Puerpério: os 40 dias mais intensos de uma mãe | Jornal Plural
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24 maio 2019 - 5h20

Puerpério: os 40 dias mais intensos de uma mãe

Região de Curitiba ganha casa inédita de atendimento a mulheres no pós-parto

As seis semanas que sucedem o nascimento de um bebê trazem as maiores modificações na vida familiar. É a fase de adaptação. Para as mães, ela é muito mais intensa pois, além de se moldar à nova rotina com o filho, ela precisa se recuperar das dores do parto, das transformações físicas que ele impôs e das inseguranças emocionais que insistem em aparecer. Esta fase das mulheres no pós-parto chama-se puerpério.

As alterações femininas neste período começam pela redução de dois hormônios importantes: a progesterona e o estrógeno (ou estrogênio). Responsáveis por preparar o útero para o parto e estimular o crescimento das glândulas mamárias durante a gravidez, em baixa quantidade podem colaborar para quadros de instabilidade emocional, como medo, irritabilidade, pensamentos tristes e até a depressão pós-parto.

O humor tende a estar mais depressivo, também conhecido como ‘blues’ puerperal. “É um humor levemente triste, sensível, que não é depressão. Mas se a puérpera não tiver apoio dos familiares isso pode piorar”, alerta o ginecologista e obstetra Gilberto Utida, coordenador de Residência no Hospital São José e professor na Faculdade Pequeno Príncipe.

“É uma mudança abrupta, são muitas transformações físicas e psíquicas e a responsabilidade e as novidades de cuidar de um bebê, associadas à falta de sono e à incapacidade de se cuidar adequadamente, podem ser catastróficas. Algumas puérperas (mulheres no puerpério), poucas felizmente, têm o pensamento de matar o bebê, o que chamamos de psicose puerperal”, explica o médico.

Somadas às alterações hormonais e psicológicas estão as mudanças físicas. O primeiro desafio para a mãe após o nascimento de seu filho é a amamentação. A produção de leite no organismo pode levar de 48h a 72h para iniciar. Aí é preciso paciência. “Amamentar se aprende, como todas as capacidades humanas”, garante Utida, lembrando que rachaduras no bico dos seios e mastite (inflamação da mama) são problemas frequentes. “Foi difícil pegar no início, tive mastite, é bem dolorido, mas logo nos adaptamos”, conta a auxiliar de logística Anne Franciele Monteiro Portes.

Amamentar é o primeiro desafio para a mãe

Para ela, o momento mais preocupante do puerpério foi a hemorragia que teve logo após o parto normal, que se deu com 32 semanas de gestação. “Perdi muito sangue e me senti muito fraca, não pude nem cuidar dele no primeiro dia”, relembra. “Mas depois tudo ficou bem.”

A fase é também da volta dos órgãos abdominais a seus lugares, já que muitos se comprimem ou se afastam para dar espaço ao útero com o bebê. Isso pode trazer desconforto e gases. O útero igualmente se recupera e assume sua forma normal. Mas até isso acontecer, e a ferida placentária cicatrizar, pode haver sangramentos prolongados, e cólicas, por todo o puerpério.

Por estes 40 dias, no entanto, não há ovulação e a amamentação pode prorrogar a volta da menstruação por meses. Esta alteração no ciclo menstrual é causada pelo hormônio prolactina, responsável pela produção do leite materno.

Nos casos de parto normal, o canal vaginal precisa recuperar a musculatura pélvica, que muitas vezes sofre com lacerações e episiotomia (corte na região do períneo para ampliar o canal do parto). A cicatrização, em geral, leva três semanas.

O mesmo vale para a cesariana, na qual sete camadas – entre elas, pele e musculatura – são cortadas até se chegar ao útero para a retirada do bebê. No caso das cirurgias, os cuidados devem ser redobrados e deve-se fazer repouso e evitar carregar peso durante as primeiras semanas.

Com a queda da liberação do hormônio estrogênio também pode haver menor lubrificação e até inflamação no canal vaginal, assim, o sexo não é recomendado neste período. “Mulher com bebê pequeno não transa. Se vê feia, com o corpo diferente, a mama cheia de leite, sem hormônios femininos, sem libido, sem dormir; não vai transar mesmo. E o parceiro precisa respeitar, precisa ser parceiro mesmo nesta hora”, ressalta o ginecologista.

