Quando a falta de água vai além do rodízio | Jornal Plural
8 set 2020 - 20h07

Quando a falta de água vai além do rodízio

Para famílias em áreas irregulares, problemas com abastecimento vão da ausência de caixa d’água à rede de distribuição

Guardar água em garrafas e galões, priorizar o consumo para cozinhar, evitar lavar roupa e tomar banho. Esta tem sido a rotina de quem – em meio à seca pela qual passa o Paraná – não conta com uma caixa d’água. “Todo mundo está aprendendo que precisa guardar água para ter mais tarde”, diz Juliana Teixeira, morada e parte da liderança na comunidade 29 de Março, na Cidade Industrial de Curitiba (CIC).

Na casa de Edna Bacini, a Néia, é o tanque que permite a higiene dela e dos três filhos: “Eu deixo o tanque cheio para gente tomar banho, se lavar”, diz. Moradora da comunidade Dona Cida e parte da liderança do lugar, a família de Néia é uma, das muitas, que não contam com caixas d’água para passar pelo período do rodízio sem maiores problemas.

“Quem tem caixa toma banho, quem não tem guarda água para cozinhar. Não tem muito o que fazer, a gente não sabe o horário que a água volta”, diz Néia. Diarista, ela foi dispensada – por conta da pandemia – das três casas em que trabalhava, e conta com o apoio de apenas uma das contratantes.

Uma caixa d’água pode custar R$ 170, e chegar a R$ 5 mil a depender da capacidade de armazenamento – esses valores, sem levar em conta a instalação. Um dinheiro que nem sempre está disponível no orçamento de famílias da periferia. “A caixa d’água é um pouco mais cara, o pessoal às vezes não tem condições de comprar”, afirma Néia.

Com os rodízios, que instituiram um dia e meio com água, um dia e meio sem água, a rotina na casa em que Juliana mora, com os dois filhos e o marido, é de encher galões e garrafas quando há água na torneira. “Faz parte da vida da gente, a gente tem que se acostumar e ir reservando.”

No entanto, os galões nem sempre são suficientes para passar pelo período sem água: “Acaba antes, mas daí a gente vai se virando como pode”, diz Néia. Quando questiono como é possível se virar quando não há água, a resposta vem entre risos: “Não sei, a gente se vira aqui”.

Sempre falta

O desabastecimento nas comunidades, no entanto, já é um problema antigo. “Na verdade, a gente sempre sofreu com a falta d’água, mesmo antes do racionamento”, diz a liderança da comunidade Dona Cida.

Acontece que a rede de distribuição existente no local foi feita pelos próprios moradores. A Sanepar só fará o projeto da rede de distribuição de água caso a Prefeitura de Curitiba regularize a área, por meio da Companhia de Habitação. Com a distribuição precária, mesmo antes do rodízio, muitas casas demoravam para receber água, ou sequer chegavam a ter volume nas torneiras.

Recentemente, a Sanepar fez melhorias no atendimento às comunidades na CIC. “Nem fora do racionamento a gente tinha água. Quando chegou todo mundo ficou tão feliz”, conta Juliana, que divide a alegria da melhora com outras 350 famílias com dificuldades para ter água. “Falta agora, mas a gente sabe que vai voltar, que vai encher a torneira. Isso é o mais importante para nós. Demora para vir, mas o importante é que você ligue a torneira, o chuveiro, e tenha água. Nunca existia água.”

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