Irmã conta a perda de infectologista para covid-19 | Jornal Plural
24 maio 2020 - 16h00

Irmã conta a perda de infectologista para covid-19

Cloroquina não impediu o avanço da doença, que o levou para UTI em três dias. Família não pode se despedir e busca apoio em outras vítimas do coronavírus

“Tudo foi muito rápido. Em um dia, parecia ser só uma gripezinha, que iria passar. Três dias depois, ele foi intubado na UTI. Doze dias depois da internação, ele faleceu.”

O relato é de Lina Saheki. Ela perdeu o irmão há três semanas para a covid-19. Maurício Naoto Saheki tinha 41 anos e era médico infectologista da Fiocruz e do Instituto de Infectologia São Sebastião, no Rio de Janeiro.

“O sonho do Maurício, aos 10 anos, era ganhar um Nobel de Medicina. Ele sempre soube que queria ser médico e amava a profissão. Dizia ter escolhido a Infectologia porque era o caminho mais curto para ajudar a curar o maior número de pessoas doentes”, recorda a irmã.

Nos últimos 16 anos, o médico, nascido no Espírito Santo, cuidou de pacientes com zika, febre amarela, aids e, nos últimos meses, covid-19. Foi no trabalho que ele contraiu o coronavírus.  

“Na noite de sexta-feira, 17 de abril, pelos sintomas, ele desconfiou e foi direto para a Fiocruz, para testar. Na segunda, já tinha a confirmação. Até terça, ele se tratou em casa, mas estava relativamente bem, só muito cansado e com um pouco de falta de ar. Na quarta, internou-se no Hospital São Lucas (RJ) e na quinta foi para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva).”

O infectologista Maurício Saheki salvou vidas por 16 anos. Foto: Arquivo Pessoal

Cloroquina

A família confirma que o médico – que era asmático – fez uso da cloroquina, junto com outros medicamentos, logo após a internação. “O quadro dele foi piorando cada vez mais, teve pneumonia, Síndrome de Desconforto Respiratório Agudo (SDRA) e, por isso, foi intubado e mantido em coma induzido. Foi colocado em posição de prona e fez diálise. No final, teve uma parada cardiorrespiratória e faleceu”, lamenta Lina.

“Não conseguimos nem falar com ele, porque ele não tinha forças para falar. Não pudemos nos despedir”, enfatiza. “Meus pais não conseguem processar bem a ideia de não terem se despedido do filho; de não terem conseguido cumprir essa última missão. Se já é extremamente difícil a ideia de filhos partirem antes dos pais, a cena do sofrimento diário de uma mãe que não pode se despedir do filho, é particularmente dolorosa. Foram dias desumanos.”

A esposa do médico também contraiu o coronavírus, mas não precisou ser hospitalizada.

Ressignificar a dor

Apesar da dor, Lina expõe um outro lado do luto. “Se a dor da perda e da não despedida é desumana, a solidariedade e a empatia devolvem humanidade ao luto. Mesmo sem velório, muitas pessoas se manifestaram nas redes sociais falando do Maurício. A morte dele causou comoção em muita gente. Ele foi amado e deu a vida exercendo uma profissão que amava. Essa certeza nos devolve um pouco de paz”, percebe – lembrando que o irmão será homenageado pelo Hospital São Sebastião, o qual terá uma UTI com o nome do médico.

“Alguns familiares de outras vítimas do coronavírus entraram em contato conosco, simplesmente para conversarmos sobre nossa própria dor, sobre nossas recordações, ou para chorarmos juntos. Compartilhar esse momento de dor com outras pessoas que estão passando, ou passaram, pela mesma experiência, tem ajudado muito no processo de aceitação dessa ‘nova normalidade’”, diz.

“Uma parte considerável delas também não conseguiu se despedir, ou não vai conseguir se despedir. Estamos criando, aos poucos, uma rede de apoio e novas estratégias para tentar encontrar instrumentos que tragam um pouco mais de conforto, um pouco mais de paz no meio desse caos trazido pela pandemia.”

 A irmã de Maurício vê no apoio a força pra recomeçar. “É como se fosse um Grupo de Apoio aos Familiares das Vítimas da covid-19. Talvez essa seja uma forma de ressignificarmos a dor e de nos ajudarmos a levantar todos os dias. Ajudar as pessoas, era essa a missão do Maurício”, conclui.  

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