Povos indígenas do PR lutam contra invisibilidade na pandemia | Plural
20 Maio 2020 - 22h30

Povos indígenas do PR lutam contra invisibilidade na pandemia

Sem vender artesanato, aldeias contam com doações para manter o isolamento

“O cenário indígena, hoje, no Paraná, é muito complexo e muito silenciado”, avaliam os integrantes do Projeto Origem, uma rede de apoio e fortalecimento aos povos indígenas do sul do Brasil.

A cacica Juliana Kerexu chama a atenção para a vulnerabilidade social à qual os povos indígenas estão sujeitos – e que tem sido ignorada pelo poder público durante a pandemia do coronavírus. “A gente está numa faixa que é invisibilizada. O indígena nem aparece na zona de risco da doença, embora esteja.”

“Os povos indígenas são historicamente mais vulneráveis a viroses e pandemias e assim também constituem um dos grupos de risco na covid-19. No passado, as viroses e doenças contribuíram para o genocídio e redução dos povos indígenas no Brasil”, acrescenta o grupo.

“O coronavírus representa uma ameaça aos povos indígenas e toda sua cultura e ancestralidade. Ele agrava velhas problemáticas sociais que já existiam nas aldeias com a falta de políticas públicas eficientes”, detalham os voluntários. Eles ressaltam que conflitos já existentes com empresas e fazendeiros tendem a se acirrar na quarentena, além de a manutenção das famílias e da questão alimentar ficarem comprometidas se não houver políticas públicas adequadas por parte do Estado e das instituições competentes.

No Paraná, segundo o último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, a população indígena é de 26.559 habitantes, sendo que, desse total, 11.934 estão em terras indígenas e 14.625 estão fora delas.

“Aqui na aldeia tem várias famílias que trabalham com artesanato. Isso é o que garante a nossa subsistência. Com a equarentena, não estamos indo aos lugares vender nossa arte”, relata a indígena Camila Kamē Kanhgág, moradora da Kakané Porã, que fica no bairro Campo do Santana, em Curitiba. Junto com ela, vivem 40 famílias – cerca de 150 pessoas.

“Cada aldeia teve que se articular com vaquinhas. Mas, acima de tudo, a nossa Saúde é o que importa. A aldeia estar de quarentena é zelar pela nossa existência”, defende Camila.

A aldeia Tekoá Takuaty, da Ilha da Cotinga, Litoral do Paraná, tem seis famílias – 27 moradores no total. Por lá, o quadro é similar. “A gente dependia totalmente das visitas na aldeia e da venda do artesanato. Agora estamos com muita dificuldade, cada um tem sua continha para pagar e é bem complicado”, diz a cacica Juliana Kerexu.

A comunidade está pedindo painéis solares à Copel há mais de um ano e ainda não obteve retorno. Agora, com a quarentena, as famílias não conseguem conservar os alimentos. Para piorar, o Porto de Paranaguá contamina as águas próximas à Ilha da Cotinga, tornando a pesca difícil na região. “A gente gasta mais gasolina para o barco ir mais longe buscar os peixes e neste momento isso não ajuda. Sem energia, precisamos consumi-los no mesmo dia”, ressalta a cacica.

Existem, ainda, casos como o da aldeia Guaviraty, localizada no balneário Shangri-lá, em Pontal do Paraná, que contam apenas com um reservatório de água.  “Com a crise hídrica no Paraná, o rio próximo à comunidade secou e a questão se agrava pelo fato de não terem a água encanada estabelecida”, lembra o grupo Origem.

Tendo esse panorama em vista, o trabalho de várias organizações voluntárias é de auxiliar, junto às instituições e aos povos indígenas, para que a pandemia não chegue nas aldeias do Paraná. Até o momento, o boletim epidemiológico da Sesai não menciona indígenas infectados ou sob suspeita de coronavírus no Estado.

“Se a doença chegar a uma aldeia, é muito fácil de contaminar todos os moradores, pelo modo de vida coletivo que eles têm. Também há a preocupação com os anciões, que detêm grande parte dos conhecimentos tradicionais e são ainda mais sensíveis à pandemia”, observam os profissionais.

