14 ago 2021 - 9h37

Povos indígenas lutam pela permanência na Floresta Estadual Metropolitana, em Piraquara

Lideranças retomaram o território no Dia Internacional dos Povos Indígenas, em 9 de agosto

Desde a última segunda-feira (9), cinco famílias indígenas das etnias Kaingang, Guarani M’bya, Guarani Nhandewa e Tukano lutam para permanecer na Floresta Estadual Metropolitana, localizada em Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). O objetivo do grupo, além de reflorestar a região, é iniciar um projeto sobre a cultura dos povos indígenas brasileiros e a preservação da natureza com as escolas do estado e dos municípios.

O início da retomada aconteceu no Dia Internacional do Povos Indígenas, marcando a luta pela área que se estende há 12 anos. “Tanto Piraquara quanto Curitiba e RMC já foram um território totalmente indígena, até a chegada de Dom João VI, em 1808. Ele retirou todos os indígenas, decretou que matassem os Kaingang e escravizassem aqueles que fossem pegos. É um território ancestral de fundamental importância nossa”, diz Kretã Kaingang, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e uma das lideranças da retomada. 

Kretã Kaingang. Foto: Giorgia Prates/Plural

Kretã explica que os Kaingang reconhecem seu território por meio da araucária, árvore sagrada para o povo. “A araucária é um símbolo territorial porque, no Brasil, elas foram plantadas pelos nossos ancestrais Kaingang. Por isso, Curitiba e RMC são, para nós, territórios Kaingang, uma grande terra Kaingang.”

Por conta do descaso dos governos estaduais que se sucede desde 2009, Kretã e outras lideranças como Eloy Jacintho, indígena da etnia Guarani Nhandewa, decidiram retomar a terra com a intenção de começar um centro de formação sobre a cultura dos povos indígenas brasileiros que será desenvolvido com a rede pública de ensino. “A gente quer mostrar para as pessoas que não conhecem o que é a nossa cultura para elas poderem conhecer e começar a nos respeitar e apoiar. A ideia é abordar os cantos, danças, pinturas corporais e línguas indígenas”, conta Kretã, ressaltando que além de debater sobre a cultura, a ação visa conscientizar as pessoas sobre a preservação do meio ambiente.

Segundo a liderança Kaingang, o diálogo pela retomada da região acontece desde que Roberto Requião governava o Paraná, em 2009. No entanto, a conversa não obteve sucesso, nem com os governos seguintes. O grupo chegou a apresentar o projeto para o atual Governo do Estado por meio da Superintendência de Diálogo e Interação Social do Paraná (Sudis-PR), mas não houve resposta. 

Preservação 

Apesar de ser uma área protegida, a Floresta Estadual Metropolitana sofreu com queimadas e descarte de lixo durante anos, o que degradou a região. Além disso, de acordo com Kretã, 70% da floresta é composta por eucalipto, planta não nativa da área que impacta diretamente o sistema hídrico local pois necessita de muita água para sobreviver – o que resulta na seca das reservas subterrâneas de água.

Com o objetivo de reflorestar o local e demarcar a área do acampamento, neste sábado (14), a partir das 10 da manhã, as famílias irão plantar 200 mudas de araucária na floresta. “O que nós queremos é a preservação do local, porque a gente sabe que as futuras gerações vão precisar de água. Na verdade, já estão precisando. O que está acontecendo hoje em Curitiba é um reflexo desse manancial aqui coberto de eucalipto e abandonado”, afirma Kretã.

Por enquanto são cinco famílias no local, mas segundo Kretã, logo virão outras lideranças do Paraná para apoiar a ação. “A retomada já aconteceu. Agora é lutar pela nossa permanência.”

Nesta sexta-feira (13), integrantes da Fundação Vida para Todos (FVIDA), da Associação Brasileira de Amparo à Infância (ABAI), de Mandirituba, no Paraná, estiveram no acampamento para prestar apoio e levar doações. “Tivemos uma belíssima aula da história de pertença e passagem desses povos por aquele lugar. Estamos juntos na defesa da vida da terra e da água”, relata Ines Fátima Polidoro, coordenadora pedagógica da ABAI.

Como as instalações do acampamento ainda são precárias, o grupo está aceitando doações de alimentos não perecíveis, coberta, lona, colchão e itens de higiene.

O território

De acordo com o Instituto Água e Terra (IAT) – responsável pelas 70 unidades de conservação do Paraná -, a Floresta Estadual Metropolitana, parte da Bacia Hidrográfica Iguaçu, foi criada pelo Decreto Estadual 4.404, de 13 de dezembro de 1988, “como uma área de uso sustentável, para preservação da vegetação nativa local”. Não há nenhum estudo, segundo a instituição, dirigido à privatização do local. 

Em nota, o instituto afirmou que mantém constante diálogo com a prefeitura de Piraquara a fim de elaborar projetos de ocupação e uso dos 459 hectares que compõem o território. “O IAT está finalizando um trabalho de recategorização do local. Em todo o estado, foi criado um grupo de trabalho para reavaliar a recategorização de sete unidades.”

Atualmente, segundo o IAT, a área serve como ponto de apoio para a Brigada de Incêndios e é constantemente utilizada para treinamentos de combate e prevenção de queimadas na natureza.

Quanto à retomada dos povos Guarani e Kaingang, o IAT afirmou ter oficiado à Polícia Federal e à Fundação Nacional do Índio (Funai) com o objetivo de “encontrar a melhor forma de atender a tribo e continuar preservando a Unidade de Conservação do Paraná”.

Reportagem sob orientação de João Frey

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