Governo reúne 40 mil em plena pandemia para teste de PSS - Jornal Plural
8 jan 2021 - 15h13

Governo reúne 40 mil em plena pandemia para teste de PSS

Prova é considerada desnecessária para seleção, que sempre foi feita por currículo; professores veem risco de agravamento de pandemia

Depois de adiamentos e de muita pressão para que desistisse da ideia, o governo do Paraná pretende aplicar neste domingo (10) a prova de seleção para os professores temporários da rede estadual de ensino. Serão 40 mil pessoas participando do processo em cidades de todo o Paraná, durante um momento de alta da pandemia do coronavírus.

Embora a Secretaria de Educação diga que os protocolos sanitários sejam seguros, o sindicato que representa professores e funcionários da educação estadual (APP-Sindicato) e os próprios participantes da seleção temem que a reunião de um grande número de pessoas possa agravar ainda mais a situação da Covid no estado. Mais de 8 mil pessoas já morreram devido à doença no Paraná.

O Plural conversou com professores que hoje trabalham como temporários no estado mas que pensam em desistir da renovação do contrato por receio de contaminação. Outros afirmam que, embora pertençam a grupos de risco, pretendem fazer a prova porque precisam do dinheiro no fim do mês. Todos consideram a prova desnecessária.

A seleção do PSS (Processo Seletivo Simplificado) nunca incluiu a realização de provas. O ranqueamento era feito por prova de títulos e apresentação de currículo. Neste ano, o secretário Renato Feder decidiu que, apesar da pandemia, era necessário realizar a prova.

No dia 30 de dezembro, o governador Ratinho Jr. (PSD) publicou um decreto para abrir uma exceção às suas próprias normas relativas à aglomeração de pessoas na pandemia. O texto prevê que, para concursos e testes seletivos, não valem as mesmas normas mais rigorosas impostas para as demais situações no estado.

“Não vou ter como fazer essa prova”, diz E.G., que prefere não se identificar. “Sou diabético, hipertenso, estou no grupo de risco. Trabalho como PSS desde 2011, mas não posso me arriscar para fazer essa prova”, afirma ele. Sem outra renda que não a do contrato com o governo, o professor, que dá aulas de Filosofia, ainda não sabe o que vai fazer para conseguir outro emprego em plena pandemia.

Outro professor conta que ainda não decidiu se vai fazer a prova. Ele relata que saiu da UTI há 12 dias, depois de a Covid causar danos profundos em seu pulmão. “Ainda estou com sequelas. Não tenho mais o vírus, mas passei 14 dias na UTI. Até meu raciocínio está prejudicado, não sei se tenho condições de fazer a prova”, afirma.

Já para outros, a opção vai ser fazer a prova mesmo em condições totalmente desfavoráveis. O professor H., que também preferiu não ter seu nome publicado, é aposentado pelo estado. Desde 2017, complementa a renda trabalhando como PSS. Embora esteja no grupo de risco, por ser idoso, diz que não tem como abrir mão do emprego.

“Além de tudo, minha prova vai ser do outro lado da cidade”, diz ele. “Por sorte, tenho como ir de carro. Mas tem muita gente que além da prova vaio enfrentar a aglomeração do ônibus”, afirma ele.

A versão do governo

A Secretaria da Educação afirma que todos os cuidados estão sendo tomados, que os candidatos ficarão a uma distância mínima de 1m5 e que entrarão em grupos nas salas. Leia na íntegra a nota enviada ao Plural pela Secretaria:

A Secretaria de Estado da Educação e do Esporte (Seed-PR) informa que há um decreto estadual (6.593/20) que garante legalmente a realização da prova com toda a segurança sanitária e que não existem decretos municipais impedindo o certame. O protocolo do Cebraspe, empresa responsável pela aplicação da prova, contém todas as exigências da resolução 632/2020 da Sesa e foi aprovado pela Secretaria de Estado da Saúde.

Entre as medidas estão a seleção de locais com amplas janelas para favorecer a circulação de ar; higienização de todo o ambiente, inclusive as carteiras (antes e depois do uso), os malotes e outros materiais de manuseio; verificação da temperatura corporal dos aplicadores e dos candidatos; observação do distanciamento físico; uso obrigatório de máscara; disponibilização de álcool gel, sabonete líquido e papel toalha nos banheiros e sacos plásticos transparentes individuais para descarte de material utilizado (lenços e máscaras usadas).

Visando garantir o distanciamento físico, de 1,5m entre os candidatos em sala, a taxa de ocupação dos espaços físicos foi reduzida de acordo com as dimensões e a quantidade de carteiras existentes nas salas. Foram selecionados locais com amplas janelas para favorecer a circulação de ar. As janelas deverão permanecer abertas durante todo o período de aplicação de provas, condicionada aos fatores climáticos. O uso de aparelhos de ar condicionado foi proibido. Além disso, em cada sala será informada a capacidade máxima do espaço e o quantitativo de pessoas alocadas naquele ambiente.

Sobre a entrada por grupos, o Cebraspe organizará a entrada escalonada dos participantes e colaboradores para evitar qualquer tipo de aglomeração. O Centro dividirá os candidatos em 4 grupos, com horários de entrada distintos, que são informados aos respectivos candidatos na consulta de local e horário das provas. Desse modo, cada grupo de candidatos chegará no local de prova em um intervalo de tempo, diluindo a circulação de pessoas no local de aplicação e evitando aglomerações.

A prova vinha sendo debatida ainda em 2019 e só não ocorreu naquele ano em virtude de um acordo com representantes dos professores. Para a seleção de 2020 (agora já em 2021), continuam a fazer parte a prova de títulos e o tempo de serviço – mesmos critérios utilizados em anos anteriores. A novidade é a prova que visa aprimorar o processo de seleção dos profissionais da rede e sua realização é necessária para a continuidade do processo seletivo. A nova seleção valoriza profissionais experientes e ao mesmo tempo abre novas oportunidades.

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2 comentários sobre “Governo reúne 40 mil em plena pandemia para teste de PSS

  1. Diante dos governantes sinto-me como alguém que luta contra o vento. Não sou pss, sou QPM, mas, a indignação é a mesma. Infelizmente, a sociedade acredita que gestões corporativas levarão à educação ao pulo do gato. Gente insana.

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