Quando jornalistas se abrigavam em bares para lutar contra a ditadura | Plural
11 nov 2019 - 22h58

Quando jornalistas se abrigavam em bares para lutar contra a ditadura

Leia trecho do livro “A Luta Bebe Cerveja”, vencedor do Prêmio Sangue Novo

Não houve um jornalista que não pisou, ao menos uma vez, no Bar Palácio. Generalizações à parte, se cabe a um lugar o título de “reduto de jornalistas”, é lá. Fundado em 1930 na Barão do Rio Branco, é do tipo folclórico e tradicional. Só foi mudar de endereço nos anos 90, para a André de Barros, logo ao lado, onde está até hoje. A Barão era a mesma rua que abrigava a redação do jornal O Estado do Paraná, o Estadinho, e por isso acabava sendo de lei fechar o expediente nas mesas de madeira do Palácio. Isso foi antes do Estadinho mudar de sede e migrar para as Mercês, onde morreu em 2010.

Não era o mais barato, mas o importante era estar junto. Além disso, incontáveis reuniões do Estadinho ocorreram no Palácio, não na redação. Era como se o bar fosse uma sala, um escritório, um anexo – extensão. Pra que fazer reunião no jornal se a gente pode fazer no bar? É só descer a rua, afinal de contas.

E esse foi o combinado daquele dia entre alguns repórteres e Luiz Manfredini, o Manfra. Entre os jornalistas, Adélia Maria Lopes, mato-grossense que veio para Curitiba estudar Jornalismo e Ciências Sociais (como boa libriana, não conseguiu se decidir por um só). A ideia era discutir uma cartilha de redação no Palácio. Mas aí o Manfra deixou a reunião pra lá e foi assistir a um jogo do Atlético Paranaense, assim, “sem avisar ninguém”.

Adélia ficou doida da vida e quando ele finalmente apareceu, soltou um palavrão. Manfredini a demitiu na hora. “Você manda o chefe para a puta que pariu… Por mais liberal que você seja, você está sujeita a ser demitida”, conta ela. A redação inteira tomou as dores de Adélia. Organizaram uma outra reunião no Palácio, chamaram a moça e fizeram-na ser recontratada. É engraçado que a vida dos jornalistas acontecia quase como que 50% na redação e os outros 50% no bar. Até as reuniões!

E olha só que coisa do destino, Adélia e Manfredini já foram casados. “Essa história foi antes ou depois do casamento?”, pergunta a curiosidade. “Antes. Daí eu me casei por vingança”, brinca.

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Adélia Lopes veio de Aquidauana, interior do Mato Grosso do Sul, ser jornalista em Curitiba. Pisou na cidade dos pinhais no dia em que foi proclamado o Ato Institucional n.º 5 – 13 de dezembro de 1968. Achava a cidade feia. Fazia teatro com Denise Stoklos, Jornalismo na Universidade Federal e Sociologia na então Faculdade Católica.

No dia do AI-5, Jaques Brand, outro jornalista, se lembra de estar tomando umas no bar. Era o Bar do Leleco, que ficava na frente da Casa da Estudante, ao lado da Reitoria, intensamente frequentado por estudantes. Para eles, a coisa toda acontecia no Bar do Leleco (ou Bar do Quim. É que Quim era o dono e Leleco, o garçom), na cantina da Reitoria (que servia pizza nos intervalos!) ou no Restaurante Universitário.

Quem estudou na Federal em 1968 se lembra de ter reuniões dentro do RU para organizar a ocupação da Reitoria, um dos movimentos de resistência democrática ocorridos em Curitiba contra o regime militar. Nada melhor do que pensar quem é que vai derrubar o busto do reitor comendo um prato de arroz com feijão.

Além disso, não era seguro conversar sobre essas coisas na frente de todo mundo. Na sala de aula, por exemplo, vira e mexe aparecia um informante, um araponga. Eles entravam lá e ficavam de tocaia, às vezes disfarçados de alunos, só para descobrir se havia algum subversivo na área.

As pessoas tinham muito cuidado com o que falavam em voz alta, porque se fossem pegos pelos milicos, podiam não voltar. E como saber em quem confiar? A ideia de perseguição ideológica era real: o medo de falar mal do governo, o medo de ser capturado, o medo de ser ouvido por quem não deve. Tudo estava lá. As pessoas simplesmente desapareciam, não voltavam, ninguém ficava sabendo o que houve. No fundo, lá no fundo, sabiam sim, mas era difícil de acreditar.

O AI-5, mais severa das medidas arbitrárias tomadas durante o regime militar, retirava direitos civis e políticos dos cidadãos e legalizava, por exemplo, a tortura. Foi assim até 1979, com a Lei da Anistia.

Os estudantes sentiam todos esses medos e também a dor de serem perseguidos, mas estavam atentos e fortes, como diz a música. Eis o causo do busto do reitor: 1968, quem comandava a Universidade Federal do Paraná era Flávio Suplicy de Lacerda, indicado por Castelo Branco. Rondava por ele um acordo chamado MEC-Usaid, em parceria com os Estados Unidos, para aplicar uma anuidade aos calouros da universidade, até então, pública e gratuita. A ideia toda era tornar a educação brasileira mais tecnológica, com reformas desde o ensino fundamental, nos conteúdos, até a universidade, tornando-a paga.

