15 out 2021 - 11h22

Os professores ficam: Plural conta memórias dos leitores com seus mestres

Neste dia dos professores, o Plural conta histórias que mostram que os detratores da classe passarão, enquanto os mestres ficam

Boas lembranças devem ser compartilhadas. Neste 15 de outubro, o Plural publica boas histórias de nossos leitores com seus professores para mostrar que os detratores da classe passarão, os mestres, como mostram as memórias abaixo, ficarão, às vezes, pela vida toda. Feliz Dia dos Professores. 

Educar em tempos de distanciamento

Professora Jaqueline Budal na festa junina online da escola – Foto: Arquivo Pessoal

“Tenho um filho, Lucca, de cinco anos, que começou a estudar há quase três anos. O primeiro ano foi ok, aulas presenciais com nada de novo. No segundo ano veio a pandemia e as aulas passaram a ser remotas. Eu me desdobrava para fazer com que ele prestasse atenção nas aulas e, assim, levei o ano de 2020. Em 2021 fiquei desesperada, ele já estava cansado daquelas aulas remotas. Não que elas fossem ruins, os professores eram super esforçados para proporcionar a melhor experiência possível, mas não era a mesma coisa do ensino presencial.

Foi quando apareceu um anjo, a professora Jaque do CMEI Nice Braga, onde ele estuda. Ela não é só uma professora, ela me emociona com a sua dedicação como educadora que despertou – mesmo que do outro lado das telinhas – o interesse dos alunos. A Jaque se empenhava demais. Criava vídeos de histórias em seu apartamento, fazia lives com os alunos, se fantasiava, interagia todos os dias com a criançada e nunca deixava de responder os responsáveis nas conversas privadas. Eu fiquei impressionada com tamanha dedicação. Uma professora de escola pública se reinventando todos os dias para levar o melhor para nossos filhos.

Confesso que chorei no dia que vi o Portfólio do meu filho em PDF resumindo o primeiro semestre. Lá tinha os desenhos e rabiscos dele,  fotos, tudo com riqueza de detalhes. Me alegra saber que meu filho está com a melhor professora que já vi na vida. Minha mãe, uma professora aposentada, também se emocionou com a dedicação dizendo ‘É, minha filha, a prof Jaque nos remete que nem tudo está perdido, uma PROFESSORA com letras maiúsculas pela maestria que conduz o magistério’.

Num momento de tanto descaso com a educação, devo parabenizar a professora Jaqueline Budal, o verdadeiro símbolo de resistência, elevando o ensino público ao despertar o interesse pelo aprendizado das crianças desde pequeninas. Que o Brasil tenha mais ‘profs Jaques’!”

Depoimento por Lucilene Bandeira

Companheira em todas as horas

“Não sei contar sobre a minha infância sem a doce presença da professora Maria Cristina Vieira de Souza. Ela foi uma excelente professora e hoje se tornou minha amiga. Eu tinha apenas 10 anos quando meu pai faleceu. Ele estava em Irati e fomos para lá sem saber o que realmente tinha acontecido. Quando entendi o que tinha se passado, telefonei para a ‘tia Cristi’ pedindo que fosse até lá. Ela não hesitou e foi. Até hoje não tem como agradecer este ato, apenas reconhecer.

Uns dias depois, ela surgiu com um convite para eu desfilar para uma loja. Eu fui muitas vezes, como uma boa pisciana com ascendente em leão. Desses desfiles, o que mais me marcou foi um apresentado pelo Pedrinho, do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Vocês tem ideia do que isso significou? 

Obrigada, Plural! É tão lindo relembrar e contar como o exercício do magistério me marcou de forma tão positiva.”

Depoimento por Claudia Wasilewski

Uma nova forma de se enxergar

Wanda Santana e sua a professora em sala de aula – Foto: Arquivo Pessoal

“Estava na quarta série, a aula era no período matutino, turno ao qual passei a estudar para ficar perto da minha melhor amiga. Meus dias eram difíceis. Fazia dois anos que minha mãe havia falecido, e a professora Maricélia era a nova professora de Língua Portuguesa. Entre conjugação verbal, sujeitos, predicados, análises sintáticas, produção e interpretação de texto, fui sendo cativada por seu jeito de ensinar.

Não era imposição para crianças – estas como meras tábuas rasas no início dos anos 90 – era troca, partilha, prosa e poesia. Foi onde vi que eu, uma menina negra, no interior de Santa Catarina, órfã de pai e mãe, merecia ser amada e tinha valor. Ela me fez acreditar nisso.

Nas linhas de cadernos baratos, na ponta de restos de lápis de escrever, fiz meus primeiros escritos. Ela nos incentivava, com frequência, a adquirir o hábito da leitura. Destes processos, nasceu o meu amor antigo pela literatura. Biblioteca da escola, biblioteca pública, Farol do Saber, sebos, empréstimos, doações, compras. Minha biblioteca pessoal foi construída, ao longo de vinte anos, por este amor pela leitura, plantado lá no fim do antigo primário.

Os anos passaram e ela seguiu sendo minha professora até a sétima série. Vim para Curitiba, mas nunca esqueci do que me ensinou, nem de seus afagos em meus cabelos curtos e cacheados. O seu amor, empatia e gentileza comigo me salvaram de muitas maneiras.”

