Um memorial para lembrar o que está em jogo | Jornal Plural
26 jan 2021 - 22h48

Um memorial para lembrar o que está em jogo

Movimento quer ajudar quem se sente impotente com ações coletivas. Memorial para vítimas da Covid-19 foi a primeira ação

Duas mil quinhentas e quarenta e nove fitas coloridas. Uma para cada pessoa residente em Curitiba que morreu de Covid-19 até o dia 23 de janeiro de 2021. Duas mil quinhentas e quarenta e nove vidas encerradas precocemente. Duas mil quinhentas e quarenta e nove vítimas do negocionismo, da ignorância, dá má gestão pública, da irresponsabilidade, do triunfo do indivíduo sobre o coletivo.

Neste dia 26 de janeiro um grupo de pessoas comuns levantou um singelo memorial para essas vidas. A ideia surgiu há menos de dez dias, num grupo de whatsapp entre gente que estava se sentindo impotente. Todo dia uma notícia ruim.

Uma fita para cada voz calada pela Covid-19. Foto: Jess Carvalho.

Uma vacina que não chega, pessoas morrendo sem ar, outras passando fome, tantos sem emprego, sem renda, sem esperança. Problemas que parecem ser grandes demais para que possamos fazer qualquer coisa a respeito.

Mas e se pudéssemos? E se todos puderem? O grupo decidiu virar um movimento. Um LEVANTE. Movimento Levante. A força do coletivo, da comunidade, em ações simples, replicáveis, pequenas na forma, mas grandes no desejo que mostrar que o um não é só um. O um é relevante.

Fotos: Giorgia Prates

Na quinta, dia 21 de janeiro, o Levante começou. Cada um saiu atrás de mais pessoas para colocar na rua uma primeira ação, a de mostrar o que está em jogo. E o que está em jogo? A economia? A presidência? O engajamento nas redes sociais?

Não, o que está em jogo é a vida das pessoas. Dos amigos de uma das voluntárias, que se foram. Do pai de outra. O cunhado, o irmão, a mãe que morreu sem ter conhecido o filho, o professor da Universidade cujo nome está escrito numa das fitas que adornam seu prédio histórico agora.

Todo dia há um número que só cresce. Era 1, virou duzentos, chegou a mil. Hoje, neste 26 de janeiro, são dois mil quinhentos e setenta e quatro. Amanhã serão mais. Quantos mais?

Do dia 23, quando o grupo fechou a contagem para definir o número de fitas necessárias, até esta terça, dia 26, quando o memorial foi montado, mais 25 pessoas perderam a vida para a Covid-19. A doença os levou. Mas também o obscurantismo, as trevas da ignorância, a cloroquina do populismo fúnebre.

Foto: Giorgia Prates

É simbólico que estas vidas levadas pela negação da ciência estejam agora celebradas no símbolo da Curitiba Cidade Universitária, no monumento a primeira Universidade do país. O mesmo local onde uma turba já arrancou uma faixa em defesa da educação.

Será pela mão da ciência dos homens e mulheres que construíram o conhecimento que sustenta a UFPR que iremos sair da caverna árida em que estamos. Homens e mulheres que como aqueles que se foram e como todas as vidas são promessas de um futuro melhor.

Quando repetidos exaustivamente os números têm o mau hábito de se tornarem aceitáveis. Cem mortes pareciam muito. Agora mais de dois mil já são parte da paisagem. Mas não dá para esquecer que a cidade perdeu um pedaço. O talento, a alegria, a força e o suor desses seus filhos que partiram farão falta. Ficamos mais fracos, menos inteligentes.

O levante juntou mais de setenta pessoas. Gente que doou fitas, material. Que cortou o material. Que se mobilizou na divulgação. Que avisou familiares das vítimas. Que copilou nomes.

Voluntários montaram memorial para vítimas da Covid-19 em Curitiba. Foto: Jess Carvalho.

Começou no dia 21, virou um memorial neste dia 26, e continua. Nos próximos dias o grupo vai ajudar outras pessoas em outras cidades a montar seus memoriais. E a pensar no próximo levante. Porque quando um se junta a mais um, começa um movimento, mais gente vê que não é só mais um. Um é relevante. E um movimento, bem, um movimento é uma força da natureza. Como o amor, o vento, a vida. Nada pode parar.

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