21 abr 2022 - 16h00

“Os indígenas foram bem recebidos nas cidades só enquanto o Estado precisou deles”, diz antropólogo curitibano 

Pedro Fortes pesquisa sobre a relação dos povos originários com os centros urbanos a partir de uma perspectiva histórica

Os povos originários sempre transitaram por Curitiba. Durante o último século, no entanto, cada vez mais essa presença indígena vai sendo expulsa e indesejada, uma vez que o governo e a população não a vêem como relevante. É o que argumenta o historiador e antropólogo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) Pedro Fortes em sua tese de doutorado “Indígenas na cidade: uma análise histórica e etnográfica da presença Kaingang em Curitiba“. 

“Esse tema se tornou importante para grande parte da população apenas agora, quando na verdade ele é fundamental para a compreensão do Brasil”, destaca o pesquisador, que decidiu iniciar os estudos por que percebeu que havia um estranhamento por parte da sociedade quanto à circulação indígena nos centros urbanos.

Conforme o estudo, hoje, a presença das populações originárias nas cidades é um fenômeno global e em ascensão. Só em Curitiba, de acordo com o último censo demográfico do IBGE de 2010, 2.693 indígenas estavam na cidade.

“Existe bastante população indígena em várias situações diferentes nas cidades: na universidade, vendendo artesanato, buscando auxílio médico ou moradia mesmo”, explica Fortes.

Na capital paranaense, a maior parte da população indígena urbana é formada por Kaingangs e Guaranis. Esses povos, segundo o antropólogo, circulam tradicionalmente por todo o território que forma o Paraná. O problema, na visão de Fortes, é que as pessoas criaram e se conformaram com a ideia errônea de que os povos originários deveriam ficar apenas nas Terras Indígenas (TIs).

“É como se nós criássemos uma bolha para o indígena poder sobreviver e nós temos uma imensidão. Não é assim. A Terra Indígena não é um depósito, um acúmulo dos indígenas de onde eles não podem sair. Eles querem e podem se movimentar.”

Pedro Fortes, historiador e antropólogo pela Universidade Federal do Paraná.

Medidas e direitos

Segundo a pesquisa de Fortes, medidas de recepção e acolhimento aos povos indígenas existem em Curitiba pelo menos desde 1850. Essa receptividade sempre foi importante para a cidade porque, como afirma o antropólogo, os caciques foram, em grande parte, os responsáveis pela construção, manutenção e abertura de quase todas as estradas do Paraná. 

“Essas populações eram recebidas nas cidades com muito carinho e respeito no século XIX. Em algum ponto existia um diálogo entre os chefes indígenas e os governadores.”

Naquela época, existia uma política indigenista formal bem estruturada na capital, além de financiamento público preparado para receber os povos originários. “Hoje em dia o papel do índio na cidade foi desfragmentado. Agora é tudo meio remendado. Existe essa ideia do governo de que a partir do momento que deixarem de acolher os índios eles vão parar de vir, mas isso nunca vai acontecer porque os indígenas não vêm necessariamente por causa do acolhimento, mas sim porque a cidade sempre foi central nessa busca por liberdade e visibilidade desses povos”.

Na visão de Fortes, atualmente a presença indígena deixou de ser identificada como relevante porque os governos não enxergam utilidade nela. “Eles foram bem recebidos aqui só enquanto o Estado precisou deles para construir estradas e abrir as picadas nas florestas para as linhas telegráficas. Agora os indígenas têm o acesso à cidade negado.”

Fluxo

O número de indígenas que se deslocam para as cidades é sazonal, de acordo com Fortes. Historicamente sempre foram as mesmas datas que marcaram a maior presença dessas populações: Dia do Índio, em 19 de abril, o Natal e as férias escolares das crianças.

“Essa quantidade flutua, mas acredito que seja um número estável. Nesses períodos pré-festas, os indígenas normalmente tentam acumular recursos para ajudar a melhorar a renda doméstica ou para a realização de festividades.”

Entre dezembro de 2021 e janeiro de 2022, diversas famílias da etnia Kaingang vieram a Curitiba para vender artesanato, principal fonte de renda dessa população, mas precisaram dormir nas ruas da cidade porque não encontraram apoio em políticas e estruturas que deveriam ser disponibilizadas a elas.

“A colonização fez um caos na distribuição territorial dos indígenas, mas em momento algum eles abriram mão desse quinhão do planeta só porque a gente asfaltou uma rua. Eles ainda entendem essa terra e se sentem à vontade aqui e isso que é o mais importante: enquanto os indígenas se sentirem confortáveis aqui a gente vai lutar para garantir os direitos deles e para que os governos reconheçam a importância de se constituir uma política séria e muito bem dialogada com a população originária, a fim de que eles não passem por necessidades.”

Dados oficiais

De acordo com a Fundação de Ação Social (FAS), por conta da pandemia e das restrições para o isolamento social no início de 2020, “não há como precisar se houve evolução” no número de indígenas que vêm a Curitiba ao longo dos anos. Geralmente, eles costumam vir até a capital no Natal, período que coincide com as férias escolares.

A respeito das iniciativas institucionais empregadas pelo município para acolher os indígenas fora das aldeias, a FAS informou que segue normativas Federais e Estaduais que estabelecem programas, projetos, serviços e benefícios previstos na Política de Assistência Social, conforme Lei Orgânica de Assistência Social e Resoluções do Conselho Nacional de Assistência Social.

Procurada, a Fundação Nacional do Índio (Funai), não informou se existe um levantamento sobre quantidade de indígenas que vão até os centros urbanos ao longo dos anos. 

O órgão apenas disse que acompanha a situação dos indígenas que se deslocam às cidades do Paraná e Santa Catarina para a comercialização de artesanato por meio da Coordenação Regional de Guarapuava, responsável por coordenar e monitorar a implementação de ações de proteção e promoção dos direitos para os cerca de 26 mil indígenas que vivem nos dois estados.

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Um comentário sobre ““Os indígenas foram bem recebidos nas cidades só enquanto o Estado precisou deles”, diz antropólogo curitibano 

  1. Matéria muito interessante. Os estudos sobre as populações indígenas deveriam ser mais divulgadas para aumentar o conhecimento sobre estes povos e diminuir os preconceitos que muitas pessoas possuem sobre populações tradicionais. Parabéns ao antropólogo Pedro Fortes pelo belo trabalho

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