Por dentro de uma rave em Curitiba: proibição por quê? | Plural
8 set 2019 - 19h51

Por dentro de uma rave em Curitiba: proibição por quê?

No imaginário popular, as raves são festas com alto consumo de drogas mas frequentadores dizem que eventos privilegiam diversão saudável e promoção da paz

Sutiã aberto, pés descalços e todos os bolsos checados minuciosamente pela equipe de segurança: essa foi a revista feita antes de entrar na festa rave “Arraiá Psycódelicos”, que ocorreu no dia 29 de junho, em Piraquara, Região Metropolitana de Curitiba.

A necessidade do olhar jornalístico sobre o evento aconteceu após a notícia da proibição de raves na capital, anunciada pelo delegado responsável pela Delegacia Móvel de Atendimento a Futebol e Eventos (Demafe), Clóvis Galvão.

Além de música eletrônica e público adulto, havia crianças brincando no gramado, apresentações de teatro de bonecos, pirofagia e dança. No bar estavam disponíveis gratuitamente água mineral, pinhão e pipoca e, no gramado, não havia sequer uma bituca de cigarro.

No imaginário popular, as raves são festas com alto consumo de drogas mas, segundo os frequentadores e artistas, os eventos eletrônicos oferecem uma variedade de possibilidades, incluindo reflexão sobre problemas sociais e respeito ao próximo. 

A estudante Jéssica Agner, de 28 anos, conta que as raves a ajudaram a mudar comportamentos. “Meu primeiro contato foi apenas por diversão, fui pra ver como era a festa. Gostei e não deixo de ir pelo que isso trouxe para a minha vida. Tive um despertar de consciência que me abriu os olhos para várias coisas, como o cuidado com a natureza: fui ver o quanto é importante a reciclagem dentro de uma festa”, conta. “Aprendi a importância de ajudar o próximo, ver as pessoas com outros olhos. E tem o som né? A música é maravilhosa.”

O artista Eduardo Sanches, que trabalha com pirofagia há doze anos, escolheu as raves para se apresentar. “Me identifiquei com o público das festas, que têm muita demonstração pública de arte. Hoje temos acesso às melhores festas no Psytrance, com conceito P.L.U.R (Peace, love, unity e respect [paz, amor, união e respeito]), que prega que apenas a partir destes sentimentos poderíamos atingir nossos objetivos como indivíduos. É através da união que conseguimos algo para a coletividade”, diz.

Dança, pirofagia e arte corporal: elementos do mundo das raves. Foto: Rodrigo Gomes.

Maria Caroline Borcate, de 20 anos, bailarina que apresenta o projeto de dança “Wakanda”, afirma ver, nas raves, um lugar um local livre para expressar sua arte. “Liberdade, amor e união e, quanto mais frequentamos, mais nos tornamos parecidos com ela. Os princípios de respeitar o próximo, o ambiente e nós mesmos se tornam parte de nós também. Quando danço na pista posso sentir a união que existe entre pessoas que nem mesmo se conhecem, mas não dispensam o uso das palavras: ‘obrigada’, ‘licença’, ‘desculpa’. Eu não sei outro lugar onde eu poderia expressar tão bem a minha arte”, conta.

Caroline explica que o principal objetivo do Wakanda [poder mágico interno] é fazer o público se questionar. “Sempre gostei de trabalhar deusas e seres místicos e senti que nesse espaço eu poderia trazer diferentes culturas e – muito além do entretenimento – a arte, informações e questionamentos para o público”.

O responsável pela Psycodélicos, Douglas Behrend, afirma que a festa mantém cuidados ambientais e que a entrada de crianças é permitida, porém criteriosa. “Procuramos reduzir o impacto ambiental ao máximo. Não fornecemos copos descartáveis e usamos material reciclado em nossas decorações”, afirma. “Liberamos a entrada de crianças nos eventos somente com autorização escrita e assinada pelos pais, e só permitimos crianças com os responsáveis legais (pai e mãe) salvo alguma exceção, que deve ter autorização registrada e reconhecida em cartório”.

Crianças em raves: em algum,as festas, presença é admitida. Foto: Rodrigo Gomes.

Jéssica foi questionada sobre possível abuso no consumo de drogas nas raves e disse: “Nem toda festa rave é igual. São festas e festas, núcleos e núcleos. Escolho ir em festas que têm o ambiente familiar, o cuidado com a natureza. Claro que têm festas que acabaram estragando a nossa cena: que é só som, bar e drogas. Mas nem todas são iguais. É muito errônea a ideia de que a galera vai para as festas para usar droga. A droga pode ser usada em qualquer lugar”, argumenta.

A organização afirma que o evento é realizado de acordo com a lei e oferece segurança ao público. “Nossas festas têm suporte médico, com ambulância e enfermeiros. Liberamos água grátis, temos espaço de redução de danos e tenda de cura com diversas terapias, também oferecemos alguns ‘mimos’ nos banheiros, como absorvente, cotonetes e curativos”, disse o organizador.

