Golpe em vagas de emprego atinge curitibanos | Jornal Plural
2 abr 2021 - 15h10

Golpe em vagas de emprego atinge curitibanos

Empresa exige curso para contratar vítima, que após pagar pela qualificação não tem mais resposta

“Falta de respeito eles estarem fazendo isso com o trabalhador que está em busca de emprego, isso acaba frustrando a gente”, diz Roberta (nome fictício), vítima de golpe em uma vaga de emprego. Ela procura emprego há três meses e, para facilitar a busca, acabou entrando em alguns grupos que divulgam vagas. Enviava seu currículo por e-mails até que recebeu uma resposta para uma oportunidade de recepcionista. Começou a conversar com o RH por WhatsApp, quando a empresa disse que não estava cobrando necessariamente experiência na vaga (o que ela tinha), mas sim exigindo que a pessoa tivesse um curso de recepcionista. 

“Como estou muito atrás de um emprego, eu falei que iria conseguir o certificado de recepcionista. Ela deu algumas opções de cursos que imprimem os certificados no mesmo dia, mas que cobraria uma taxa por conta do certificado”. Roberta pagou a taxa de R$ 49,76. Enviou também seus documentos. Nunca mais teve resposta. “Foi quando eu vi num grupo que tinha acontecido isso com muitas outras pessoas, aí eu fui ver que realmente era um golpe. E era o mesmo e-mail, o mesmo número de telefone”, conta. Ela registrou um boletim de ocorrência on-line, para o qual também nunca teve retorno. 

Paula, igualmente, se interessou por uma vaga que viu em um site de compra e venda. Após confirmar que sua documentação estava ok, a empresa lhe disse que a concorrente necessitava de um curso, e que não arcaria com a despesa. “O curso era de R$ 180, e seria como um treinamento para eu já começar a trabalhar. Me mandaram o número da empresa que supostamente eles tinham parceria. Eu conversei e a pessoa falou que eu tinha que pagar através do pix. Quando eu paguei, sumiu tudo, até hoje”. Paula afirma que aconteceu de novo um tempo depois, mas que não caiu no golpe novamente. “Sempre aparece pessoas nos grupos que caíram no mesmo golpe. Eu não fiz B.O, deveria ter feito, mas deixei para lá. Muita gente não faz.”

Maurício também viu uma vaga em um site de compra e venda. Mandou o currículo por e-mail e teve resposta dias depois, dizendo que tinha sido aprovado. 

“Perguntaram para mim se eu tinha curso, disse que não. Falaram que iam me encaminhar para o curso, pois a vaga era minha. Mandei mensagem ao curso, eles me mandaram a apostila e mandaram eu fazer um depósito de R$ 100. Me encaminharam uma prova, que eu fiz e enviei. Disseram que a prova estava sendo corrigida e que o certificado chegaria por e-mail. Fiquei esperando e esperando, não veio nada. Mandei mensagem para eles e não me responderam mais. Não fiz nenhum B.O até agora porque não sabia se tinha mais gente, mas agora sei que tem. Estava atrás de serviço e me garantiram a vaga. Era um dinheiro que eu tirei, que eu não tinha.”

Os relatos são o resultado de uma apuração do Plural sobre os golpes nas vagas de emprego. Geralmente a pessoa se interessa por uma vaga, tem uma conversa inicial com a empresa na qual ela pede um curso específico, não mencionado na divulgação da vaga. O interessado paga o curso e nunca mais recebe resposta. Dois dos três depoimentos envolvem uma mesma empresa, sobre a qual não se encontram muitas informações. Há somente um site simples e uma página no Reclame Aqui, com 27 denúncias de golpe. Nenhuma foi respondida. 

A empresa citada sempre recomenda os cursos de outras empresas específicas. Assim como a companhia que a pessoa faz o contato, as empresa de treinamentos também não possuem informações claras na internet, mas é possível encontrar reclamações de golpe.

