Uma casa que custa o preço de um carro. E é só um pouquinho maior | Jornal Plural
15 fev 2019 - 0h00

Uma casa que custa o preço de um carro. E é só um pouquinho maior

A reportagem do Plural visitou a réplica do menor apartamento do Brasil, com 9,8m². Veja como seria viver lá

“A felicidade está no caminho, não no fim da estrada.” A frase em inglês surge ao abaixar a cama retrátil do menor apartamento do Brasil, em exposição num shopping de Curitiba. É sintomático que, numa habitação de 9,8m², mais de um terço da parede oposta seja ocupado por uma frase motivacional. O que acontecerá em seguida é um bombardeio publicitário para fazer do “menor apartamento do Brasil” não apenas um bom negócio. Ele pretende ser a resposta para os dramas existenciais vividos numa economia de baixo crescimento.

O Vivart House foi lançado no fim da ano passado pela construtora curitibana Basesul. Tem 52 unidades entre 9,8m² e 19m² distribuídas por seis pavimentos, além de áreas comuns. Localizado no Novo Mundo, próximo ao início da Avenida Kennedy, é apresentado como opção de investimento para locação convencional ou via AirBnB e similares. A menor unidade tem preço inicial de R$ 50 mil, o equivalente a um Gol 1.6 de quatro portas. O carro é um pouco menor, porém: tem 6,4
m².

O que fazer com o corpo?

Visitar um apartamento decorado é sempre uma experiência incompleta – uma impressão a partir de uma réplica. Há uma distância adicional no fato deste imóvel ser uma simulação dentro de uma loja de shopping.

No show-room da Basesul, a vitrine da loja simula uma janela para o apartamento. O corredor do shopping faz as vezes de rua; as demais lojas, a vizinhança; e os frequentadores são figurantes que criam a ilusão de presença humana. Inicialmente é uma visão pouco confortável, inversa ao convencional. Enquanto deito na cama ou abro os armários, sou espiado pelos que passam. Tenho a consciência de que, dentro da vitrine, passo a ser lido como produto – um breve estímulo sensorial a tentar seduzir o sempre tímido e curioso consumidor.

A ampla vitrine também sugere a ideia de permeabilidade entre o privado e o público, convergente com a estratégia de venda. Em uma vida digital e dinâmica, o pessoal e intransferível deve atrofiar ante o coletivo e aberto. Diz o folheto: “Você não vai mais trabalhar como seus pais trabalhavam. Não vai mais se locomover como antes. Não vai mais morar como antigamente. Suas experiências serão mais importantes que suas coisas.”

Lugar para tudo, menos você

O trânsito pelo espaço obedece a uma dinâmica de baixo gasto calórico. No banheiro, a melhor estratégia é se descolar lateralmente, como uma conta de ábaco, entre box, vaso sanitário e pia. Mesmo encostando o ombro na parede, não consigo ficar centralizado em relação à cuba. É como se o apartamento rejeitasse não apenas minhas dimensões, mas sobretudo minha pretensão de que os objetos se ajustem a mim, e não o contrário.

De forma semelhante, quando a cama abaixa ela se torna a soberana do espaço. Resta andar ao redor dela com o cuidado e a fleuma de quem está diante de um monarca. Entre móveis retráteis e planejados, milimetricamente calculados para coabitarem sem atrito, o único corpo estranho à perfeita organização é o ser humano.

A estrutura do imóvel de fato é pensada para quem passa pouquíssimo tempo em casa. Sua organização lembra mais a de um quarto de hotel. Uma mesinha dobrável para refeições rápidas, um frigobar fazendo jornada dupla como criado mudo, um cooktop elétrico de uma boca: tudo insinua que você está prestes a sair, e inclusive está atrasado. Por isso, os jovens são tidos como um dos públicos-alvo preferenciais do lançamento (não é por acaso que um skate decora a entrada do quitinete. No apartamento de metragem maior, é uma prancha de surfe).

Orgulho do aperto

O apartamento tornou-se um exemplo prático do homem que mordeu o cachorro e, segundo o anedotário da imprensa, ganhou valor-notícia por inverter o fluxo convencional dos fatos. As reportagens publicadas pelos veículos locais destacaram, não sem certo orgulho bairrista, que o lançamento desbancava um imóvel de São Paulo por menos 0,2 m², tornando a capital paranaense a líder nacional do aperto. Afinal de contas, continuam, trata-se de uma tendência em megalópoles como Nova York e Tóquio.

Nessas cidades, o metro quadrado é caro a ponto de prender seus habitantes na Lilipute de Gulliver. Elas também simbolizam uma ideia de destino realizado. Viagem dos sonhos, ápice da carreira, é lá o final de estrada que guarda sim a felicidade, ao contrário do que diz a cabeceira de cama.

O mercado imobiliário tem fixação pelo conceito de centralidade. Todo imóvel tem seu valor tipificado em função da distância até algum ponto notável. Pode ser o Centro de uma cidade ou o seu perfeito oposto, como ocorre na cultura de subúrbios. Pode ser o acesso a determinadas comodidades da vida cotidiana, como mercados e estações de metrô, ou a estruturas de lazer, como parques e shoppings.

Vivart: unidades de até 19 metros quadrados e voltado para AirBnB.

Todo empreendimento estará próximo de algo desejável e, de forma complementar, protegido pela distância de espaços a ser evitados. A dinâmica Centro-periferia é difícil de ser desconstruída. Se a falta de regulação urbanística dá brecha para alguma miscigenação social, como no caso das comunidades na Zona Sul carioca, a mesma polarização será reinterpretada no espaço exíguo de um mesmo bairro, se necessário.

O Vivart, obviamente, é próximo de várias coisas. O shopping Palladium, no Portão, é a referência primeira. “É uma área muito frequentada por jovens, e pelo preço você só conseguiria comprar algo na região metropolitana”, sou informado pelo gerente comercial. Lembro de um passado recente em que naquele mesmo shopping eram barrados jovens de aparência, digamos, metropolitana, garantindo a centralidade distintora dos espaços internos.

Começo. Ou recomeço

Lembro de meu próprio início, quando aluguei uma quitinete de 25m² na rua Alferes Poli, entre o Centro de Curitiba e o bairro do Rebouças. Esta era a metragem única de todo o prédio, o que dava ao condomínio uma ocupação coesa, embora diversa. Meus vizinhos eram estudantes da UTFPR ou jovens vivendo a euforia do primeiro emprego, como eu. Homens recém-divorciados. Mascates do Norte e do Nordeste. Prostitutas aposentadas da região da Rua Piquiri. Em comum, todos estávamos indo ou voltando de algum lugar. Esperando por algo que estava por começar ou dando um tempo depois que tudo havia acabado.

Le Corbusier disse que a casa é a máquina de morar. Dentro dela, cada elemento deve cumprir uma função específica – tal como peças em uma engrenagem – de modo a permitir o fluxo da vida. A configuração do motor estaria subordinada ao tipo de movimento desejado, por isso a importância do desenho prévio. A arquitetura contemporânea debateu longamente a inversão desse vetor. Projetos que atendiam a pressões políticas, autocracias econômicas ou modismos culturais oprimiram o indivíduo a um comportamento induzido pelo espaço arquitetônico, transformando edifícios em armadilhas de morar.

Minha impressão final é que, no compacto de 9,8m², falta espaço justamente para o que não tem volume físico: a reflexão, a tristeza, o tédio, a solidão. Todo o espectro de sentimentos humanos que, embora abominados pela linguagem publicitária, são fundamentais para a construção desse troço que costumamos chamar de indivíduo.

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