A revolta foi geral. Os estudantes ocuparam a Reitoria e só saíram quando o acordo caiu por terra. Nesse ínterim, arrancaram o busto de Suplicy do pátio e arrastaram pela XV de Novembro, como sinal de protesto. É de conhecimento geral que o busto em homenagem ao ex-reitor voltou para seu posto no pátio da Reitoria, mas foi novamente arrancado por estudantes em 2014, cinquenta anos após o golpe militar.

Os universitários também foram protagonistas de outro movimento de resistência em Curitiba, que ficou conhecido como “chácara do Alemão”. Veja só, em 1968, o congresso da UNE, em Ibiúna, São Paulo, foi descoberto, e mais de mil estudantes foram pra cadeia. Aí cada regional da União Nacional dos Estudantes decidiu fazer seu próprio minicongresso. Aqui em Curitiba ficou agendado na chácara do Alemão, no Boqueirão, perto do quartel.

Para disfarçar, disseram que era um churrasco de confraternização. Infelizmente foram pegos no flagra. E 17 participantes acabaram presos e condenados, com base na Lei de Segurança Nacional.

De qualquer modo, na época florescia na juventude a ideia (até) apaixonante de lutar contra a ditadura. O mundo inteiro estava em revolução, exemplos não faltavam. As primaveras de 1968 em Paris e Praga. Brigitte Bardot desfilando de biquíni. Woodstock e a coisa toda. Lisérgicos e contraceptivos à disposição. Descobria-se a liberdade de ser quem era em um ambiente repressivo.

Não só entre os estudantes – todo mundo estava com um espinho no coração. Imagine a dor de viver assim, pressionado, contra a parede, onde tudo é proibido, nada é realmente divino maravilhoso.

E é assim que ler um poema no bar, usar um batom, cortar o cabelo e a irreverência toda são formas de dizer com o próprio corpo que se está contra tudo que “está aí”. Havia os que não escovavam os dentes – “ir ao dentista é coisa de burguês” – e os que não tomavam banho. Porque todo mundo estava frágil, sentia-se no ar que alguma coisa estava errada, e o corpo se torna uma forma de protestar nessas alturas.

O corpo é político. A fala, a bebida, o escarro: tudo que sai de ti é o início de um movimento. Em nome do que, depende de você.

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Um outro fato sobre a ditadura militar era a censura sobre a imprensa. Havia, portanto, nas redações de jornal, TV e rádio, murais com bilhetinhos colados diariamente sobre o que era proibido falar naquele dia. Assim, desse jeito mesmo.

Quando pouco, um censor batia às portas, em pessoa. Às vezes, acontecia de a matéria estar pronta e ser barrada. Mas o que rolava muito no Paraná era a autocensura: já sabendo o que seria proibido, os jornalistas não falavam sobre aquilo, se cuidavam, conversavam com os editores e mudavam o tom das próprias palavras.

E é por isso também que ninguém mencionava assalto ao banco, morte de índio, violência em geral e, é claro, corrupção. Ficava por debaixo dos panos. Sem notícia, a população não ficava sabendo o que de ruim vinha do governo. A mídia sempre é alvo de regimes autoritários.

Às vezes, dava raiva. Enquanto jornalista, saber que algo tinha acontecido, e não poder fazer nada, chega a dar desespero. Não precisava nem ser um militante dos grandes para sentir raiva de ser censurado. Essa manipulação geral é tão poderosa que com o passar dos anos gera uma dormência no público.

        Mas lá vai ele, todos os dias para a redação. O jornalista. Ler os bilhetinhos, descobrir o que não podia falar, trabalhar com metade das forças. O clima das redações não era dos piores, porque todo mundo era amigo, falavam muito, a barulheira das máquinas, o amor em comum pela palavra, o cheiro de cigarro, os flertes.

Só nas maiores havia aquele medo de ter um espião entre os repórteres, mas geralmente nesses casos já se sabia quem era o espião. Então era só não falar nada ali por perto – de coisas básicas a grandes artimanhas. De qualquer maneira, viver sob censura é agoniante. Às vezes, por dizer um A, o sujeito saía taxado de comunista. Ser comunista era atestado para cadeia, veja só. E na maioria das vezes, nem comunista era.

Para descontar a raiva, vez ou outra o encontro depois do expediente era no Bamboliche, na Marechal Deodoro, no Palácio do Boliche, no ginásio do Atlético, ou no Bebum Boliche, na Duque de Caxias. Os três boliches da cidade. A bola de boliche voando a sabe-se lá quantos quilômetros por hora para acertar os pinos era o meio encontrado para descarregar. Pá! Uma descarga elétrica, adrenalina mesmo.

Na diversão também há força.

Quem quiser pode ler o livro completo aqui.

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