Depoimento por Wanda Karine da Silva Santana

Educadora, amiga… Isabel

Guilherme Oliveira e sua professora Isabel – Foto: Arquivo Pessoal

“Seria injusto resumir cinco anos de parceria em sala de aula a um breve texto. Antes de chegar ao oitavo ano, eu já ouvia falar muito bem daquela professora de história. “Isabel!”, gritei, abraçando-a em seguida, ao vê-la entrando na sala pela primeira vez, como quem quer fazer média logo no primeiro dia de aula.

Desde então, passamos por tudo o que tínhamos direito: feudos, guerras, revoluções e Ilhas das Flores. No caminho, provas intermináveis, que a faziam ficar esperando mesmo depois do último sinal. Por vezes, perdia a aula de outros professores só para não deixá-la sem a mais completa possível das respostas. Até levar o teste ao banheiro, para terminar lá, eu levei. “E se Lula for preso e Bolsonaro se eleger?”, conjecturei com ela em 2017, ao analisar um trabalho. E não é que deu ruim?

No ensino médio, Isabel passou a lecionar também sociologia. Pronto. A doutrinação estava completa. Marx para cá, Bordieu para lá, e minha conclusão era a de que as coisas não podiam ficar do jeito que estavam. Embora eu já não tivesse o mesmo pique pra dissertar tanto nos testes, o estrago estava feito. Dentre todos os conteúdos, o que ela me ensinou de mais importante foi que o mundo deve ser um lugar mais solidário e Plural.

Em Isabel ganhei uma amiga, uma confidente — a ponto de saber de todos os meus causos amorosos na escola — e, claro, uma mentora que me preparou para as lutas dessa vida. A ela, nada mais justo que um dia todinho em sua homenagem. Quisera eu que fossem todos do ano.”

Depoimento por Guilherme Oliveira

Presença transformadora

“Tantos professores, tantas coisas aconteceram e todas elas formaram um pouco do que sou hoje e um pouco do profissional que quero ser. Porém, dentre os muitos profissionais incríveis que cruzei, a que mais me marcou foi a professora Vera Lúcia Garcia Baena, supervisora do PIBID no biênio 2013-15. Costumo falar que encontrei em José Saramago metade da minha tese e em Umberto Eco a outra metade; mas, também vejo que há uma grande participação dela. 

Eu já estava no segundo projeto pibidiano, um pouco enfadado por ser veterano, mas animado o bastante para seguir porque, dessa vez, iria lidar com literatura. Eu era muito quieto na época e quando a Vera nos foi apresentada na qualidade de supervisora fiquei apreensivo. Mas não sabia que, por causa dela, descobriria que o tinha era uma “falsa solidão”. Vera me ensinou que era necessário que eu me abrisse, que eu acolhesse um mundo onde nunca me encaixei direito, para que pudesse ser acolhido e para que pudéssemos pensar juntos. 

Desde aquele alumbramento, eu fui só crescendo. Pensei por incontáveis vezes sobre minha práxis e pensei sobre meu objeto de estudo – interpretação literária e sala de aula. Muitas das minhas referências foram totalmente ressignificadas e transformadas em verdadeiras reverências por causa dela. Aliás, combina.”

Depoimento por Anderson Chcrobut

Matéria produzida por Jully Ana Mendes sob a orientação de João Frey 

Se puder, assine o Plural. Você pode escolher o valor que quer pagar. Isso faz muita diferença para nós: ser financiados por leitoras e leitores. As assinaturas nos mantêm funcionando com uma equipe que hoje tem oito pessoas e dezenas de colaboradores. Somos um jornal que cobre Curitiba em meio aos obstáculos da pandemia e fazemos isso com reportagens objetivas, textos de opinião e de cultura, charges e crônicas. Obrigado pela leitura.

Um comentário sobre “Os professores ficam: Plural conta memórias dos leitores com seus mestres

  1. O Plural segue arrebentando com aquilo de mais importante que há, e a Educação é uma dessas coisas maravilhosas. Homenagear nossos professores é buscar um país melhor para todos, com menos arrogância e truculência, onde a dignidade humana não sejam palavras vagas no texto constitucional. Parabéns.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias

Lições sobre a “cura da Covid-19”

Supondo que o “estudo” tivesse sido conduzido com rigor científico, e que os números apresentados, para cada um dos grupos, fossem o retrato de uma retidão metodológica, certamente não poderíamos atestar, nem de longe, que as condutas bioéticas foram seguidas

Marcelo M. S. Lima

Radiocaos Fosfórico

Neste episódio os textos e ideias combustíveis de Trin London, Merlin Luiz Odilon, Menotti Del Picchia, Alana Ritzmann, Otto Leopoldo Winck, Gabriel Schwartz, Cyro Ridal, Robson Jeffers, Guilherme Zarvos, Carlos Careqa, Clarice Lispector, Luciano Verdade, Giovana Madalosso, Charles Baudelaire, Arnando Machado, Edilson Del Grossi, Francisco Cardoso, Liliana Felipe, Valêncio Xavier, Carlos Vereza, Ícaro Basbaum, Mauricio Pereira, Mano Melo, Monica Prado Berger, Amarildo Anzolin, Antonio Thadeu Wojciechowski, Marcelo Christ Hubel, Cida Moreira, entre outros não menos carburantes.

Redação Plural.jor.br