Motoristas de aplicativo são agredidas no Aeroporto Afonso Pena | Jornal Plural
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20 abr 2020 - 12h17

Motoristas de aplicativo são agredidas no Aeroporto Afonso Pena

Elas acusam taxistas de intimidação e ameaça. Motivo seria disputa por passageiros que desembarcam no saguão, um problema recorrente na Delegacia de São José dos Pinhais

A briga pelo transporte de passageiros do Aeroporto Internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, acontece desde que os taxistas começaram a enfrentar a concorrência dos motoristas de aplicativo. Além de discussões, foram várias as situações em que a polícia precisou intervir. Agora, as agressões começam a envolver também mulheres.

Uma motorista de aplicativo, que prefere não ter o nome divulgado, acusa duas taxistas de a terem espancado no banheiro do aeroporto. Segundo ela, outros taxistas homens também participaram da agressão, segurando-a para que as mulheres continuassem a sessão de espancamento. A confusão aconteceu no dia 13 de abril, por volta das 21h, e foi presenciada por testemunhas. Uma delas, mesmo com medo de ser exposta publicamente, confirmou a agressão ao Plural.

“Ouvi uma mulher gritando por socorro no banheiro e abri a porta; foi quando vi uma moça caída e outras duas agredindo ela, que ao tentar se levantar levou outros tapas muito fortes no rosto. Além delas, tinha outros cinco homens lá dentro, de calça preta e blusa branca. Achei até que era uma briga de família”, recorda a testemunha.  

A motorista de aplicativo de Curitiba diz que foi levar um passageiro até o aeroporto e entrou no saguão para tomar água e ir ao banheiro. “Logo que entrei no banheiro, as duas foram atrás e já começaram a me dar chutes e socos. Eu não entendi nada e comecei a gritar perguntando quem eram elas e porque estavam fazendo aquilo”, lembra.

“Só diziam que eram taxistas e que podiam me bater pois estavam respaldadas pela polícia e tinham amigo vereador, além de advogado pelo sindicato. Diziam que eu não tinha direito de ficar ali pois não pagava. Mas eu não sou proibida de usar o banheiro. E nada justifica a agressão”, acrescenta.

Lesões são visíveis no rosto, olhos, costelas e pernas. Foto: Arquivo Pessoal

Segundo a mulher, outros taxistas homens chegaram logo depois e a seguraram para que as agressões continuassem. Foi quando motoristas de aplicativo vieram para o socorro. “Eu consegui sair dali e pedi ajuda aos seguranças, mas ninguém fez nada. Eles disseram que eu mesma tinha que chamar o Samu. Tentei pedir ajuda para a polícia do aeroporto mas os dois locais (PC e PM) estavam fechados. Fiquei totalmente desnorteada, até alguém me levar para a UPA”, conta.

Ela está com vários hematomas pelo corpo e rosto. “Eu tô toda inchada, mal consigo andar. Mas eu não sou bandida; trabalho honestamente. O que fizeram comigo foi absurdo e injusto.”

Hematomas estão pelo corpo todo. Foto: Arquivo Pessoal

De acordo com ela, as ameaças continuam. “Eles pegaram minha placa, estão me perseguindo, rondando minha casa. Dizendo que eu sou a culpada e que eu agredi eles, mas como, se eu estava sozinha? Tenho medo do que pode acontecer”, relata a motorista, que fez um boletim de ocorrência na Polícia Civil. A delegacia de SJP investiga o caso.

“É uma briga, como em todo lugar, entre taxista e uber. Briga por cliente, que às vezes fica violenta”, avalia o delegado da cidade, Fábio Machado. Ele destaca que o acesso à plataforma do aeroporto pode ser feito por taxistas, empresas de transporte legalizadas e motoristas de aplicativos cadastrados e regularizados. “Mas alguns não cadastrados e irregulares para aqueles pontos tentam pegar passageiros lá, o que gera um confronto com os outros profissionais.”

“Vai ter morte ali dentro”

Uma das taxistas apontadas como agressora rebate as acusações e diz que ela e a amiga é que foram agredidas. “Quando entramos no banheiro, um rapaz entrou em seguida e nos agrediu lá dentro, nisso entrou meu marido pra me socorrer e encheu o banheiro de homens do aplicativo. Eu nem vi essa mulher lá dentro. Quando entrei não vi ninguém. Esse homem nos agrediu, daí nós já se pegamos todos (sic)”, afirma Fernanda Silva.

Ela assegura que a motorista de aplicativo está sempre no aeroporto e provoca os taxistas no momento da “angariação” de passageiros no saguão. “Ela xinga, encara, cospe no chão. Achamos que isso foi uma armação. Entrar no banheiro do nada, já invadindo, foi estranho.”

Na versão de Fernanda, o primeiro a entrar foi o marido da motorista, que teria começado as agressões e motivado a “bola de neve” que resultou em briga coletiva. “Mas nós não encostamos a mão nela. Se tá machucada é porque deve ter levado soco no meio da pancadaria, porque eu também estou toda machucada.”

De acordo com a taxista, um exame feito em uma clínica particular prova que ela está com uma costela quebrada e hematomas pelo corpo e cabeça. A amiga teria fraturado a coluna e machucado o pé. Porém, os exames ou fotos dos hematomas não foram disponibilizados para a reportagem.

O motivo da rivalidade, confirma Fernanda, é a disputa por passageiros. “Eles são todos piratas, clandestinos, sem regularização, que ficam angariando os passageiros no desembarque. Ficam provocando os taxistas. (…) Se ninguém tomar atitude vai ter morte ali dentro. Alguém tem que tomar providência pois a coisa tá ficando incontrolável já. Tá todo mundo virando bandido, ninguém está conseguindo controlar as coisas ali. Isso que é nosso local de trabalho. Eles (motoristas de aplicativo) que estão nos coagindo”, ressalta Fernanda.

“Levei um soco no rosto”

Outra motorista de aplicativo, que igualmente prefere não se identificar, por medo, denuncia que também sofreu agressão física por taxistas dentro do Aeroporto Afonso Pena. Na primeira vez, diz ela, foi uma tentativa; já na segunda, no dia 13 de março, houve um soco no rosto.

“Um mês antes, outro taxista tentou me agredir mas eu consegui me esquivar. Registrei um boletim na polícia mas ninguém fez nada. Desta vez, levei um soco no rosto e fui conduzida pra delegacia junto com o meu agressor, na mesma viatura. Lá ele foi ouvido primeiro. Quando chegou a minha vez, já me colocaram como agressora, dizendo que eu tinha agredido um idoso, que foi quem me deu o soco. O advogado do sindicato (dos taxistas) já estava lá. Há muita influência política nessa história.”

A motorista se solidariza com a companheira de aplicativo. “Ela tá deformada. As taxistas massacraram ela”, garante.  

Segurança

A Infraero informou ao Plural que a Polícia Militar e a Guarda Municipal, responsáveis pela segurança das áreas públicas do aeroporto, foram acionadas imediatamente pela segurança operacional e patrimonial. As partes envolvidas foram ouvidas pela PM e foi realizado o registro da ocorrência.

“É importante destacar que a Infraero mantém diálogo constante com esses órgãos no sentido de garantir a segurança das instalações do aeroporto. Cabe destacar ainda que o Afonso Pena conta com unidades das polícias Civil, Militar e Federal”, esta responsável pelas áreas restritas do aeroporto.

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