Os efeitos da Ayahuasca no corpo e na mente | Jornal Plural
20 jan 2021 - 9h02

Os efeitos da Ayahuasca no corpo e na mente

Estudos analisam os efeitos da bebida de cipó e folhas da Amazônia, usada em rituais espirituais e religiosos

Esta publicação faz parte do Festival de Jornalismo Literário, organizado em parceria pelo Plural e faculdades de jornalismo de Curitiba e Ponta Grossa

Bioquimicamente, a ayahuasca é classificada como um psicoativo alucinógeno ou até droga medicinal. O curioso é que, se  ingeridos separadamente, os dois compostos que formam a bebida surtem pouco ou nenhum efeito. A N,N-dimetiltriptamina  (DMT), que é o princípio alucinógeno encontrado nas folhas de  alguns arbustos do gênero Psychotria, e em várias outras plantas medicinais, não surte efeito perceptível em doses até aproximadamente 1000 mg se consumida por via oral — embora  isso aconteça de forma parenteral, como aplicação intravenosa. O bloqueio acontece porque o nosso corpo produz uma  enzima, a monoamina oxidase (MAO), que impede a DMT de  atingir o cérebro na forma ativa. 

É aqui que entra o cipó Banisteriopsis caapi, popularmente  conhecido como jagube ou mariri. Ele contém grandes quantidades de alcaloides beta-carbolínicos, como a harmalina e a  tetrahidroarmina, substâncias capazes de restringir drasticamente a ação da enzima. Literalmente, abrem o caminho para  que a DMT da Psychotria viridis, a rainha da floresta, produza  efeito mesmo por administração oral. Quando consumido por  meio do composto final da ayahuasca, o alucinógeno causa,  então, uma série de implicações físicas e psicológicas.

Entre as ações, está uma profunda transformação  do Sistema Nervoso Central (SNC), o que afeta a capacidade  individual de percepção da realidade. O elevado número de sinapses causa uma atividade cerebral muito mais acelerada e  expande a consciência. Por consequência, a DMT provoca mudanças no corpo todo. São diversos os efeitos colaterais possíveis, que afetam boa parte dos usuários: vômito, mal-estar,  diarreia e alterações emocionais significativas.  

Há ainda o estado contemplativo, de transe, que rendeu à  ayahuasca a classificação de enteógeno. “Entheos”, do grego,  significa “Deus dentro”. Caracteriza justamente a condição reflexiva pela qual passam os indivíduos que participam de rituais xamânicos ou espirituais dessa natureza. Como se estivessem reféns de um poder divino. 

“Aumentam os níveis de serotonina, dopamina, norepinefrina e epinefrina no cérebro”, esclarece o psiquiatra João  Luiz da Fonseca Martins, da Unidade Intermediária de Crise e  Apoio à Vida (UNIICA), de Curitiba. A serotonina, por exemplo, tem um papel importante no controle da temperatura corporal, no desejo  sexual e no equilíbrio das funções perceptivas e cognitivas. Ela  também influencia na atividade de neurotransmissores relacionados a sintomas de angústia, medo e ansiedade — como a  dopamina e a noradrenalina, fundamentais para o controle do  nosso humor. 

Aliás, a disfunção na atividade serotoninérgica é um problema comum em casos de depressão, e alguns estudos já foram feitos para analisar a capacidade da ayahuasca no tratamento deste tipo de doença. O psiquiatra Jaime Hallak, que é professor na Universidade de São Paulo (USP), já conduziu algumas investigações acerca da natureza terapêutica de certos  psicoativos, entre eles a DMT.  

Estudos

Em um dos trabalhos realizados pela equipe de Hallak,  com participação do neurocientista Dráulio Barros de Araújo,  da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), foram administradas doses de ayahuasca e de uma substância  sem ação farmacológica, um placebo, para 29 pessoas diagnosticadas com depressão. Quinze receberam o placebo e catorze  ficaram com uma dose de ayahuasca. A fim de fazer uma análise mais completa, os pesquisadores acompanharam todo o  processo imediato e também a semana seguinte à aplicação. 

O resultado foi animador: os dois grupos apresentaram  melhora nos sintomas depressivos; cerca de 60% dos que  tomaram ayahuasca diminuíram os sinais em mais de 50%,  contra 27% do grupo que recebeu o placebo. A função da DMT  foi revelada de forma mais precisa em outro experimento, de  2016, em que o grupo de Hallak pôde perceber um aumento da  atividade cerebral em três áreas responsáveis pelo controle do  humor e das emoções: núcleo accumbens, ínsula direita e área  subgenual esquerda. Foi registrada uma alteração para melhor  nos sintomas de 17 indivíduos depressivos pelo menos em até  21 dias após o consumo da bebida. Mas ainda é pouco. 

Os estudos que volta e meia aparecem na área ainda são inconclusivos em muitos aspectos. Não se pode determinar, por  exemplo, quais são os efeitos da ayahuasca a longo prazo. As  estatísticas que existem são de pura observação, como no caso  de pessoas que fazem a utilização ritual da bebida há anos. Podem parecer normais, mas não há prova científica de que nada  foi permanentemente alterado nos seus organismos. Também pelo acompanhamento de casos específicos, foi  possível perceber efeitos negativos em pacientes com problemas psicológicos pré-existentes, como esquizofrênicos e  bipolares. Dentro desses grupos, existem relatos de agravamento de sintomas psicóticos após a ingestão de ayahuasca.  Os motivos ainda não são muito claros, mas têm a ver com a  transformação do sistema nervoso. Pior para um esquizofrênico, que por natureza já tem dificuldades em distinguir a realidade da ilusão. 