O evento visitado foi a sexta edição da festa PSYcodélicos e teve público de 500 pessoas. O evento com maior público, segundo a organização, foi a PSYcodélicos 3, com 750 participantes. 

Crianças na rave

A rave é um ambiente apropriado para os pequenos? Douglas explica que nem todas. “A entrada das crianças é permitida apenas em algumas raves, principalmente em festivais que têm lugar para camping e espaço próprio para crianças. Nossa festa, sempre investe em espaço para os pequenos, com diversas atividades como: teatro de bonecos, apresentação circense e outras atividades sempre monitoradas por um profissional contratado”, conta.

Proibição das raves

Em meados de julho o delegado da Demafe, Clóvis Galvão, afirmou que não assinaria mais alvarás para a realização de raves em Curitiba e Região Metropolitana.

O assunto foi divulgado na mídia local e anunciado após diversas reclamações de perturbação ao sossego e uma ocorrência de ônibus queimados em uma festa que ocorreu no Bioparque, na capital paranaense. 

Em entrevista recente, o delegado voltou atrás na decisão e afirmou que a Demafe atua apenas em Curitiba, sem interferência nas festas da RMC. “O que não queremos é perturbação ao sossego, não queremos ocorrências de grande vulto e o alto consumo de drogas. Não diria proibição total, mas maior rigor na fiscalização”, afirmou.

Segundo Galvão, as raves são estudadas pela segurança pública há dez anos.  “Foi constatado que a festa rave tem uma característica de uso de drogas – principalmente para jovens e adolescentes. Além de dar muito trabalho para a questão da segurança pública, existe esse problema da famosa ‘bala’, maconha, cocaína e esse tipo de coisa. Até mesmo a bebida alcoólica que os frequentadores usam exageradamente, dando um tipo de ocorrência hospitalar muito alto, tivemos inclusive casos de óbito nestas festas devido ao consumo de drogas”.

Reiki: ambiente para terapias no meio das festas. Foto: Rodrigo Gomes.

O alvará para todos os tipos de festa é liberado ou indeferido em reuniões da CAGE (Comissão Administrativa de Grandes Eventos), um órgão da prefeitura de Curitiba que envolve a PM, a Demafe, Secretaria de Urbanismo e Meio Ambiente, entre outros. “Existem certas festas nacionais como a Tribaltech e a Warung que ainda vai ser analisado a proibição ou não. O que vamos analisar daqui para frente é onde essas festas vão acontecer”, ressaltou o delegado.

As empresas que fazem as seguranças das festas precisam ter certificado da Polícia Federal. “Também precisam oferecer os nomes dos integrantes da equipe de segurança aqui para a Demafe, para verificar se eles não têm passagem. Nós liberamos aqueles que podem ou não trabalhar. Não é justo que aqueles com passagens criminais tire a vaga daquele que fez vigilante o curso, escola de polícia”, alegou Galvão.

A Secretaria de Segurança Pública do Paraná (SESP) informou que não existem dados sobre ocorrências em raves. Segundo o órgão, os boletins não são registrados com diferenciação de eventos e, por isso, é impossível filtrar o número de casos relacionados ao tipo de festa.

Durante a entrevista, Clóvis Galvão afirmou que levaria cerca de uma semana para levantar os dados, mas a assessoria de imprensa da Polícia Civil alegou que os dados seriam somente com a SESP. 

Proibição é inconstitucional

A advogada especialista em direito público Ana Maria Bender Fydryszewski, explica que mesmo com a questão da perturbação ao sossego a proibição das raves é inconstitucional. “Ao meu ver, nenhuma lei pode proibir a realização destes eventos, e se proibir, a lei será inconstitucional. Por qual motivo proibiriam uma festa rave, e não uma festa sertaneja? Não há explicação plausível para tanto, pois inviabilizar uma manifestação cultural em detrimento de tantas outras, caracteriza censura”, explicou.

Os eventos precisam estar com a documentação necessária em dia.

O advogado Jeferson Teixeira Trindade, concorda com a inconstitucionalidade da possível proibição e explica onde a questão esbarra na Constituição Federal (CF): 

“1. O princípio da igualdade (art. 5, caput da CF) exige tratamento igualitário a todos os gêneros musicais, impedindo a vedação imposta somente a este tipo de festa, em clara discriminação do gênero musical.

2. É livre a manifestação do pensamento, da expressão artística (art. 5, inc. IV da CF). 

3. Garantida a reunião de pessoas para fins culturais, de forma livre, pacífica e lícita (art. 5, inc. XVI da CF). 

4. Cabe ao Estado garantir, incentivar e promover a cultura (art. 215 da CF).” 

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