Histórias da greve: solidariedade e esperança no Centro Cívico | Plural
9 jul 2019 - 22h30

Histórias da greve: solidariedade e esperança no Centro Cívico

Sem reajuste há três anos, servidores iniciam campanha para doar agasalhos e alimentos

“O dinheiro não está dando nem pro mês”, garante o educador Roberto Ludke. “Esgotamos todas as possibilidades de acordo e a greve é nossa última ferramenta para garantir o futuro a que nossos filhos têm direito. Mas o que nos faz estar mesmo aqui hoje é a solidariedade por toda categoria”, resume Ludke, entre as dezenas de servidores acampados em frente ao Palácio Iguaçu desde o dia 3 de julho. Os trabalhadores, em greve, pressionam o governo Ratinho por uma reposição salarial, que não acontece desde 2016. Além do frio, com temperaturas quase negativas, os grevistas enfrentam ainda preconceito de parte da sociedade e incerteza quanto à garantia dos direitos básicos, como a reposição da inflação. Ainda assim, fazem da esperança e da solidariedade o peso para fortalecer o movimento, que desde esta terça-feira (9/7) começa a arrecadar agasalhos, cobertores e alimentos não perecíveis.

As doações serão entregues a instituições de caridade e farão parte do que os grevistas denominaram de “Operação Sarepta”. Em alusão à personagem bíblica – que, mesmo com um pouco de farinha para sobreviver junto com seu filho, alimentou o profeta Elias e foi salva por Deus – a campanha começou durante o ato unificado, organizado pelos sindicatos em Curitiba. Caravanas do interior desembarcaram logo cedo na capital para reforçar o movimento.

A campanha, segundo Nádia Brixner, da APP-Sindicato, é mais uma medida para provar que o princípio da solidariedade continua forte no funcionalismo público, principalmente na Educação. “Esta ação serve para mostrar ao governo que, por menor que seja nosso salário, por piores que sejam as nossas condições de vida, nós somos pessoas solidárias, lutando um pelo outro. E isto está muito presente na nossa greve”, destaca.

Nem o frio impediu o acampamento, montado em frente ao Palácio Iguaçu. Foto: Roberto Ludke

No administrativo do Colégio Estadual do Campo Felipe Valentin, na Ilha do Mel, Roberto Ludke é concursado desde 2006. “Entrei para o serviço público porque tenho esperança na Educação, pois é dela que provem o restante da sociedade. Porém, todos os anos, os servidores dos outros poderes têm seus direitos garantidos e nós precisamos sempre que lutar, fazer pressão e passar por esta humilhação, pois não estamos aqui nos divertindo”, assegura. “Hoje não posso nem visitar minha família anualmente em Marechal Cândido Rondon. Deixamos de fazer muita coisa. Até pro aluguel está difícil.”

A percepção se estende por toda a categoria. “Deixei de fazer muitos cursos, participar de muitos congressos. O transporte e a estadia são caros e pra gente que mora em cidade pequena e distante fica ainda mais difícil”, conta o professor José Carlos Correa dos Santos, o Juca, de Dois Vizinhos, também acampado no Centro Cívico.

Sem dinheiro e sem direitos

Concursado há 18 anos, o professor Juca – que leciona História e Sociologia – lembra que desde o governo Beto Richa não há oferta de formação a docentes. “O governo cobra formação, não oferece nada e ainda não repõe as perdas salariais. Ganhamos hoje o mesmo que há quatro anos. Não tenho como sustentar uma filha na universidade assim. Estamos na luta pela dignidade da nossa própria família mas também pela garantia dos nossos direitos, que estão na lei”, diz. “Enfrentamos tudo isso hoje pela educação pública, para que excelentes educadores não precisem procurar outra coisa pra fazer.”

Para Juca, é importante que bons estudantes queiram ser educadores. “Mas quando converso com meus alunos, ninguém diz: eu quero ser professor. Isso é lamentável. Não se valoriza a Educação e no futuro só vai querer ser educador quem não conseguir outra forma de ganhar a vida e isso é algo muito ruim pois é o professor que forma as demais profissões.”

Professor Juca, de Dois Vizinhos: “Isso é lamentável”. Foto: Arquivo Pessoal

O professor avalia que as perdas salariais vão além dos 17% calculados pelos sindicatos. “A cada ano, temos aumento da inflação mas nosso salário não acompanha esta elevação. Temos uma perda muito maior, já que o livro não está na cesta básica, um curso não está na cesta básica, o combustível está muito acima da inflação. Então, na prática, perdemos 30% do nosso poder de compra nos últimos anos”, percebe.

A avaliação é semelhante em outras categorias. “Hoje, R$50 não é mais nada. No mercado, no posto de gasolina, sentimos os impactos toda hora. Você vê coisas que antes era mais tranquilo de adquirir, pois tínhamos um maior poder de aquisição. Agora não conseguimos mais. Tem que economizar em tudo, na água, na luz, no lazer, na Educação, no aluguel. Não está fácil”, confirma o agente penitenciário Ricardo Cícero da Paz, de Guarapuava.

Há 12 anos na função, ele conta que antes viajava e passeava mais com a família. “Esta falta de reposição mudou toda a minha rotina. Viajávamos quatro vezes no ano, agora nem uma direito. Não consigo financiar um imóvel com meu salário. Cancelei o plano de saúde, a terapia; só posso comer pizza uma vez no mês e ao cinema é só no dia da promoção”, revela o agente de segurança.

“Passou da hora do funcionalismo público executivo ter reposição inflacionária pois o judiciário e o legislativo estão tendo. Estamos pedindo apenas a reposição, não é nem aumento. O governo vem na mídia tentar colocar a população contra nós, dizer que ganhamos bem, mas não temos esse salário. Somos feitos de palhaços, usados de massa de manobra, como se nós fossemos os vilões da história. Eles aumentam impostos sem perguntar, prometem tudo e depois de eleitos mudam o discurso. É ridículo dizer que não há dinheiro pra reajuste sendo que as taxas de aumento inflacionário dos outros servidores são bem maiores. Legislativo e judiciário receberam, por que nós não?”, questiona Ricardo.

“Sentimos como se tudo fosse muito caro e pesado e vamos desanimando porque não temos as garantias de um funcionário CLT, por exemplo. O governo cobra dos empresários a garantia do direito dos trabalhadores, mas ele mesmo não garante este direito a nós, trabalhadores do serviço público executivo”, conclui o agente penitenciário.

O agente penitenciário Ricardo Cícero da Paz, de Guarapuava. Foto: Arquivo Pessoal

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