Temporada nas praias escancara irresponsabilidade com o lixo | Jornal Plural
18 dez 2020 - 17h05

Temporada nas praias escancara irresponsabilidade com o lixo

Chegada de veranistas, mesmo em pandemia, deve multiplicar a contaminação dos oceanos

Foi dada a largada para a temporada de verão e, mesmo com a pandemia, o fluxo de pessoas nas praias deve crescer muito. Esse aumento populacional traz consigo uma sobrecarga de lixo, sujeira de todo tipo que simplesmente é largada na areia ou em qualquer lugar, de ruas a rios. 

A poluição durante a temporada é maquiada pelas operações do governo de limpeza diária, mas que não resolve o problema da contaminação dos oceanos. “É por isso que não vemos na temporada uma cena de horror, porque há essas pessoas rastelando e passando um trator. Se não fosse isso, com certeza os municípios não dariam conta. Ia ser muito pior. Tentamos sensibilizar as pessoas para que cuidem do lixo. Falamos isso há anos e somos ignorados”, desabafa Juliano Dobis, diretor executivo da Associação MarBrasil, instituição que atua em diversos projetos de pesquisa e monitoramento na região costeira.  

A cena de horror, citada pelo especialista em Gestão de Recursos Naturais, não está longe de acontecer, pelo contrário. É comum nos dias pós feriados como Carnaval e Réveillon, quando as areias amanhecem cobertas de sujeira. A operação de limpeza é superficial, já que as ondas recolhem antes grande parte do que foi deixado na praia. 

Quando ocorreu o ciclone bomba, em julho de 2020, a tempestade remexeu no que estava escondido no fundo do mar e na vegetação costeira, trazendo de volta a sujeira escondida. Uma grande quantidade de lixo ficou exposta em Ararapira, litoral norte do Paraná, próximo a Guaraqueçaba. É uma região com pouca habitação, o que seria incompatível com o volume de lixo plástico descartado. Infelizmente isso é resultado do lixo no mar.

Segundo Juliano Dobis, o problema existe no Brasil todo. “As pessoas consomem qualquer coisa, não cuidam do resíduo, terceirizam a responsabilidade para o poder público, não carregando a responsabilidade pelo próprio lixo. O poder público tem sua ineficiência, eu vejo em Pontal do Paraná, há lugares onde o caminhão de coleta não passa e as pessoas não carregam o lixo duas ou três quadras para que seja recolhido”. 

O Brasil, segundo dados do Banco Mundial e da WWF-Internacional, é o quarto maior produtor de lixo plástico no mundo, com mais de 11 milhões de toneladas por ano – só fica atrás dos Estados Unidos, China e Índia. E tem o pior índice de reciclagem, apenas 1,28%. 

Ação de limpeza da MArBrasil.

Plásticos estão em quase tudo que usamos, de utensílios de cozinha, móveis, equipamentos eletrônicos, celulares. O mundo produz 20 vezes mais plástico do que em 1964, e a quantidade deve dobrar de tamanho nos próximos 20 anos, e quase quadruplicar em 2050, de acordo com o relatório do Fórum Econômico Mundial, baseado em projeções de crescimento da população e o fluxo de materiais no mundo. O relatório previu que, neste mesmo prazo, os oceanos poderiam conter mais plásticos do que peixes. 

Dionel Thiago de Araújo Vicente vem de três gerações de uma família de pescadores, já pensou em desistir da atividade, mas não conseguiu. Para voltar com o barco carregado passa semanas em alto mar. Atualmente atua como vice-presidente da Associação de Pescadores Amadores da Região de Guaratuba que possui 168 pessoas cadastradas para pesca na região. Já há algum tempo percebeu o aumento do lixo em alto mar que afeta os animais e a pescaria. 

“Já capturamos tartarugas com plástico na boca e conseguimos salvar o bicho. Mas se for mesmo para os pescadores arrecadarem, resgatarem o lixo de alto mar que é descartado nas baías, é impossível, um trabalho imenso. O lixo que os pescadores produzem é 99% é trazido de volta para a terra. Eles são os maiores interessados em que a pesca não se acabe por causa da poluição. Já existe essa consciência e esse cuidado com o próprio lixo. Os pescadores mais antigos, da época do meu pai, que já nem exercem mais a função, não tinham tanta consciência do descarte correto de redes velhas, de óleo e filtro do barco, mas hoje todos entendem essa necessidade”, explica o pescador. 