O Dr. Martins, por exemplo, não indica ayahuasca para pacientes com problemas de drogadição justamente porque as  pesquisas são insuficientes. “São estudos de caso, ou seja, têm  um nível baixo de complexidade e fidelidade. E a gente tem, no  mercado, diversas opções terapêuticas seguras que deveriam  ser utilizadas em detrimento de uma fórmula experimental”,  afirma. Ele conta que alguns pacientes chegaram a procurar  a ayahuasca por conta própria, mas, na prática clínica, não dá  para notar benefícios superiores aos do tratamento tradicional. “Não existe uma superioridade no uso da ayahuasca para o  tratamento de uma dependência química.” 

O que a análise de casos deixa claro é a atividade subjetiva  da ayahuasca. Se ela atua de formas diferentes em indivíduos  diferentes, não fará o efeito desejado em qualquer pessoa que sequer saiba o que está fazendo ou o que está buscando. É preciso uma preparação acima de tudo psicológica. Se não houver essa compreensão, dificilmente pode-se tratar alguém em dependência química. Ayahuasca ajuda e pode definitivamente  transformar, mas não tem o poder de fazer milagres. Com certeza, os índices de melhora em casos assim seriam mais altos se o diálogo entre ciência e espiritualidade estivesse mais  aberto. Mas é difícil, entendo, colocar nas planilhas científicas  algo quase intraduzível. 

A luta da medicina atual é justamente para procurar alternativas que possam aumentar as probabilidades de recuperação dos pacientes. Nem todos alcançam a remissão total dos  sintomas por meio da ingestão de remédios e das internações.  O próprio Dr. Martins afirma que existem pacientes para as  diversas possibilidades de tratamento. O que falta é mais tempo para que a ayahuasca possa ser encarada como umas destas  possíveis opções inclusive dentro das clínicas de psicologia e  psiquiatria.  

E tempo é justamente o que não tivemos, especialmente no  Brasil. Aqui, a ayahuasca só foi regulamentada pelo Governo  Federal em 2010, e apenas para fins religiosos — sem contar  o atraso da sociedade toda por conta do tabu e do preconceito em relação às drogas alucinógenas. De qualquer forma, as  pesquisas estão saindo e trazem com elas ótimos resultados.  Caminhamos. Devagar, mas caminhamos. 

Miração

Outro aspecto fundamental pouco explorado é o papel das mirações, que são o verdadeiro tesouro da ayahuasca. São elas  que proporcionam os sentimentos transformadores, e só ao compreendê-las por inteiro é que podemos ter um parâmetro  do que a bebida realmente pode representar a nível comportamental.

A miração é um estado intenso de imaginação. Portanto,  não acontece no mundo físico. É neste outro plano (espiritual, talvez) que podemos significar, sob os estados alterados da consciência provocados pela DMT, as infinitas imagens que  surgem sem intervalo na nossa frente. Essas imagens podem  estar na nossa cabeça desde muito antes da experiência, mas é  ali, naquele momento, que temos a oportunidade de trabalhá-las com profundidade. 

“Costumo dizer que somos as imagens que carregamos.  Imagens de nós mesmos, imagens das nossas relações”, aponta  o antropólogo Marcelo Mercante, hoje aluno de pós-doutorado  na Universidade de São Paulo. Podemos entender as imagens  como conceitos e pensamentos que fazem, inclusive, parte das  áreas não conscientes da mente — que ganham peso e consistência justamente quando se transformam em ações concretas  no mundo material. São nossas ideias, em última instância,  que constroem as bases sólidas do planeta. A casa onde você  mora, a cadeira onde está sentado, as roupas que veste… Tudo,  absolutamente tudo que foi criado pelo ser humano esteve,  uma vez, na imaginação de alguém.  

Mercante acredita, então, que o processo de transformação interior acontece, sem dúvidas, na miração, um estado  superior de imaginação. “Ela envolve não só criar novas imagens, mas nos conscientiza das imagens velhas que carregamos e trabalha com elas.” Este é o poder incalculável não só da  ayahuasca, mas também de qualquer outra forma menos impactante de expansão da consciência — como a meditação.

É  um espaço voltado unicamente para a ressignificação de figuras e pensamentos que, mais tarde, deixam o plano das ideias  para agir aqui, na realidade tal qual a percebemos. Além disso, a miração abre possibilidades perspectivas  para o mundo exterior — como a imensidão de cores, formas,  sensações e estímulos. É como se o filtro da sobrevivência  (pautado pelo controle do espaço-tempo) deixasse de funcionar no cérebro e pudéssemos ver, ouvir e sentir coisas que aí  estão naturalmente, mas aos olhos sóbrios são invisíveis.

Toda  aquela quantidade de informação é intolerável para a condição  “normal” do ser humano. Jamais conseguiríamos sobreviver  o tempo todo na transcendência. Enfim, temos, infelizmente,  que nos preocupar com comida, sono, cansaço, correria.  Mas, se a miração ajuda a transformar conceitos e princípios enraizados no fundo da nossa cabeça, mudamos também  o nosso comportamento. É por isso que a ayahuasca funciona como um psicólogo individual, tanto para os indígenas da  Amazônia quanto para os hippies da contracultura. Uma voz  que parece exterior, mas que na verdade é o nosso âmago falando com nós mesmos e apontando, sem escrúpulos, os pontos que devemos repensar e reconstruir.

*Segundo capítulo do livro-reportagem ‘Os caminhos do cipó: perspectivas sobre o consumo contemporâneo de ayahuasca’. Acompanhe os próximos aqui no Plural.

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