Maria Gadu fala sobre violência policial em Curitiba | Jornal Plural
24 set 2019 - 0h06

Maria Gadu fala sobre violência policial em Curitiba

Cantora presenciou agressão no Largo da Ordem e diz que sentiu medo e injustiça

Em passagem por Curitiba, para um show no Teatro Guaíra, a cantora Maria Gadu presenciou uma situação de truculência policial no Largo da Ordem, onde amigos seus foram agredidos e quase presos. A ação da PM, na última sexta-feira (20), motivou crítica de um fã durante apresentação musical da cantora, que acabou por se posicionar politicamente durante seu show. Com exclusividade, Maria Gadu fala ao Plural sobre o que viveu por aqui.

“Fomos pegos de surpresa. Estávamos assistindo uma apresentação artística, no encerramento do ato pela Greve Mundial pelo Clima, quando alguns colegas viram os policiais batendo em uma moradora de rua. Um dos nossos amigos foi perguntar o porquê da violência, e foram super truculentos com esse amigo que estava com uma câmera no pescoço. Bateram nele e ele caiu”, relembra a cantora.

Foi quando, conta ela, o grupo (de 15 pessoas) se aproximou para contestar a violência contra a moradora de rua (que segundo os policiais estaria usando crack na região) e também contra o fotógrafo agredido. Neste momento, registrado em vídeos, os policiais empurram algumas pessoas e tentam levar um dos rapazes presos, por estar filmando a ação. “Inclusive mulheres foram agredidas pelos policiais”, afirma Gadu.

Uma das vozes mais populares da MPB, indicada duas vezes ao Grammy Latino, paulistana e moradora do Rio de Janeiro, ela diz já ter presenciado algumas atuações truculentas da polícia carioca, porém, em situações de manifestações maiores. “Mas dessa forma, íntima e gratuita, com tanta violência, não.”

Ela revela que a sensação foi de impotência, injustiça e medo. “Uma tristeza também…por essa falta de diálogo e compaixão.”

Sobre o posicionamento do fã, durante o show no Teatro Guaíra, Gadu revela que já houve situações semelhantes em suas redes sociais, mas em show nunca. “As pessoas podem se manifestar como querem, mas sabendo do meu posicionamento político, existencial, ele ter ido e ter se incomodado com esse fato violento, e ter retrucado dessa forma, foi uma dicotomia infeliz”, avalia.

Agredidos

Dois dos agredidos durante a ação policial também se manifestaram ao Plural. Um deles, assessor do deputado estadual Goura (PDT), chegou a registrar um boletim de ocorrência. “Eles agrediram a usuária de drogas com um chute e o fotografo registrou. Saíram e voltaram para abordar novamente a mulher, que continuava ali. Nisso, voltamos a registrar as imagens e um dos policiais o agrediu com um soco, que o fez cair. Perceberam que foram registrados e se sentiram ameaçados”, conta ele, que prefere não se identificar.

“Ele me dá voz de prisão por eu simplesmente estar filmando. Recebi uma chave de braço. Começou a confusão e eles desistiram de me levar, mas nesse momento acabaram agredindo também uma garota, que foi ao chão.”

A garota em questão, que também preferiu não se identificar, reforça que tudo aconteceu ao final de uma apresentação artística, ligada ao ato da Greve Geral pelo Clima. No momento em que os policiais tentaram levar o rapaz, houve reação por parte do grupo, composto por 10 mulheres.  “Eu disse para não levarem ele, pois não tinha razão para prendê-lo. Nesse momento, um dos policiais me pegou pelas costas e me jogou no chão. Eles chegaram a pegar a arma. Foi assustador; surreal”, afirma.

“Foi um grande abuso de autoridade, falta de diálogo. Os policiais estavam muito alterados, parecia que tinha tomado algo. Estavam muito mau preparados, primeiro por chegar batendo em uma moradora de rua, usuária de drogas. Você pensa que a polícia vai te proteger mas ela te dá medo”, confessa.

“Esse foi um caso que aconteceu no Centro de Curitiba, envolvendo pessoas públicas e conhecidas, mas essa abordagem truculenta se dá diariamente, especialmente nas periferias, e ninguém fica sabendo”, destaca o assessor.

Má interpretação

Na visão do advogado criminalista e professor de Direito Penal na PUCPR, Eduardo Miléo, especialista em Direito Penal Militar, há uma falta de diálogo e má interpretação de ambos os lados. “A tomada de decisão policial acaba sendo ofensiva à população, que pouco conhece da atividade policial. A técnica militar diz que quanto mais o policial demonstra a força, menos força ele precisa utilizar. E isso nem sempre é bem interpretado. Mas há uma apuração interna muito rígida para toda atuação policial e com certeza isso será investigado”, analisa Miléo.  

“As técnicas policiais às vezes ofendem, mas são técnicas-padrão repassadas. As pessoas reclamam do policial mostrar a arma, mas ele é orientado assim. Quando uma pessoa se aproxima muito de um policial, ela será repelida e isso é necessário para a própria segurança, para que a arma não seja retirada e usada contra ele mesmo ou contra a população.”

O advogado lembra ainda que a polícia trabalha sob pressão.  “Eles trabalham à exaustão, com equipamentos vencidos, com armas que falham, falha de comunicação. Qual a possibilidade de um homem que combate o crime com todos estes problemas”, questiona.  “O estresse os acompanha e vemos muitas baixas por estes problemas. Um serviço naturalmente estressante e com todas estas mazelas, além dos salários baixos, é um alerta.”

Segurança emite nota

Procuradas pela reportagem, Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp/PR) e Polícia Militar do Paraná (PM/PR) emitiram nota a respeito.

O 12° Batalhão da PM sustenta que abrirá um procedimento para apurar o ocorrido. “A unidade se reserva a não detalhar informações da situação sem a completa apuração dos fatos e sem ouvir os policiais militares. A Polícia Militar preza pelo bom atendimento à população, amparada na legalidade e no respeito aos direitos humanos. A PM lembra que a abordagem, que pode ser feita a qualquer cidadão, é uma forma de evitar crimes e identificar criminosos.”

Já a Sesp assegura que o assunto envolvendo pessoas em situação de rua é recorrente e que o tema foi tratado em reunião ontem (23), na qual participaram a PM e a Fundação de Ação Social (FAS). “No encontro, foi tratado sobre formas de atendimento a este público e sobre a necessidade do desenvolvimento de mais políticas públicas voltadas a ele.”

A denúncia de agressão foi recebida pelo secretário Romulo Marinho Soares e, segundo a Sesp, encaminhada para o Subcomado Geral da Polícia Militar “para avaliação e tomada de providências”.

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