Protesto termina com quebradeira e tiros de borracha em Curitiba | Jornal Plural
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2 jun 2020 - 0h52

Protesto termina com quebradeira e tiros de borracha em Curitiba

Ato contra o fascismo e o genocídio da população negra acabou em instituições, bancos, pontos de ônibus e lojas depredados. Polícia dispersou a multidão com balas de borracha e gás

Na sequência dos protestos nos Estados Unidos, Curitiba foi palco, na noite desta segunda-feira, primeiro de junho, de manifestações contra o genocídio da população negra. Formado em sua maioria por jovens, o protesto começou pacífico mas prosseguiu para a queima de bandeiras do Brasil e do Paraná, atos de vandalismo e prisões.

Foram depredadas estações-tubo, agências bancárias, lojas, shopping e o prédio do Tribunal de Justiça, na avenida Cândido de Abreu, no Centro Cívico. Oito pessoas foram presas e um policial militar ficou ferido, após manifestantes atirarem pedras. Segundo a PM, até às 23h desta segunda-feira, não havia relatos de feridos entre os manifestantes.

Convocado pelas redes sociais, o ato ‘Vidas Negras Importam’ reuniu, segundo a PM, 1,2 mil pessoas, que inicialmente eram 500, na Praça Santos Andrade, no Centro da Capital. Foram feitos discursos e manifestações artísticas. Mas também era possível ver cartazes e faixas com dizeres antifascistas.

Foto: Ághata Santos

O protesto seria apenas em frente ao prédio histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), mas ganhou outras proporções quando parte dos manifestantes optou por caminhar até a Assembleia Legislativa (ALEP).

Foto: Masimo Della Justina

Já no trajeto, uma agência bancária foi alvo da ação dos manifestantes, que quebraram as vidraças. Em seguida, as bandeiras do Brasil e do Estado do Paraná, que ficam hasteadas na Praça Nossa Senhora de Salete, foram arrancadas, rasgadas e queimadas.

Com os ânimos já exaltados, os manifestantes fizeram o caminho de volta, sentido Praça Santos Andrade; arrancaram placas, lixeiras e destruíram fachadas de diversos prédios do Centro Cívico – como o da Federação da Indústria (Fiep) e da Associação Comercial do Paraná (ACP) – além de lojas na Rua XV de Novembro.

Foto: Thayná Soares

A polícia militar interveio com bombas de efeito moral e tiros de bala de borracha na tentativa de dispersar os manifestantes. Oito pessoas foram levadas até à delegacia, acusadas de vandalismo.

“Acompanhamos a movimentação à distância e quando soubemos que iria ter deslocamento para o Palácio Iguaçu detectamos comportamentos com tendência à violência”, explica subcomandante-geral da PM, coronel Antônio Carlos de Morais, lembrando que as bandeiras do Palácio Iguaçu estavam a meio mastro, por luto decretado pela morte de três funcionários da Casa Civil, em acidente nos Campos Gerais. Elas foram retiradas e queimadas. “Tudo isso a PM acompanhou; apesar das provocações, toleramos. Mas diante das ações de vandalismo e violência, tivemos que agir com a firmeza necessária.”

Segundo o coronel, 200 policiais participaram da dispersão dos manifestantes. “Um grupo intitulado Antifas convocou o protesto com o pretexto dos eventos fora do país, alegando a violência policial dos EUA. Nosso serviço de inteligência já identificou os organizadores, temos imagens e os presos foram encaminhados para o Cope para serem responsabilizados. Um deles estava com parte da bandeira do Brasil queimada no ato.”

Vidas Negras Importam

Foto: Thayná Soares

O ato buscava chamar a atenção contra o genocídio da população negra. De acordo com o Atlas da Violência (2019), ela representa 75% das vítimas de homicídio no país. “Vidas negras importam. Quanto mais tempo passamos em casa, mais estamos sendo cúmplices de um estado genocida que tira a vida dos negros. A cada 23 minutos um negro é morto pela polícia. Se eu não estivesse aqui agora, estaria sendo conivente com tudo o que está acontecendo”, avalia a estudante Rubia Pedroso, de 32 anos.

A também estudante Amanda Costa Castilhano, 28 anos, afirma que estar no protesto é um ato de resistência. “Participo deste ato para dar voz às pessoas que não estão mais aqui, principalmente as que já faleceram ou que moram em periferias. Como mulher negra, e por ter passado por muitas situações na minha vida, acredito que este ato mostra para a população que, independente do que acontece, tem pessoas lutando pelos direitos, pela igualdade social, contra o racismo e contra o fascismo.”

“Queremos mostrar nossa indignação mesmo em meio à uma pandemia; sabemos que não é o ideal, mas é um ato tão emergencial que estourou não apenas no Brasil, como em outros países para mostrar que, literalmente, as vidas negras importam. Estamos sendo mortos dentro de casa”, ressalta a estudante negra Natasha de Miranda Gomes, em alusão ao caso do menino João Pedro, de 14 anos, morto em uma operação no Complexo do Salgueiro (RJ).

Até o fechamento desta reportagem, o Plural havia conseguido contato com os organizadores do evento.

Na manhã desta terça-feira (2), a redação recebeu a nota dos organizadores. Leia na íntegra.

A organização do ato CONTRA O RACISMO EM CURITIBA vem a público manifestar que, diferentemente do vinculado nas redes sociais e na imprensa, os manifestantes, além de utilizar proteção para evitar a propoagação da epidemia de COVID-19, comportaram-se de maneira ordeira, em defesa da democracia e contra o racismo!

O ato foi um sucesso. Reuniu muitas pessoas, teve uma atmosfera esperançosa por dias melhores.

Nossa luta é por igualdade, contra o racismo, a violência contra jovens negros nas periferias, a proliferação de grupos que propagam o ódio e o genocidio de brasileiros promovido pela falta de uma política clara de saúde durante esta pandemia.

Infelizmente, no final do ato, em uma dispersão de alguns poucos, houve vandalismo contra o patrimônio público. O que, ao nosso ver, é muito estranho e suspeito e representa a presença organizada de infiltrados que desejam a criminalização do movimento.

O uso de força excessiva por parte da polícia demonstra também a incapacidade de diálogo e a opção pela agressão.

Conclamamos a união de curitibanos de forma individual ou através dos movimentos sociais para a defesa da democracia contra o racismo.

Assinam esta nota:

Movimento Feminista de Mulheres Negras

Bando Cultural Favelados da Rocinha FAVELA

União da Comunidade dos Estudantes e Profissionais Haitianos ( UCEPH)

J23 – Juventude do Cidadania

Rede nenhuma Vida a Menos

Apoio do Grupo Dignidade e da Aliança Nacional LGBTI+

Coletivo Enedina da UTFPR”

Foto: Ághata Santos
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