12 dez 2020 - 16h07

Mais uma grande perda para o Jornalismo da UP: Ana Mira foi demitida

Mestra de tantos de nós, a professora tinha 13 anos de casa

A Universidade Positivo (UP) fez novas demissões – e é triste comunicar ao leitor que entre os desligados está a professora Ana Mira, que dava aulas no curso de Jornalismo há 13 anos.

“É uma vida no lugar, né? Eu tô bem, já sabia que isso ia acontecer, mas é difícil. É muito tempo indo para o mesmo canto todos os dias. Acho que ainda não caiu a ficha por causa da pandemia. Talvez só caia ano que vem, não sei”, ela disse numa conversa via telefone. 

Ana foi convidada para fazer parte da equipe pela professora Elza Oliveira Filha, que hoje dá aulas na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), mas naquela época integrava o time de ouro do Jornalismo da UP. “Eles estavam precisando de um professor formado em Jornalismo e Letras, para também dar aula de português. Fiz a banca e entrei.”

“Sempre foi um lugar legal de trabalhar, porque existia uma preocupação grande com a qualidade e a entrega. O curso de Jornalismo da UP foi uma construção, sabe? Foi uma caminhada de conquistas até ele começar a ser reconhecido no mercado, até os empregadores passarem a contratar os egressos porque sabiam que valia a pena e tudo mais.”

Em sala de aula, Ana era especialista em ajudar jovens aspirantes a jornalistas e ficarem íntimos das palavras. E o fazia com dedicação e disponibilidade para construir laços. “Eu sempre me envolvi com os alunos. Não tenho essa coisa de que o professor não pode ser amigo, não pode se aproximar. Eu acho que é preciso estabelecer um limite, mas não consigo ser professora sem criar relações. Acho que isso vai fazer muita falta.”

A ideia, agora, é focar na Toda Letra, a empresa que presta consultoria em língua portuguesa que ela fundou há uma década junto com seu companheiro, Fernando Munhoz. E, livre da obrigação de estar sempre em Curitiba e à serviço da UP, viajar. “Eu vou ter que arranjar alguma coisa pra colocar no lugar da universidade. Talvez dar mais cursos pelo Brasil. Eu não me imagino fora da sala de aula, acho que ficaria muito deprimida… Essa é a minha missão de vida.”

Despedida

A professora contou que as coisas mudaram bastante desde que a UP foi vendida para a Cruzeiro do Sul, como o Plural já ouviu tantas vezes de tantos profissionais diferentes. “A gente percebeu que começaram a pedir mudanças de matriz curricular, corte de horas, corte de grade, corte de pessoas…”

O sentimento que fica? Tristeza. “Eu fico bem triste porque parece que você tá vendo uma coisa que fez parte da sua vida por tanto tempo e agora tem outras pessoas olhando pra isso de um jeito muito diferente. A gente sabe que, no sistema capitalista, o que manda é o lucro, mas existem formas mais éticas de lidar com isso. Antes a gente percebia que existia uma preocupação com a qualidade – e a minha impressão é de que agora a lógica é outra.”

“Dá tristeza ver o que tá acontecendo com o próprio currículo; também vi com bastante tristeza a saída do Witiuk… Porque foram conquistas, né? O Witiuk também fez parte da construção da imagem que o curso tem hoje. Fico decepcionada”, disse, relembrando um colega querido e grande professor de radiojornalismo, que foi demitido em agosto.

Ontem, após anunciar nas redes sociais que estava de saída, Ana recebeu muitas ligações. Inclusive de outros egressos assustados com o rumo que a coisa tomou. “Eu disse a eles: continuem com orgulho. Pode ser que o mesmo curso não exista hoje ou amanhã, mas na época de vocês existiu e é algo pra se orgulhar. Eu tenho orgulho de ter feito parte daquela equipe. E espero que daqui pra frente não seja tão ruim assim, mas a gente não sabe.”

Para além disso, ela confessou que tantas demonstrações de afeto a deixaram bastante sensível. “Eu brinquei com um aluno que se eu soubesse que ia ficar tão emocionada e ouvir tanta coisa boa quando me mandassem embora, eu tinha pedido pra ser mandada embora antes (risos). É muita gente dizendo que eu fiz a diferença. Tem sido emocionante, já chorei várias vezes. Eu fiquei bem feliz por esse lado. É legal você ver que deixou um legado.”

Nota da repórter

Ana Mira – assim como Luiz Witiuk – foi minha professora. Entusiasta das palavras que sou, encontrei nela uma das grandes mestras com quem tive o prazer de aprender na época da faculdade. Talvez deva a ela o lugar que ocupo hoje no mercado de trabalho, porque foi ela quem me incentivou a seguir investindo no meu texto, em especial quando pensei em desistir do jornalismo, logo no primeiro ano, por me sentir um peixe fora d’água naquela instituição pomposa (coisa que deve acontecer com a maioria dos bolsistas).

É por essas e outras que educação não é mercadoria e professor não é objeto. Só mesmo seres humanos conseguem tocar outros seres humanos de maneira tão profunda e verdadeira. Fica o meu agradecimento.

Se puder, assine o Plural. Você pode escolher o valor que quer pagar. Isso faz muita diferença para nós: ser financiados por leitoras e leitores. As assinaturas nos mantêm funcionando com uma equipe que hoje tem oito pessoas e dezenas de colaboradores. Somos um jornal que cobre Curitiba em meio aos obstáculos da pandemia e fazemos isso com reportagens objetivas, textos de opinião e de cultura, charges e crônicas. Obrigado pela leitura.

2 comentários sobre “Mais uma grande perda para o Jornalismo da UP: Ana Mira foi demitida

  1. Que comovente! Que emocionante! Que professora! Quanto cuidado, quanto olhar, quanto acolhimento numa prática docente. Quanto conhecimento e mãos dadas nesse atravessar da vida vida acadêmica para a profissão. Não só a universidade, mas Ana Mira deveria ser direito de todos. Parabéns, Ana. Parabéns à ex-aluna e jornalista Jess Carvalho.

  2. Que texto maravilhoso, Jess. Contar a história de dedicação de Ana Mira à UP é uma forma de marcar a presença desta professora incrível que formou afetivamente tantos jornalistas. Obrigada.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias

Lições sobre a “cura da Covid-19”

Supondo que o “estudo” tivesse sido conduzido com rigor científico, e que os números apresentados, para cada um dos grupos, fossem o retrato de uma retidão metodológica, certamente não poderíamos atestar, nem de longe, que as condutas bioéticas foram seguidas

Marcelo M. S. Lima

Radiocaos Fosfórico

Neste episódio os textos e ideias combustíveis de Trin London, Merlin Luiz Odilon, Menotti Del Picchia, Alana Ritzmann, Otto Leopoldo Winck, Gabriel Schwartz, Cyro Ridal, Robson Jeffers, Guilherme Zarvos, Carlos Careqa, Clarice Lispector, Luciano Verdade, Giovana Madalosso, Charles Baudelaire, Arnando Machado, Edilson Del Grossi, Francisco Cardoso, Liliana Felipe, Valêncio Xavier, Carlos Vereza, Ícaro Basbaum, Mauricio Pereira, Mano Melo, Monica Prado Berger, Amarildo Anzolin, Antonio Thadeu Wojciechowski, Marcelo Christ Hubel, Cida Moreira, entre outros não menos carburantes.

Redação Plural.jor.br