O triste cenário do Curso de Medicina da Universidade Positivo | Jornal Plural
5 set 2020 - 16h36

O triste cenário do Curso de Medicina da Universidade Positivo

Ex-coordenadora conta por que pediu demissão após ser forçada a demitir 60 colegas

Ao pedir a minha demissão, juntei-me agora aos 60 colegas que demiti no dia 16 de julho em reunião do Zoom: “Você não pode mais trabalhar conosco devido aos resultados da empresa”. Impossível não fazer um paralelo com a situação atual do Brasil: logo iremos ouvir: “sinto muito, vocês não podem mais contar com o Estado Brasileiro devido aos resultados da empresa”; isto está sendo gritado a plenos pulmões há algum tempo, mas poucos conseguiram escutar.

Encerra-se um período de sonho, que começou aos meus 7 anos de idade, quando entrei na primeira série do colégio Positivo Júnior. Voltar ao grupo Positivo para trabalhar na Universidade como professora foi uma daquelas passagens significativas da vida onde sinapses cerebrais antigas são fortalecidas.

Há 13 anos, “vesti a camisa”, como ouvi de uma colega ao comunicar meu pedido de demissão. Encerrou-se o ciclo por eu não mais me encaixar nessa camisa: ela estava apertada.

O primeiro ciclo do meu período como professora da Universidade terminou com a saída de um querido coordenador. Na época, ficou claro para mim que sua saída foi por defesa teimosa e incondicional de seus valores: sempre protegeu professores, estudantes e o próprio curso de medicina, de sua maneira peculiar. Embora muitos não concordassem com sua postura ou com suas ideias, todos o admiravam. Naquela oportunidade tive pela primeira vez essa percepção de que fazia parte de uma empresa, não de uma escola.

A Universidade Positivo de hoje não é mais a de 2008, nem tem os mesmos valores da de 2017, início de meu período como parte da gestão do curso de Medicina. Em 2020, a empresa atrás da Universidade, nestes longos 6 meses de trabalho árduo de seus coordenadores e professores, sequer quis conhecer a história de cada um ou os projetos e ideias. Muito menos teve interesse em saber o perfil dos estudantes ou a dificuldade dos pais que vivenciavam, como eles, a crise causada pela pandemia. Naturalmente, nem cogitaram saber do propósito de cada estudante quando entrou na antiga instituição, com o sonho de ser médico.

Não existe certo ou errado, em meu modo de ver. Existem decisões, que podem ser acertadas ou erradas, e que tomamos de acordo com nossos valores humanos e éticos. É sempre mais difícil ir na direção contrária ao “fluxo”. Foi-me dito que a educação superior está mudando, que precisamos nos adaptar. Sim, tudo está mudando, a terra está se transformando mesmo com e apesar de nossa intervenção tão destruidora como seres humanos. Entretanto, sempre caberá a nós escolher o futuro, tal qual Vitor Frankl definiu: “tudo pode ser tirado de uma pessoa, exceto uma coisa: a liberdade de escolher sua atitude em qualquer circunstância da vida.”

Escolho e escolherei sempre fazer a minha parte, o melhor de mim, segundo os meus valores. Dediquei-me à educação médica com obstinação apesar de ter outra profissão, que considero tão bonita quando a de educar. Neste processo descobri que educar significa muito mais do que ensinar disciplinas ou até mesmo competências: instruímos para a vida, inclusive transmitindo valores e princípios, pois todo professor é um modelo para os alunos. Não podemos educar se não nos melhorarmos e nos atualizarmos a todo momento.  Observando áreas importantes que eram negligenciadas, construí uma disciplina optativa que falava sobre a ciência da felicidade e do bem-estar. A ideia era criar um processo pelo qual os estudantes ficassem familiarizados com ferramentas que lhes garantiriam resiliência durante os 6 anos tão difíceis da faculdade. Enfrentei preconceitos e quebrei paradigmas ao querer ensinar sobre gratidão, perdão, relacionamentos, meditação, yoga, respiração, sentimentos e valores, mesmo que sob a óptica da ciência, mostrando as evidências científicas do benefício de cada uma destas variáveis no bem-estar e na saúde mental de cada indivíduo e futuro médico. Cheguei a ouvir que era a disciplina onde os alunos iriam “abraçar árvores” (não chegamos a fazer isso, mas achei ótima a ideia). Enfim, sinto imensamente abandonar este projeto tão no princípio.