Pedro de Moraes Custodio, coordenador de um grupo que divulga vagas de emprego via WhatsApp, repara que nos prints que encaminham a ele, as mensagens são padrões e que não há informações completas da empresa, como o endereço. “Com certeza as pessoas se sentem enganadas, frustradas e muitos até desanimam na busca do emprego. Quando recebem um retorno a esperança ressurge, e depois vem um banho de água fria ao saber que é um golpe”, avalia.

“Nossas medidas são sempre filtrar as vagas antes de mandar, olhamos anúncio por anúncio, reforçamos em mensagens de texto o cuidado para as pessoas tomarem e mais: incentivamos sempre o registro de um boletim de ocorrência.”

É também o que Arthur Pinto Pentagna, voluntário em mais de 15 grupos de emprego incentiva. “A gente também orienta as pessoas que sofreram esse golpe a fazer um B.O on-line. Infelizmente acho que não tem um grande retorno por parte da polícia. Acho que o poder público não faz muito para coibir isso não. Inclusive, em um dos casos a pessoa falou para o golpista que iria fazer um B.O on-line e a pessoa debochou, dizendo que podia fazer que não dava em nada.”

Arthur relata que quando algum golpe acaba escapando para os grupos, é enviada uma mensagem de alerta. “Sempre que a gente chega e manda essa mensagem de alerta, falando para o pessoal ficar atento, sempre vem gente falar conosco, contando que passou por uma situação assim, que sofreu um golpe, que pagou um curso e nunca mais entraram em contato. Então é bem frequente, acontece direto.”

É crime?

Marcelo Melek, professor de Direito do Trabalho da Escola de Direito e Ciências Sociais da Universidade Positivo, explica que a empresa de fato pode exigir qualificações da maneira que ela entender necessárias, desde que, claro, não sejam discriminatórias. “Agora, o que a empresa não pode fazer ao exigir essa qualificação é de direcionar ela para uma qualificação específica e fazer com que o empregado arque com esse custo como condição para entrar na empresa. Se a empresa quiser que ele tenha o curso então ela deve contratar essa pessoa, capacitá-la e aí sim, com contrato de emprego, ela trabalhe.”

O professor explica que, em tese, a empresa que faz isso pode incorrer no crime de estelionato. “Teríamos que analisar o caso concreto, ver se realmente todos os fatos se encaixam com esse tipo penal previsto no código penal. A empresa tem uma vantagem econômica mediante de uma fraude. Sabia que as chances da pessoa conseguir uma vaga não era efetiva, e mesmo assim a empresa obrigou, incentivou muito a pessoa a fazer o curso e a pessoa não conseguiu aquela vaga.”

O advogado esclarece que as empresas podem até mudar os requisitos da vaga, mas somente em questões razoáveis, não como uma regra com o intuito de fazer com que as pessoas realizem os cursos apenas para gerar receita para as empresas de capacitação.

Ilustração: Benett

O que fazer

“Na dúvida, o empregado pode procurar o sindicato que o representa”, explica Marcelo. “Inclusive, se houve uma situação de promessa, a empresa prometeu que ele ia ingressar, ele faz o curso e depois a empresa não contrata, ele também pode ingressar na Justiça do Trabalho, pedir inclusive danos pré-contratuais. Afinal, a empresa se comprometeu, ele deixou de procurar outra vaga ou aceitar outro emprego por conta disso. Ainda para questões de orientação, ele pode procurar o Ministério Público do Trabalho, ou um advogado. Conforme o caso também, a Justiça Criminal.”

O docente ressalta que sempre que o empregado se sentir lesado, sugere-se que ele faça um boletim de ocorrência, porque é este documento que vai provar que o relato foi efetuado. 

Colaborou: Matheus Koga

Se puder, assine o Plural. Você pode escolher o valor que quer pagar. Isso faz muita diferença para nós: ser financiados por leitoras e leitores. As assinaturas nos mantêm funcionando com uma equipe que hoje tem oito pessoas e dezenas de colaboradores. Somos um jornal que cobre Curitiba em meio aos obstáculos da pandemia e fazemos isso com reportagens objetivas, textos de opinião e de cultura, charges e crônicas. Obrigado pela leitura.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias