“Eu vou preso, mas tu vai pro necrotério”: uma entrevista sobre o caso Andresa Mendes e Adriano Tiezerini - Jornal Plural
8 out 2021 - 23h58

“Eu vou preso, mas tu vai pro necrotério”: uma entrevista sobre o caso Andresa Mendes e Adriano Tiezerini

Em 2018, ela levou quatro tiros em Curitiba. O principal suspeito é o ex-namorado, que vai a júri popular na quarta (13)

Desde janeiro de 2021, o fisioterapeuta paranaense Adriano Tiezerini está preso no Complexo Penal de Curitiba (CMP), em Pinhais, ao lado de figuras como Luis Felipe Manvailer e Peterson Cordeiro, ambos condenados por feminicídio. Todos ocupam celas especiais no prédio por um motivo em comum: eles têm ensino superior.

O imbróglio de Tiezerini com a justiça começou nos primeiros dias de 2019, quando ele foi apontado como principal suspeito de mandar matar a catarinense Andresa Mendes, sua ex-namorada, após não aceitar o fim do relacionamento. Assim que foi expedido o mandado de prisão, ele já estava foragido. Dois meses depois, foi encontrado e preso em Porto Alegre, e logo conquistou o direito de usar tornozeleira eletrônica. Porém, no início deste ano, descumpriu medidas restritivas, como sair sem autorização do Paraná, e teve de voltar para trás das grades.

Fisioterapeuta Adriano Tiezerini vai a júri popular. Foto: divulgação/instagram

Agora, o fisioterapeuta vai a júri popular. O julgamento está marcado para a próxima quarta-feira, dia 13, a partir das 9h30. Seus advogados, Heitor Luiz Bender e Khalil Vieira Proença Aquim, dizem que tanto eles quanto o acusado aguardam a ocasião com “extrema serenidade”. “Como já sedimentado em diversas oportunidades, Adriano nega veementemente todas as acusações que lhe são imputadas, ressaltando que as provas produzidas dão conta de sua inocência”, fala a defesa.

Andresa, por outro lado, espera a viagem para Curitiba com ansiedade. A última vez que desembarcou na cidade, no dia 29 de dezembro de 2018, a fim de ajudar na mudança do ex-namorado, ela levou quatro tiros em frente a uma farmácia do Batel e foi internada em estado grave no Hospital do Trabalhador.

Câmeras públicas registraram a cena do crime, mas o autor nunca foi encontrado. As autoridades encontraram mensagens com ameaças e receberam denúncias de que Tiezerini teria encomendado a morte da ex-namorada. Ela teve vários órgãos perfurados, mas sobreviveu e hoje vive em Florianópolis com a família.

Andresa levou um tiro no braço e três no abdômen. Foto: arquivo pessoal

O fisioterapeuta foi denunciado pelo Ministério Público do Paraná (MPPR), que enquadrou agravantes como motivo fútil e crime contra mulher, envolvendo violência doméstica e familiar. Para os advogados de defesa, no entanto, não há provas que sustentem uma condenação. “As acusações que pesam contra Adriano nada mais são que meras conjecturas e ‘achismos’, advindas de uma investigação ineficaz e deficiente, nutrida por questões obscuras”, apontam.

Graziela Engelhardt, especialista em direito das mulheres e assistente da acusação, garante que as provas são robustas. “Todas as provas que constam nos autos são concretas e apontam para o Adriano como mandante do crime. Aguardamos a condenação como medida de justiça.”

Em entrevista, Andresa Mendes fala dos seis anos de relacionamento com Tiezerini e das inúmeras violências psicológicas, físicas e patrimoniais sofridas durante o período. Ela também relembra o último almoço com o ex-namorado, minutos antes de quase ter a vida precocemente ceifada. Três anos depois, a catarinense está desconfortável com o julgamento e com medo de encará-lo de volta. 

Alerta de gatilho: contém relatos de abusos.

Plural: Quando você conheceu o Adriano?

Andresa: Eu o conheci em Florianópolis, em 2012. Ele estava morando aqui, segundo o que sei. Foi um relacionamento com tantas mentiras que a gente acaba nem sabendo o que era verdade e o que não era, né? Mas até onde sei, ele tinha se decepcionado um pouco com a profissão de fisioterapeuta e por isso veio pra Florianópolis. Largou a fisioterapia em si e começou a promover eventos de MMA, usando o nome desses atletas de peso que ele tinha como referência.

Ele atendia alguns famosos, como o Shogun e o Wanderley Silva, né?

Exatamente. Aqui, ele se juntou com o Thiago Tavares, um lutador de MMA que estava no auge, na época, e fez um evento. Foi onde nos conhecemos. No fim das contas, ele e o Thiago também se desentenderam. Um dos erros graves que ele cometeu por aqui foi fazer esses eventos prometendo um cachê muito alto pros atletas. Então, acabou ficando devendo pra muita gente, por não ter o retorno financeiro que imaginava. E aí foi só se afundando… Mas ele chegou a ficar bastante tempo em Floripa, algo em torno de dois anos. Antes, acho que morou em Criciúma. 

Como foi o começo da relação?

Eu o achei muito disposto e disponível. Por um momento aquilo me pareceu, nossa, que perfeição. Ele parecia ler os meus pensamentos, e como era muito sozinho aqui, estava sempre pronto, sempre ali. Ele grudou em mim e o processo foi muito rápido, entre conhecer e namorar.

Quanto tempo durou o relacionamento?