Dionel percebe o agravamento do problema durante os meses de verão. “Durante a temporada vem muita gente para a beira da praia sem consciência de que aquilo prejudica a pesca e a natureza. Se for procurar esses resíduos e fazer a limpeza dos manguezais, seriam retiradas várias toneladas de lixo acumulado. É fato. Garrafas pet, pneu, plástico demais, de uma forma absurda. O meu recado para os veranistas é para que eles tenham mais consciência tanto pela natureza em si, quanto pelo próprio pescador e pelos ribeirinhos que necessitam de tirar seu sustento do mar. É preciso uma educação ambiental profunda que envolva a comunidade dos moradores, dos veranistas e dos pescadores e o poder público em uma ação conjunta.  O impacto negativo de atividades extrativistas como a pesca é mínimo perto do impacto do lixo e do esgoto no oceano”. 

Atobá: lixo encontrado em ninhos de aves a 12 quilômetros da costa. Foto:

A visão do pescador não é diferente do constatado por cientistas e instituições de pesquisa. Os detritos marinhos não respeitam divisas e fronteiras, cruzam limites municipais, estaduais e nacionais. O oceanógrafo e professor doutor do Instituto Federal do Paraná Allan Paul Krelling tem buscado dados para dimensionar os impactos do lixo marinho no meio ambiente e no turismo. Ele investiga também como funcionam os fluxos e a dispersão dos resíduos no mar e frisa que – em todo planeta – terra, lagos, rios e canais subterrâneos estão conectados com o oceano de alguma forma. 

“As pessoas não percebem e não entendem a conexão do próprio lixo com o mar. Elas não veem porque existem muitos caminhos que esse resíduo pode tomar. Um lixo jogado em Paranaguá e que caiu no bueiro, pode ficar parado na galeria, também pode sair no canal e ficar no manguezal, ou sair do mangue e cair no complexo estuarino de Paranaguá e dali parar em uma das unidades de conservação. O mesmo lixo depois chega até a praia, ou se acumula em uma dessas grandes ilhas de lixo no meio dos oceanos. Temos uma zona de alto acúmulo entre o Brasil e a África, próximo à zona costeira africana. Um item que caiu no bueiro contribui com tudo isso e pode parar em qualquer lugar”, diz Allan Paul Krelling. 

A pandemia acrescentou a esse cenário preocupante uma grande quantidade de lixo hospitalar e máscaras. O artigo será publicado em breve pelo Instituto Federal do Paraná e identificou, em todas as praias monitoradas, a presença de itens associados à prevenção do Covid. Algo que há pouco tempo não era comum, hoje está onipresente na costa paranaense, somando-se a um problema que é colossal e traz efeitos negativos em cadeia. 

Impacto no turismo

Em uma de suas pesquisas, Krelling avaliou o impacto do lixo na renda do turismo. “Essa perda seria minimamente de 800 mil dólares no período de 3 a 4 meses de veraneio, mas se aumentar drasticamente a quantidade de lixo, as perdas econômicas podem chegar a mais de 8 milhões de dólares. Esta estimativa foi feita apresentando diferentes cenários em fotografias para os usuários de praia. Eles selecionavam a partir de qual momento parariam frequentar o local. A situação com menor impacto (US$ 800 mil de perda) já é um cenário de contaminação que existe no litoral paranaense. Se não houvesse limpeza de praia, os veranistas não viriam para cá”, acrescenta o oceanógrafo. 

Situação dos Aterros

Em geral, os aterros sanitários pela costa do país estão à beira do colapso. A cada ano são construídas novas células para abrigar mais e mais lixo. Poucos municípios no mundo tem a situação do armazenamento e reaproveitamento por meio da reciclagem sob controle. A contadora e bióloga Ellen Joana Nunes Santos Cunha é Mestre em Ensino das Ciências Ambientais (UFPR/Litoral) e Mestre em Ciência, Tecnologia e Sociedade (IFPR/Paranaguá) e fez um levantamento sobre como os gestores lidam com a questão do lixo, levantando informação em Matinhos, Guaratuba, Pontal do Paraná e Guaraqueçaba. 

“Os gestores das regiões de praia reconhecem o problema e todos alegam a falta de investimento específico. Eles não conseguem reconhecer que o dinheiro que vem com a temporada seja redirecionado para isso por parte do Estado. Também destacam a grande pressão que é o veranista. O município de Guaratuba, por exemplo, indicou que pula de 32 mil habitantes para quase um milhão de pessoas na virada do ano. O município encontra, de um dia para o outro na praia, a quantidade de resíduos que é coletada ao longo de meses. Já Pontal do Paraná alega falta de pessoal para limpeza da orla em toda a extensão.  Todos os municípios fazem coleta parcial, ou seja, não atendem toda a população com os serviços básicos. E também não se sentem totalmente responsáveis pelo lixo por não saberem identificar de onde vem todo o resíduo. Em Paranaguá existem as áreas não regularizadas, invasões e ocupações em mangue que geram lixo e esgoto sem nenhum controle”. 