Construção da aldeia Tekoá Takuaty. Foto: Projeto Origem

Ajuda da Funai chega com atraso

As aldeias do Paraná estão fechadas desde que a Portaria nº 419, de 17 de março de 2020, publicada pela Fundação do Índio (Funai), suspendeu autorizações de entrada em terras indígenas. Mas as cestas básicas adquiridas pelo órgão para manter as famílias no isolamento demoraram quase dois meses para chegar às aldeias ouvidas pela reportagem: Kakané Porã e Tekoá Takuaty.

“Percebemos que uma forma de auxiliar seria fazer a campanha Fica em Casa Parente nas mídias para arrecadar fundos, alimentos e itens de higiene. Até o momento, conseguimos, junto com apoiadores e outros coletivos, arrecadar mais de 453 kg para as aldeias de Curitiba, Região Metropolitana e Litoral. Estamos em contato com outras aldeias do interior, avaliando a nossa capacidade de atendê-las”, explicam os integrantes do Projeto Origem.

Campanha on-line para arrecadar doações. Foto: Reprodução Projeto Origem

As arrecadações foram organizadas com participação de vários coletivos, como o Mandato Ekoa, que atende às demandas da Kakané Porã; e os projetos 1 Milhão de 1 Real, que doou alimentos; e o Tudo Pela Vida, que doou máscaras e álcool. Para definir quais comunidades receberiam as doações, as lideranças indígenas foram consultadas e foi considerado o grau de vulnerabilidade de cada aldeia. O apoio logístico foi feito pela Funai.

A Funai, via assessoria de imprensa, afirma que entregou 2.855 cestas de alimentos para aldeias do Paraná. “Nove terras indígenas foram beneficiadas, entre elas, Rio d’Areia e Mangueirinha. A Fundação investiu R$ 176 mil na aquisição dos itens.”

O órgão acrescenta que aproximadamente 12,5 mil cestas de alimentos estão sendo adquiridas pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) para serem distribuídas nas próximas semanas no Estado. A logística ficará a cargo da Funai.

“Em todas as ações de prevenção, os servidores utilizam equipamentos de proteção individual (EPIs) como toucas, luvas e máscaras descartáveis, de modo a minimizar as possibilidades de contágio. As cestas passam também por um processo de higienização antes da distribuição”, esclarece a Fundação.

Camila Kamē Kanhgág questiona a entrega de materiais de prevenção. “Indígenas aqui da aldeia que trabalham fora não foram dispensados de seus empregos. No início, máscaras e álcool gel doados por meio do Projeto Origem foram distribuídos a essas pessoas que não tinham como evitar a saída. Mas nunca recebemos produtos de limpeza, higiene, álcool e nem máscaras da Funai ou da Saúde Indígena (Sesai)”, relata. “Apenas o pessoal da Unidade Básica de Saúde (UBS) esteve aqui em abril nos vacinando contra a gripe.”

A Tekoá Takuaty também não recebeu itens de prevenção dos órgãos públicos, mas a cacica conta que na terça-feira (19) quatro pessoas precisaram de atendimento médico e puderam contar com a Saúde Indígena. “Fomos ao Polo Base, em Paranaguá, porque por enquanto os profissionais de Saúde não estão entrando nas aldeias também. Sempre que possível, eles nos atendem por WhatsApp e providenciam remédios. Vamos para lá apenas quando é muito necessário.”

O Plural tentou contato com a Sesai, mas não obteve retorno.

Como ajudar

O Projeto Origem recebeu muitas doações no início da pandemia, mas agora o volume vem caindo, enquanto mais e mais aldeias pedem ajuda.

Para doar, basta acessar a vaquinha online da campanha Fica em Casa Parente, organizada pelo grupo. Para acompanhar a prestação de contas, siga o Projeto Origem no Instagram.

As doações para a Kakané Porã estão sendo feitas pela vaquinha do Mandato Ekoa.

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