No entanto, talvez nossa cabeça faça conexões com os muros que falam não só dentro de nós, mas alhures.

***

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Em “O muro” eu usei a ideia desses versos do Drummond, que agora coloco letra a letra – trata-se de um trecho de “A procura da poesia”. É que eu fiquei parado diante do muro, lembra? Eu olhava pra ele de revesgueio e só via manchas. Ao me deslocar por sua superfície – corri riscos, deslizar em asperezas pode machucar –, ele me disse coisas que estão ali cravadas/gravadas em tinta, em meio a mofo e musgo – se dele ou meus, nem sei bem. São palavras que brotam dali, estilo “A flor e a náusea” (Drummond de novo). Sobre as palavras no muro, mesmo se montássemos um jogral e lêssemos juntos, em coro, tudo o que o muro diz, ainda diria ele a mesma coisa a todos nós?

O muro é aquele daquela cidade daquela ciclovia daquela crônica daquela semana.

“Esqueça os seus problemas”. São tantos os pesos que carrego comigo, colocados em meus ombros – que suportam o mundo (eu não devia te dizer, mas esse Drummond me bota comovido como o diabo) –, além daqueles que eu mesmo crio por medo de andar. Então, se eu aceitar o convite do muro? O verbo é convite ou ordem? Veja com olhos próprios. Faça você (é um convite, tá?) esse exercício agora: esqueça os seus problemas.

Pausa para você esquecê-los. Isso pode levar um tempo.

Talvez esteja demorando muito e eu preciso continuar. Pode demorar mais de um minuto, mais de uma vida. Isso pode causar um problema. Afinal, para esquecer, é preciso lembrar.

“Esqueça (ou resolva) os seus problemas (você escolhe)”.

Imagino alguém, à luz do dia ou protegido pela madrugada, indo ao muro com a franca intenção de nos motivar a jogar fora os problemas. Depois outro alguém compra um spray ali na loja de tintas e, invocado, provocado e convocado, quer dar ares de debate público à conversa. Sem wi-fi.

Foi o Mikhail Bakhtin, linguista russo, quem disse que nossas palavras são sempre uma resposta para o mundo. Um engraçadinho poderia escrever, ao lado do “esqueça seus problemas”, um bem-humorado – e talvez mal-educado – “quem perguntou?”. Mas ele não ficaria sem resposta: ninguém sai de casa do nada e vai escrever “esqueça seus problemas” no muro. Alguma questão está em jogo, algo na atmosfera da vida e do pensamento nos impele a simbolizar o real. O real é a nebulosa que paira em nós – “eu sinto uma coisa”, quem nunca ouviu essa? – à procura de uma significação. Eis o que é a pergunta: o susto, ou a névoa que a gente intui, sabe que está ali, mas, ao contrário do chapisco áspero, é lisa e escorrega. Não se fixa, a não ser, e talvez, com palavras.

Quando penso nisso, lembro de “Certas canções”, do Milton Nascimento e do Tunai. Vai o trecho inicial:

Certas canções que ouço
Cabem tão dentro de mim
Que perguntar carece:
“Como não fui eu que fiz?”

Certa emoção me alcança
Corta-me a alma sem dor
Certas canções me chegam
Como se fosse o amor.

Ou seja: trazemos as questões dentro de nós, mas nem sempre sabemos como vesti-las com palavras. É o real zanzando nu. Até que alguém aparece pra dizer “bota uma roupa, rapaz!”

Oferecer palavras para o mundo pode ser mais do que um sermão em sentido unilateral. Pode ser um modo de tentar pôr uma roupa no nevoeiro de real que nos habita.

“E então apenas finja que tudo está bem”, uma resposta para o mundo, uma roupa para o real.

Começa a se formar uma cadeia de signos que afeta o outro (mexe com seus afetos, agita suas estruturas) a ponto de gerar respostas à própria afirmação que já era em si uma resposta: esqueça (ou resolva) seus problemas (você decide). A resposta a uma questão virou ela mesma uma questão que ganhou resposta.

Certas canções me chegam
Como se fosse o amor.

Nomear o amor. O amor é o exemplo de sempre nas aulas do terceiro ano, quando aprendemos classes de palavras, lá pelos 9 anos. A tia profe: “substantivo abstrato é aquilo que existe mas que a gente não pode tocar, pegar, só sentir. Exemplo: amor”.

Tá, mas você esqueceu o muro.

Espera! O Jacques Lacan, psicanalista que falava sempre com o modo revesgueio ligado, era um cara bom de trocadilho. E ele aproveita para aproximar o amor e o muro. Na tradução brasileira é mais difícil, ficou amuro, mas em francês dá certinho: amour e mur (o mour e o mur têm – quase – o mesmo som).No Seminário 19, ele diz:

“Se nunca se houvesse escrito nada numa parede, fosse ela qual fosse, aquela ali ou as outras, bem, não teríamos dado um passo no sentido do que pode vir a ser o olhar para além do muro.”

Isso, me parece, tem muito a ver com nosso encontro com o outro que nos afeta, comove, cutuca e nos leva a uma tentativa de 1. vestir nossas inconsistências e o nosso real e 2. olhar o muro indesvendável e, mesmo assim, ver algo de nós nele. E além.