Até em locais distantes da costa os pesquisadores encontram lixo. É o caso do Parque Nacional Marinho de Currais, uma das três unidades de conservação marinha do país e área riquíssima em biodiversidade e espécies ameaçadas. Em uma ação de limpeza, a equipe da MarBrasil chegou a recolher lixo até em ninhos de Atobás, aves marinhas que encontram, no arquipélago, a doze quilômetros da costa, local para refúgio e reprodução. 

Robin Loose, coordenador de Logística e Operações Náuticas na Associação MarBrasil, lembra que dos estados litorâneos no Brasil, o litoral do Paraná é um dos menores em extensão, mas possui um grande potencial turístico para a prática de mergulho, mas a poluição pode atrapalhar a atividade.  “O lixo marinho infelizmente é visível nos mergulhos. A presença de lixo nos pontos de mergulho ocorre, na sua grande maioria, devido ao alto tráfego de navios que atracam no porto de Paranaguá. Estes navios clandestinamente jogam lixo no mar, o que causa um impacto nos animais marinhos e também na poluição visual do mergulho contemplativo”.

O ornitólogo Raphael Sobania tem casa em Atami, balneário paranaense, e percebe que os navios estão estacionando cada vez mais próximos da costa, e comenta que é comum descartarem lixo na água. “Caminhando pela praia, é fácil encontrar garrafas de vinho, de leite e outras embalagens estrangeiras que vêm dos navios, porque são produtos que não estão à venda no mercado brasileiro. Percebe-se que são produtos de consumo, como bebidas e enlatados que são trazidos pelas ondas até a areia”. 

Todos somos responsáveis

Se por um lado o uso massivo do plástico nos trouxe mais conforto, por outro, sobrecarregou mais do que aterros sanitários, contaminou o solo, a água e uma parcela imensa dos animais, incluindo nós, seres humanos. 

É preciso que, enfim, as pessoas caiam na real, percebam o que geram de lixo em sua rotina, e adotem novos hábitos de consumo e descarte desse material. Plásticos de uso único, como embalagens, sacolas, copos e canudos, por exemplo, devem ser evitados o máximo possível e, em um mundo ideal, banidos do dia a dia. 

Apesar de mais turva, a água do litoral paranaense é mais limpa do que em Santa Catarina

Órgãos de controle estaduais divulgam, em períodos de temporada, os resultados das análises de amostras de água coletadas nas praias mais frequentadas pelos banhistas. As águas do litoral paranaense, apesar de serem mais escuras e terem baixa transparência, são menos contaminadas do que no estado vizinho, Santa Catarina, famoso pelas belas e extensas praias de águas claras.  

Na última semana de janeiro de 2020, os relatórios de balneabilidade do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) mostraram que 68% dos 231 pontos analisados no litoral catarinense estão próprios para banho. Isso quer dizer que uma em cada três praias estava imprópria para banho por causa de contaminações como esgoto e lixo. 

Já no Paraná, o Instituto Água e Terra monitora 49 pontos, em Guaratuba, Matinhos, Pontal do Paraná, Ilha do Mel, Morretes e Antonina. O boletim de balneabilidade, divulgado no mesmo período de 2020, apontou que todas as praias estavam próprias para banho. A poluição se concentrava em rios, canais e galerias considerados permanentemente impróprios para banho, independentemente da época do ano.

Juliano Dobis explica os motivos para que a água na costa paranaense seja mais turva: “O principal motivo é a presença dessas grandes baías de Paranaguá e de Guaratuba. Tem muito sedimento que vem de dentro, os rios que vem da serra acabam carreando sedimentos e nutrientes e, do estuário, a água sempre vai ser menos transparente. Conforme a água sai para mar aberto isso se dissolve. É algo que chamamos de pluma estuarina, como uma nuvem que sai do estuário, essa área de transição, e melhora a transparência conforme se espalha pelo oceano. Para mergulho e coletas científicas isso diminui a visibilidade. Em muitos pontos parece que estamos no escuro, mas por outro lado, essa característica traz muitos nutrientes para a biodiversidade, o que é extremamente importante. Os manguezais também contribuem com essa redução de visibilidade e aporte de sedimentos no mar”. 

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