Complicações e orientações

No puerpério podem acontecer algumas complicações graves no corpo feminino, ocasionando até mortes. As principais causas de mortalidade nas puérperas são hipertensão, hemorragias e infecções. Em Curitiba, foram registrados três óbitos maternos durante o puerpério em 2017. Um por causa tromboembólica, outro por causa circulatória e o terceiro por infecção. Já em 2018, registrou-se apenas uma morte no pós-parto e a causa foi circulatória.

Os números são da Secretaria Municipal de Saúde que, a partir dos 21.764 nascimentos na Cidade, realizou 17.412 consultas de puerpério em 2018.

A primeira consulta da mãe deve ser realizada até o décimo dia do pós-parto. Nela, o médico irá avaliar amamentação, sangramento, cicatrização, vacinas e dúvidas. O retorno ao consultório deve acontecer entre 30 e 40 dias, já no fim do puerpério. A visita servirá para uma nova avaliação de saúde e também para discutir sobre os métodos anticoncepcionais, já que nesta fase o útero volta à ovulação, o que pode levar a uma nova gestação, não recomendada antes de dois anos.

Direitos

Vale lembrar que durante os atendimentos nas Unidades de Saúde ou Hospitais, grávidas e puérperas têm direito a aguardar sentadas, em um lugar arejado, com banheiro à disposição.

Entre os direitos da mulher com um recém-nascido estão também:

*Permanecer contratada pelo período de cinco meses após o parto.

*Cumprir seus compromissos escolares em casa. O período de afastamento escolar depende de avaliação médica.

*Pelos primeiros seis meses, ser dispensada do trabalho por dois períodos de meia hora, ou um período de uma hora, para amamentar.

*Mudar de função ou setor no trabalho, caso ele apresente riscos para a saúde da mãe ou do bebê.

*Ter guichês e caixas especiais, ou prioridade nas filas para atendimento, em instituições públicas e privadas.

*Ter assentos prioritários em transportes públicos.

“O puerpério saudável depende de apoio e informações para que a mulher entenda que estas transformações são normais, e aquilo que não for normal ela também deve saber”, destaca o obstetra Gilberto Utida. “A mulher precisa se conhecer, entender o que acontece com seu corpo antes e depois da gravidez para saber também quando deve procurar ajuda. E neste momento, não ter vergonha. Nesta hora, grupos e espaços de apoio ajudam muito. Mas o apoio familiar é o mais importante. Se houver isso, o puerpério pode ser um período maravilhoso”, assegura o médico.

Apesar das dores, puerpério é um momento especial para as mulheres. Foto: Amanda Nunes

O cuidado a quem cuida

Na falta de companhia, auxílio e relaxamento, mulheres no puerpério podem buscar formas diferentes de enfrentar os dias difíceis do pós-parto. Uma das opções é a primeira casa de acolhimento às puérperas do Brasil. O lugar fica em uma chácara em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, onde a doula e artista plástica Lucia Misael inaugura um projeto especialmente voltado às recém-mães. “Vamos oferecer diversas atividades e profissionais de apoio para atender estas mulheres de forma amorosa, sem julgamento, permitindo a elas o descanso e o cuidado. Queremos cuidar de quem cuida pois muitas vezes, nessa fase, toda a atenção da família se volta ao bebê e há um certo abandono com o cuidado da mãe, que passa por intensas mudanças hormonais e emocionais”, observa.

Casa para Puérperas fica em Colombo. Foto: Priscila Forone

Idealizadora da Casa Rudá, Lucia conta que o espaço, em meio à natureza, também vai levar informações às mulheres, por meio de palestras. Os atendimentos serão feitos por psicólogos, pediatras, nutricionistas, fisioterapeutas, advogados, estilistas e artistas, entre outros profissionais. “Teremos os recursos da ciência mas também as terapias alternativas, como acupuntura, banho de ervas, de ofurô e arteterapia. A ideia é que a mulher escolha a atividade que quer participar e aqui se sinta bem com seu bebê durante todo o dia”, destaca Lucia.

Ofurô é uma das opções para relaxamento. Foto: Priscila Forone

Ela lembra que o modelo de negócio será o de uma “economia compartilhada, na qual todos ganham”. Apesar de só realizar atendimentos particulares, Lucia garante que a Casa irá levar a outros espaços os projetos desenvolvidos por lá.

Para o lançamento do projeto, a artista traz a Curitiba a psicoterapeuta argentina Laura Gutman, autora do best-seller “A Maternidade e o encontro com a própria sombra”. A profissional fala sobre maternidade, relação pais e filhos e, claro, puerpério. Os profissionais que vão atuar na Casa também participam de um debate com reflexões sobre o tema. O encontro será no sábado (25/5), no auditório da FAE Curitiba, a partir das 10h.

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