No dia 19 de março deste ano, coincidindo com o confinamento devido à pandemia da COVID-19, fui convidada a assumir a coordenação do curso de medicina. A alegria de poder decidir e colocar todos os meus ideais e sonhos em benefício dos alunos e professores foi imensa, porém ofuscada pela saída de colegas queridos que naquela época já estavam sendo desligados da instituição. Escolhi cumprir o meu dever. Sim, sei que foi uma escolha. Mantivemos um ensino de qualidade mesmo com distanciamento social. Por meio de muitas reuniões online com professores e estudantes transformamos e reconstruímos o curso com o que há de mais moderno na educação médica: a colaboração, a união e a inovação. Foram cinco meses de trabalho árduo, de cobranças e questionamentos de todos os lados, que a coordenação assumiu praticamente sozinha, por amor ao curso e por respeito aos estudantes e aos pais. Estávamos sozinhos, mas felizes por navegar o barco da nossa maneira. Porém, chegou o trágico dia 16 de julho de 2020.  Já havia recebido as famosas “Listas de Schindler”, tão bem ilustradas pela professora Fernanda Magalhães em artigo aqui do Plural. Trabalhamos detalhadamente com as listas tentando obter um resultado que nos permitisse reestruturar o curso com os cortes impostos. Não tivemos tempo, explicação ou qualquer justificativa para a imposição de entregar no dia 15 todos os nomes que sairiam no dia 16, nas conhecidas reuniões do Zoom. Salvamos os poucos que pudemos, obviamente dentro dos critérios permitidos. Sofri com cada colega e professor desligado. No meio de tudo isso recebi mensagem de muitos estudantes e pais apavorados questionando sobre o futuro do curso, e não quis deixá-los desamparados naquele momento tão difícil. Enfrentei uma reunião com os quase 1.000 alunos, falando que deveríamos ter empatia com os “novos donos”, pois realmente não sabíamos sobre a filosofia ou missão do novo grupo, talvez não fosse tão ruim… e assumi o compromisso de ficar enquanto acreditasse que poderia manter o curso com qualidade. Neste contexto terminamos o projeto de uma nova matriz curricular centrada no aluno e integrada, com ênfase no desenvolvimento do estudante como pessoa e como profissional; além disso, foram organizados e planejados o retorno das aulas práticas e a reposição das aulas não ministradas, para que este ano não fosse comprometido, logicamente com observância das leis, normativas e protocolos governamentais.

A gota d’agua?

Planejar o retorno, a reposição das práticas, mantendo a qualidade do processo pedagógico, mesmo com a demissão de tantos professores, foi uma tarefa que exigiu muito cuidado, estudo e trabalho. Apesar disso, no fim de agosto, tivemos uma nova comunicação de suspensão da jornada de trabalho de preceptores (supervisores das atividades práticas) a partir de setembro, justamente quando retornaríamos as aulas práticas. Nada faz muito sentido, quando quem dirige não quer compreender o contexto. Claro que para tudo pode ser dado um “jeito”, mas isso, no meu entender, não combinava mais com educação, com qualidade, e com respeito.

Lembrei de Hannah Arendt quando retratou a personalidade de Adolf Eichmann, julgado em Jerusalém em 1961 por crimes contra os judeus. Segundo a autora ele agiu de acordo com o que acreditava ser seu dever, cumprindo ordens superiores e movido pelo desejo de ascender em sua carreira profissional. A vulgarização da violência corresponde, para Arendt, ao vazio do pensamento, onde a “banalidade do mal” se instala. É incrível como a violência se impregnou em todos os contextos de nossas vidas, até mesmo na educação. Infelizmente, guardadas as devidas proporções, vivemos numa sociedade onde predomina o vazio do pensamento e o mal pode ser produzido por pessoas normais, homens e mulheres que esqueceram de se questionar. Olhando para trás naquela demissão dos 277 professores da Universidade Positivo, o vazio aparece: eu vivenciei a banalidade do mal.

Não podemos deixar o vazio do pensamento nos fazer agir sem pensar, ou fazer o que é conveniente. Diante do momento político e econômico que vivemos no Brasil e no mundo, é preciso que todos tenham seus pensamentos, suas ações, seus posts, seus comentários, completamente atrelados aos seus valores e aos princípios em que acreditam. Nossos valores estão em nossa consciência, e para quem ainda não foi apresentado a eles, está mais do que na hora de encontrá-los: é só olhar para dentro, com muita atenção.

Aos meus colegas que ficaram por amor à profissão e aos estudantes, peço desculpas por deixá-los, mas percebi que eu estava só formalmente na posição de gestão e liderança de todo curso de medicina da Universidade Positivo, mas desprovida dos instrumentos que me permitissem influenciar os rumos que o curso tomaria, e me senti obrigada a dar um grito de alerta. Professores e estudantes de instituições públicas e privadas precisam ser respeitados. O amor e o profissionalismo que depositam na Universidade devem ser valorizados.

Quanto a mim, estou em busca de um novo projeto onde eu consiga vivenciar a “trivialidade do bem”.

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3 comentários sobre “O triste cenário do Curso de Medicina da Universidade Positivo

  1. Nossa Prof, que exemplo!!! Aprendi muito com você nessa matéria e agradeço por isso.
    Sou aluna da UP no curso de Enfermagem. Aos 43 anos resolvi correr atrás do meu sonho, mas estou bem decepcionada com a metodologia, com a instituição e sinto-me refém, tendo que aceitar tudo o que também está sendo imposto a nós, alunos, desde que o novo grupo assumiu…
    Deus está com você e não a desamparará diante de sua atitude tão louvável!
    Um grande abraço

  2. Fui aluna da positivo….o que me encantava era o respeito,compromisso recíproco
    aluno =professor…..realmente uma escola….agora se realmente perderam a alma da instituição consequentemente perdeu -se o brilho e a essência de formar profissionais humanos e competentes diante de tanto desligamentos

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