Remédio para dormir foi o mais vendido em Curitiba em 2020 | Jornal Plural
21 jan 2021 - 20h02

Remédio para dormir foi o mais vendido em Curitiba em 2020

Oito dos dez medicamentos mais procurados foram para tratar distúrbios da mente

Em 2020, o Zolpidem, indutor do sono, foi o remédio controlado mais vendido nas farmácias de Curitiba, superando o consumo de antibióticos. O medicamento encabeça uma lista em que oito das dez substâncias mais comercializadas na Capital paranaense no ano passado foram para tratar distúrbios relacionados à saúde mental.

Os dados são do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC), da Anvisa, agência reguladora dos medicamentos no Brasil. De acordo com as informações, entre janeiro e novembro, 303.749 caixas de Zolpidem foram vendidas em Curitiba. O número é 35% maior do que o segundo colocado na lista, o Cloridrato de Sertralina, usado no controle de casos depressivos, de ansiedade e crise do pânico. O Clonazepam, popularmente conhecido como Rivotril, vem em terceiro lugar.

Aposta do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) para um suposto tratamento da Covid-19 – veementemente contestado por pesquisadores e profissionais da área da saúde, mas que chegou a ser testado no Paraná –, o Sulfato de Hidroxicloroquina aparece em 57º lugar. O antiparasitário Ivermectina, outro inflado sem respaldo científico pelo presidente, ficou mais abaixo, na 82ª posição, pois deixou de ser comercializado com retenção da receita em setembro.

Mentes abaladas

Dos dez remédios mais vendidos em Curitiba ao longo de 2020, oito são psicofármacos. A composição é praticamente a mesma registrada em 2019 e não por acaso: profissionais alertam para o agravamento progressivo da saúde mental da população em todo o mundo.

“A lista [dos medicamentos mais vendidos em Curitiba em 2020) mostra que a gente está falando da psiquiatria como uma doença mesmo. A gente está vendendo remédio para dormir mais que antibiótico e isso revela que a saúde mental das pessoas não está legal, que elas estão buscando ajuda e que há profissionais tratando das mais diversas formas”, analisa a psiquiatra Raquel Heep. “E realmente assusta bastante o número de vendas do Zolpidem. Também é uma forma de a gente entender que o sono das pessoas não vai bem e que não dormir já virou um caso de saúde pública”, acrescenta.

Segundo a médica, mestre em Ensino das Ciências da Saúde  e professora de Saúde Mental do curso de Medicina da Universidade Positivo (UP), aproximadamente um terço das pessoas hoje são afetadas pela dificuldade de dormir. Entre os idosos, o transtorno pode afetar 50% deles – o que ajuda a compreender a densidade nas vendas de medicamentos como o Zolpidem.

Presente desde 2007 no mercado farmacêutico nacional, o fármaco superou, inclusive, as vendas do “popular” Rivotril. Diferente deste, o Zolpidem é um remédio específico para dormir e, portanto, não prejudica a qualidade do sono. No entanto, ele não está isento de efeitos, muitas vezes preocupantes.

“Com o tempo a gente também foi vendo que não se trata de um remédio tão bonzinho. Ele é vendido como um remédio que não causa dependência, mas a gente já percebe casos de dependência de Zolpidem facilmente”, alerta Heep. “Ele também pode fazer amnésia, fazer a pessoa ter comportamentos estranhos, pode fazer até a pessoa ter um ataque psicótico.”

Causa e efeito

Tentativas de comprar psicofármacos sem indicação e receita médicas não são raras em Curitiba, afirma o farmacêutico Jackson Rapkiewicz, gerente técnico-científico do Conselho Regional de Farmácia do Paraná (CRF-PR). Na verdade, as cenas são comuns em todo o Estado, onde um farmacêutico já foi morto por se recusar a vender uma substância controlada sem receita. O caso foi em 2017, em Cianorte, no Noroeste.

“O farmacêutico já está bem habituado com pessoas chegando para comprar sem receita. Aí é preciso explicar que é tudo controlado, que é preciso enviar um relatório semanalmente para a Anvisa detalhando o que foi comercializado e que a pessoa precisa ter um acompanhamento do profissional de saúde. Mas, mesmo assim, eles tentam, argumentam que o médico está viajando e que não pode ficar sem o remédio. É bem comum acontecer”, conta Rapkiewicz.

Na avaliação do farmacêutico, apesar da necessidade incontestável dos tratamentos de distúrbios mentais, é preciso ficar atento para uma possível banalização da prescrição de substâncias controladas. O uso controlado de medicamentos já faz parte de um tema permanente da Organização Mundial da Saúde (OMS). O debate tem como premissa um tratamento terapêutico apropriado para necessidades clínicas do paciente, nas doses individualmente requeridas e para um adequado período de tempo.

“O indutor de sono, por exemplo, ele realmente se destaca. A gente sabe que as pessoas se queixam muito de problema de insônia, que isso existe. Mas será que todos precisam mesmo ou grande parte poderia se beneficiar por medidas não farmacológicas?”, questiona o farmacêutico. “Muitas vezes, a primeira escolha não deve ser partir para o medicamento. Mas tudo isso também vem de uma cultura em que os remédios são a solução para tudo.”

A psiquiatra e professora da UP concorda. De acordo com ela, em relação à insônia, estudos mostram que apenas 10% de pacientes que relatam dificuldades para dormir têm insônia “pura”, sem nenhum outro tipo de transtorno associado. Daí a importância de evitar o uso de indutores do sono sem tratar a causa específica do distúrbio.

“Sem contar que muitos outros médicos acabam prescrevendo. Você vai no ortopedista porque você tem uma dor, ele sabe que você não vai dormir bem por causa daquilo e sabe que o Zolpidem é um remédio que vai fazer só dormir. Pode existir, então, essa banalização. É um remédio que já está em baixo custo, que os médicos sabem que é só um indutor de sono, mas não é bem assim. A  cautela tem que ter, até porque não é um medicamento isento de efeitos colaterais e de interações medicamentosas”, finaliza a médica.  

Foto: Pixabay

Os dez medicamentos mais vendidos em Curitiba em 2020

Hemitartarato de Zolpidem  (indutor do sono) – 303.749 caixas (caixas)

Cloridrato de Sertralina (antidepressivo/ ansiedade ou crises de pânico) -224.586

Clonazepam (Rivotril – ansiolítico do tipo benzodiazepínico /sedativo) – 215.507

Oxalato de Escitalopram (antidepressivos/ ansiedade ou crises de pânico) – 193.339

Hemifumarato de Quetiapina (estabilizador de humor) – 145.756

Azitromicina di-hidratada (antibiótico) – 134.126

Alprazolam  (ansiolítico do tipo benzodiazepínico /sedativo) – 114.493

Cefalexina monoidratada (antibiótico) – 113.181

Cloridrato de Venlafaxina (antidepressivo) – 113.181

Cloridrato de fluoxetina (antidepressivo) – 104.569

*Fonte: Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC)/Anvisa

Se puder, assine o Plural. Você pode escolher o valor que quer pagar. Isso faz muita diferença para nós: ser financiados por leitoras e leitores. As assinaturas nos mantêm funcionando com uma equipe que hoje tem oito pessoas e dezenas de colaboradores. Somos um jornal que cobre Curitiba em meio aos obstáculos da pandemia e fazemos isso com reportagens objetivas, textos de opinião e de cultura, charges e crônicas. Obrigado pela leitura.

2 comentários sobre “Remédio para dormir foi o mais vendido em Curitiba em 2020

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias