Homens que colecionam mulheres: o risco de se relacionar com um perverso | Jornal Plural
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27 jul 2020 - 14h12

Homens que colecionam mulheres: o risco de se relacionar com um perverso

Eles estão em toda parte – da política aos sitcoms – e geralmente passam impunes. As vítimas é que sofrem

Quem cresce numa sociedade estruturada em bases machistas mal se dá conta de que o comportamento do piadista Barney Stinson, de How I Met Your Mother, é bastante nocivo. Ao longo da série, o personagem se envolve com mais de duas mil mulheres e se gaba dos relacionamentos que mantêm em paralelo. Sua preferência, diz, é pelas bêbadas e vulneráveis. 

A objetificação é tamanha que, em certo episódio, Barney chega a dizer que trocou uma mulher por um carro

Na vida real, histórias similares também suscitam piadas. Como quando, no ano passado, a internet caiu nas graças do “Bacurau 11”. Mas para as vítimas, o caso do jornalista Leandro Beguoci, que mantinha pelo menos sete relacionamentos, não é motivo de risos.

É o que afirma uma de suas ex, a jornalista Lívia Vasconcelos, que falou publicamente sobre o assunto, na época.

“A grande questão é que as pessoas transformaram isso numa piada, e isso nunca foi uma piada. (…) Eu sempre tive um quadro de ansiedade, mas com tudo o que aconteceu, deu uma agravada. Eu procurei um psiquiatra e comecei a ser medicada. Tive medo de sair de casa, de trabalhar, pra eu andar na rua era um sufoco, era horrível. (…) Comecei a receber mensagens de pessoas que me xingavam, falavam que eu era uma vagabunda, uma piranha e estava fazendo isso de propósito.”

O caso foi parar na justiça, mas não porque a vítima quis assim. Beguoci entrou com uma queixa-crime, alegando difamação e exposição de sua vida privada. O Plural teve acesso à decisão do juiz Luiz Guilherme Angeli Feichtenberger, que rejeitou o processo. Ele destacou que o jornalista enganou várias mulheres – não havia comum acordo – e chegou a confessar o fato. Portanto, não se trata de poliamorismo nem difamação.

Além disso, Leandro era casado. E o artigo 1.566 do Código Civil diz que a fidelidade recíproca, a mútua assistência e o respeito são deveres dentro do matrimônio. “Com esse raciocínio, não há intimidade a ser protegida àquele que, de má-fé, ludibriou diversas mulheres. O direito não protege quem age de má-fé.”

O juiz ainda deixou a reflexão: “Questiono-me: numa sociedade, ainda – infelizmente -, essencialmente machista, qual dignidade ou decoro do autor foi ofendido? Ou qual reputação foi ofendida? Tristemente, a sociedade não vê isso como fato ofensivo, tanto é verdade que o autor não teve, durante os múltiplos relacionamentos clandestinos, qualquer espúrio em sua manutenção”.

Sob o olhar da psicanálise

De acordo com o psicanalista Willian Mac-Cormick Maron, o ato de manter várias relações abusivas em paralelo pode ser visto como uma tendência perversa. E o ônus às vítimas costuma ser tão grande que algumas consideram o suicídio, após serem maltratadas pela sociedade machista.

É importante ressaltar que o profissional não se propõe a analisar casos isolados, que precisam ser avaliados individualmente em terapia.  Discute-se, aqui, o perfil comportamental. Acompanhe a conversa.

Plural: Quem é o perverso?

Maron: Na psicanálise nós temos três estruturas psíquicas: a neurose, a psicose e a perversão. A neurose é vista como mais comum ou ordinária. A maioria de nós seríamos neuróticos, já que entendemos a lei, sentimos culpa, remorso, empatia etc. Temos os psicóticos, que têm uma estruturação diferente em relação à realidade, então são vistos como os esquizofrênicos e os loucos. E, por fim, vêm os perversos. Não é uma patologia. É uma forma de funcionamento desse ser humano que desemboca em outros desdobramentos, como a psicopatia e a sociopatia. Isso coloca esse sujeito em uma relação precarizada com a lei. Ele entende a lei, sabe que existe, mas se vê acima, usa dela, goza. Todos estamos sob a lei, mas ele se sente superior. Falo de lei não como uma lei jurídica, mas de ordenação social. 

Plural: Por que ele é frequentemente abusivo? 

Maron: O assédio, seja ele moral verbal, virtual, psicológico ou sexual, é a tentativa da manutenção uma relação de dominação e obtenção do poder sobre outro humano. Assediar também é uma forma de se valer de seu poder (seja ele qual for), buscando a dominação do outro sobre forma sistemática de controle, violências verbais ou psicológicas, humilhação, constrangimento, depreciação, uso da força física e perseguição. Visando assim obter algum tipo de vantagem e atentando contra a dignidade do outro. É uma relação de poder perversa e mal empregada.

Plural: Como o perverso consegue fazer tantas vítimas em relações amorosas?

Maron: Eles são personagens dotados de um poder de sedução, em geral articulados e inteligentes e, por tal, muitos se vêem facilmente envolvidos. Muitas vítimas tornam-se facilmente seduzidas e sugestionadas pelo discurso perverso, pois encontram uma promessa de amor ideal, de acesso a um gozo direto, irrestrito, total, que faz parte de um jogo manipulatório e mentiras sistemáticas bem contadas. 

Plural: Por trás desses casos há também o machismo estrutural, concorda?

Maron: Sim, se faz importante pensar e lembrar que ainda estamos dentro de um machismo estrutural incrustado na sociedade que se mantém vivo e repassado pela cultura em forma de desigualdades, repressões, piadas, atitudes depreciativa e até atos mais diretos e menos sutis de violência como atentados contra o corpo, liberdade e dignidade do outro. 

Plural: Por que a sociedade naturaliza esse comportamento?

Maron: Sobre o homem está depositado um modelo de uma moral de dominação social que se transfere do modelo biológico (natural) para a cultura (negação impossível da natureza). No processo civilizatório haveria uma perda do poder viril de uma natureza em troca da cultura, e nesse trajeto busca-se recuperar esse poder, que é facilmente ameaçado pelo desejo feminino, retornando à ideia da naturalização do desejo masculino que não se sustenta mais em uma civilização que pensamos como “avançada”. Essa ideia primitiva vive na esperança da promessa de um gozo total e irrestrito. É a história do machismo. Precisamos parar de naturalizar o desejo masculino, a força física e seu ímpeto de dominação como sempre foi, como algo tido como banal ou esperado pois “homens são assim mesmo”. 

Plural: Do ponto de vista psicológico, o machismo é nocivo? 

Maron: O machismo, repito, é uma fantasia identitária frágil e perversa de dominação masculina. Facilmente abalada e igualmente repressiva. A fantasia do macho não está à altura do desejo feminino. O desejo feminino sempre foi a principal ameaça à fantasia de dominação do machista. Por isso, o grande objetivo do machismo é aniquilar e mortificar (por palavras, atos, rótulos) o desejo feminino para que sua fantasia continue imperando. A fragilidade dessa identidade viril pode buscar compensações no uso força física, no domínio das relações, na violência das palavras e de atos empregados aos que têm desejos diferentes dos deles (no caso gays), no assédio e no “Don Juanismo”, ou seja, em obter uma lista extensa de amantes e parceiras.

Plural: É possível identificar um perverso para se proteger de um abuso?

Maron: Eles são bons mentirosos, articulados e inteligentes. Muitas vezes utilizam de uma oratória, uma retórica, bem articuladas – e mentem. É muito complicado conseguir prever isso. Às vezes a gente passa por perversos na nossa vida e só entende que são perversos quando nos tornamos vítimas deles ou testemunhas de casos, porque alguns gostam de exibir seus gozos. É complicado ter uma receita para prever, a questão é que são tão sedutores que por mais que deem dicas ou mostrem algumas falhas ou pistas, eles conseguem reverter a situação.

Plural: Quais são as consequências de se relacionar com um perverso?

Maron: Muitas vítimas se vêem, a partir desses relacionamentos abusivos, com uma visão de si mesmas e das relações extremamente deteriorada e descrente. Muitas desenvolvem quadros ansiosos, depressivos e de pânico, mostram isolamento e medos que as afastam de uma vida esperada. Algumas apresentam ideações suicidas, pois não encontram lugar de fala na família, sociedade de nas leis. 

Plural: Como a sociedade trata essas vítimas?

Maron: A gente precisa cuidar de quem passa por vítima disso e dar um apoio. Um lugar de fala, sem julgamento. Há sempre muito julgamento: foi trouxa, foi enganada, deixou, quis, enfim. Muitas mulheres se sentem inibidas de falar sobre isso por vergonha ou por culpa. Isso mostra, bem claramente, que a sociedade está invertendo alguns valores, não? Doente está a sociedade na qual quem adoece, sente-se culpada porque adoece. Violenta é a sociedade na qual quem é violentada, sente-se culpada por tal, minimizada. A minimização da história e a culpabilização da vítima são os principais sintomas sociais que reforçam e cristalizam a fantasia de dominação masculina e a ameaça pelo desejo feminino.

Plural: Caso a vítima identifique um padrão de comportamento perverso no parceiro, como agir?

Maron: Quando se trata do perverso, é complicado tomar qualquer tipo de ação que não se afastar. A maioria nem vem pra análise, porque não se vê como um problema, acha que está acima disso. Para a vítima, é importante buscar lugares de fala e apoio, além de procurar a ajuda de um profissional da área: um psicólogo ou psicanalista.

Plural: E como os perversos agem quando são descobertos?

Maron: Quando são descobertos, são incapazes de culpa, remorso ou qualquer sentimento em relação à vítima.

Plural: Por serem tão sedutores, é comum ver perversos em cargos de poder?

Maron: As pessoas que têm esses traços, essas características perversas, são muito sedutoras, mas também muito seduzidas ao poder. Os vemos muito na política, direito e outros segmentos de grande visibilidade. Porque há um extremo gozo, uma satisfação de usufruir desse poder e ter poder sobre outros. A grande questão do perverso é que ele reduz o outro a objeto de satisfação, que é descartável quando já não é mais útil, e sem culpa ou remorso. Ele não está muito preocupado se o outro vai sofrer ou chorar. Por isso as mentiras e essa relação de laço utilitarista. Então, esses traços podem aparecer tanto na vida particular quanto na vida pública, mas com formas diferentes. Por exemplo: alguém que goza de ter um cargo de poder, mas utiliza das mulheres para ter um tipo diferente de gozo. Um é mais visto do que o outro.

Plural: Todos os perversos são criminosos?

Maron: As pessoas taxam psicopatas, sociopatas ou perversos como criminosos. Mas tem vários deles que passam a vida ser cometer crimes, mas usam o outro, tripudiam do outro, riem, zombam sem remorso. Não cometem crimes apenas do ponto de vista legal.

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Um comentário sobre “Homens que colecionam mulheres: o risco de se relacionar com um perverso

  1. Adorei a máteria Jess! parabéns! é mais comum do que imaginamos, e a entrevista com o Maron foi bastante esclarecedora!
    conteúdo muito necessário, vou compartilhar e divulgar 😀
    um beijo

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