Muito além da lição de casa | Jornal Plural
17 jun 2020 - 11h10

Muito além da lição de casa

Núcleos, escolas e alunos se unem para garantir o acesso de todos os estudantes ao Ensino à Distância

A ausência de meios para assistir às aulas e a distância do professor dificultam, desde o início da pandemia, a continuidade dos estudos na Rede Estadual de Ensino do Paraná (EaD). Para tentar garantir a todos os estudantes o acesso ao Ensino à Distância, alunos, professores e Núcleos de Educação (NRE) uniram-se em ações inspiradoras.

A equipe do Colégio Estadual Paulo Freire, de Marechal Cândido Rondon, começou com um levantamento para descobrir quantos estudantes não tinham os equipamentos necessários para acessar o programa Aula Paraná. “A gente percebeu que não era um número tão grande. A maioria tem, mas ainda existia um número que precisava ser atendido, alunos que não tinham celular, computador, nenhum tipo de equipamento digital”, conta Ana Regina Schueigerti, diretora do colégio.

A escola iniciou, então, uma campanha de arrecadação destes equipamentos e distribuiu oito computadores de mesa, dois notebooks, um netbook e cinco celulares. Duas empresas locais ajudaram com o conserto e a formatação dos aparelhos. 

Mas ter o equipamento, somente, não resolvia o problema dos estudantes. Era preciso acesso à internet. A escola iniciou, então, uma segunda campanha. Dessa vez, a equipe foi à rádio pedir que vizinhos compartilhassem a internet com quem não tinha conexão em casa. E deu certo.

Hoje, 100% dos alunos da escola têm acesso ao EaD. Dos 177 estudantes do ensino regular, apenas dois fazem uso das atividades impressas. “São alunos de sala de recurso, que não conseguem acompanhar direito, precisam de algo mais concreto. O restante, nós conseguimos atender com o EaD”, explica a diretora.

EJA

Como a escola tem muitos alunos na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA), também foi preciso desenvolver ações para orientar o público com necessidades específicas e menos afinidade à tecnologia. Alguns alunos mais velhos, como Maria do Socorro Garai, não conseguiam enxergar as aulas nas pequenas telas dos celulares e receberam notebooks ou computadores. Aos 75 anos, Maria do Socorro aprendeu a mexer no celular e, depois, no notebook, a fim de dar continuidade aos estudos.

No início da paralisação das aulas, a equipe convocou os professores da EJA a conhecerem os recursos on-line e a orientarem os alunos. “Como o que vem é pensado para o regular e a EJA sempre entra depois, a gente já foi preparando os professores. Logo na primeira semana de abril, já estavam fazendo interação via whatsapp e vídeos com os alunos”, orgulha-se Ana, que vê como positiva a inserção da tecnologia no dia a dia dos alunos.

“Eu vejo que veio para auxiliar bastante e que vai ficar. Isso aproxima os estudantes do uso da tecnologia produtiva. Nossos alunos não tinham nada de tecnológico. Foi difícil no começo, mas agora está andando. Fizemos uma campanha com várias linhas de frente e conseguimos atender os alunos”, pondera a diretora.

Aos 75 anos, Maria do Socorro aprende pelo notebook doado. Foto: Seed

A primeira TV

O NRE de Irati também vem fazendo um trabalho de acompanhamento das presenças e investigação dos motivos pelos quais os estudantes não acessam as aulas. Sem TV ou acesso à internet, os jovens do 7º e 9º ano do Colégio Maria Ignácia, no município de Rebouças, não conseguiam participar das aulas. Quando a equipe percebeu as ausências dos dois filhos de dona Rosimeri, organizou-se para solucionar o problema.

Marcelo Komar, chefe do núcleo, lembrou de um aparelho de televisão ocioso e em bom estado, que já havia sido baixado do sistema da instituição, e o levou à casa da família. Ao chegar lá, a equipe descobriu que esta seria a primeira televisão da vida de Rosimeri que, além de tudo, lida com as sequelas de um AVC.

“Ficamos sabendo da situação social dela, de bastante dificuldade financeira e questões de saúde, pelo diretor da escola, o Ildefonso. Lembramos dessa TV do Núcleo e fizemos a doação para que os filhos possam estudar e ter seu direito garantido”, relata Marcelo. O processo de instalação da antena ficou por conta dos vizinhos de Rosimeri, que também se dispuseram a ajudar.

Rosimeri e as duas filhas com a primeira televisão da vida. Foto: NRE Irati

Segundo o chefe do NRE, atualmente 50% dos alunos do Ensino Público da regional de Irati assistem às aulas por meio de equipamentos tecnológicos. Com as atividades impressas, levadas pelos diretores às residências dos alunos, o número chega a 95%.

“Esta é a nossa luta quanto à Educação. Saímos da nossa área de trabalho e vamos até as residências. Buscamos, levamos, ajudamos, porque esse é o envolvimento de todos nós, da equipe do Núcleo, dos professores, dos funcionários e das direções das escolas”, enfatiza Marcelo. 

No campo

Já no Colégio Estadual do Campo, de São João do Pinhal, as dificuldades de acesso à educação têm sido resolvidas com a ajuda dos próprios alunos. A presidente do Grêmio Estudantil, Letícia Bruno, e a equipe pedagógica determinaram a criação do programa Aluno-Monitor e a abertura da escola para atendimento dos estudantes com dificuldade de participar do EaD, ou com dúvidas sobre os conteúdos.

Letícia e outros dois alunos tornaram-se monitores e ajudam quem não tem acesso nem prática com aplicativo, celular ou computador. A monitoria geralmente é feita on-line, mas nos dias em que a demanda presencial é grande, Letícia auxilia os professores e coordenadores, que se revezam no atendimento dos alunos no espaço da escola.

Estudante ajuda amigo a entender o processo. Foto: Colégio Estadual do Campo

“Teve um dia que foi de fazer fila, fiquei o dia inteiro lá. Atendi um ou dois de cada vez. A gente tem que estar dentro das regras [de isolamento social]”, diz a aluna, que está gostando da experiência e já vê bons resultados. “Deu diferença, ajudou muito os alunos. Está sendo uma experiência ótima. Estamos motivando os outros estudantes, eles estão se interessando mais, porque agora têm como procurar ajuda. Estão assistindo mais às aulas, estão correndo atrás”, comemora Letícia.

A escola fica aberta de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e os computadores ficam disponíveis para os alunos acessarem o Aula Paraná. Quem não consegue ir até a escola para usar os aparelhos, nem tem acesso às aulas em casa, recebe os trabalhos impressos, levados pela diretora Eliane Gobo, carinhosamente chamada de “Patinha” pelos alunos.

“É uma escola de campo, fácil não é, mas a gente está dando conta. Estamos nos organizando, nossos professores, os pedagogos e a diretora estão ajudando, para fazer o possível para melhorar a Educação. Esse é o nosso projeto”, conclui a presidente do Grêmio Estudantil.

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