Em Florianópolis, foram dois anos. No total, foram seis anos. Mas os primeiros dois anos já foram extremamente conturbados. Sempre foi, tá? Sempre. A gente é que romantiza e acha que pode mudar a pessoa. Eu muitas vezes disse: olha, eu não me importo com o que tu tem financeiramente, a gente tá bem de saúde, vamos os dois crescer juntos, eu só quero que tu seja uma pessoa com caráter, uma pessoa honesta, uma pessoa digna. E eu acho que todos os sinais já estavam muito claros, sabe? Que ele era uma pessoa com problemas… Hoje olho de fora e tenho certeza. 

O que caracterizou a relação abusiva de vocês?

Eu vou te dizer aquela violência que deixa mais marca, tá? Talvez não seja a mais dolorosa, mas é a que deixa uma cicatriz muito mais profunda e muito mais difícil de lidar, que é a violência psicológica. Essa daí é uma coisa assim que todos os dias tu tem que driblar porque os gatilhos estão ali. A manipulação te deixa frágil porque te tira do teu chão, tira tua autoestima, tu vira um nada, e é nesse momento que vem a violência física, de forma mais exposta, mas a violência psicológica é a mais devastadora. Eu não tenho dúvida nenhuma disso. 

Ele mentia pra te manipular?

Ele mentia compulsivamente. Eu contesto as coisas, sabe? Eu sou do certo. Eu quero sempre a verdade. Então, no começo, eu ficava muito em cima. Por exemplo, um dia uma amiga perguntou: vocês trocaram de carro, mas não chegou ainda, né? O Adriano falou que vocês compraram o carro x, y, sei lá. Tive que responder: não, querida, não compramos. Quando o confrontei, pronto, ele começou a pegar o que tinha pela frente e jogar no chão e quebrar enquanto gritava: tu é uma retardada, tu não entende nada, tu não sabe do meu mundo… E assim foi ladeira abaixo. Tô te relatando uma coisa mínima, tá? Uma mentira mínima, mas essa mentira já teve proporções gigantes. Era rotina ele pegar minhas coisas e jogar no chão, quebrar, enfim, eu passei por todos os tipos de violência. Só que infelizmente, mesmo com 36 anos na época, mesmo me achando uma pessoa que conhece as coisas, que lê, que vive numa sociedade, que não tá no meio do mato trancada, mesmo tendo tudo isso, eu caí nas histórias e me envolvi. Só a paixão pra explicar.

Por que vocês vieram pra Curitiba?

Primeiro ele voltou sozinho pra Curitiba porque já não tinha mais o que fazer aqui. Ele não trabalhava e já estava devendo a muitas pessoas. Eu quis que ele fosse porque achava que pelo menos aí ele poderia resgatar a profissão dele e as coisas ficariam mais tranquilas. Eu sei que quando a gente tá sem grana perde o controle, fica sem chão. Eu coloquei na minha cabeça como missão achar um emprego em Curitiba pra ir junto. Nesse período ele começou a atender o filho do Cafu que estava em Curitiba, e daí juntou a fome com a vontade de comer. Ele, que sempre pintava uma vida glamourosa, viu ali uma oportunidade de pelo menos se reerguer. Pra mim, essa temporada foi difícil porque eu via ele na balada, com outras mulheres, mas ele dizia: tô só de acompanhante porque o próprio Cafu pediu, tu tá aí longe, tu não sabe de nada, não complica a minha vida. E aí eu achei um emprego e resolvi ir logo pra Curitiba, porque queria manter o relacionamento e a distância não ia dar certo, mas no primeiro mês eu vi que foi a pior besteira. Eu aluguei um apartamento no meu nome, botei a minha mãe como fiadora e as brigas começaram a ser mais intensas. Na primeira briga que a gente teve, ele quebrou a porta do apartamento e só parou porque eu me tranquei e liguei pra polícia. 

Você chegou a registrar o boletim de ocorrência?

Sim. Mas pra você ver como era uma coisa sufocante… Entraram dois policiais no apartamento e me ajudaram a botar as roupas naqueles sacos de lixo de 100 litros. Eu fui de pijama pra delegacia, fiz o BO e desci pra Floripa. Eu tinha carro, ele não, mas quando cheguei na casa da minha mãe, ele já estava na porta do prédio. Nunca consegui entender como ele chegou antes. E aí eu tive que entrar na casa da minha mãe com a cara inchada de tanto chorar, de pijama, as roupas no saco de lixo, mas fingindo que não tinha acontecido nada, porque ele me grudou pelo braço dizendo: vamos subir, tá tudo bem. A minha ida para Curitiba foi, com certeza, o pior erro que eu cometi na vida.

Vocês voltaram?

Sim. Depois fui chamada na delegacia pra conversar, pra ver se eu queria fazer uma representação, mas passado algum tempo, não quis prejudicá-lo profissionalmente, porque sabia que ele estava se reerguendo. O que falta pra nós, mulheres, é informação. Tu não tem essa ideia de que tá vivendo um relacionamento abusivo. Tu sabe que tem coisa errada, mas não sabe o que é que tá errado. Na verdade, tu até sabe o que tá errado: é tu que tá errada, sabe? Tu tá errada porque é isso que tu escuta o tempo inteiro. Tu leva uma cabeçada ou um tapa ou um chute porque tu foi ao supermercado e tu não comprou carne. Tu comprou papel higiênico, detergente, mas tu não comprou a carne, como é que tu esqueceu da carne? Tu tem o teu celular quebrado no chão porque tu tá fuçando nas coisas dele pra ver se encontra alguma traição, alguma mensagem, então teu celular merece ser quebrado pra ti não ter mais como fazer isso. 

Depois desse episódio, você chegou a registrar outros BOs?

Sim, um ou dois, mas ele me pedia pra tirar. O último BO que eu fiz em Curitiba ele pediu pra tirar porque estava passando por um processo seletivo na FIFA e não podia ter nada no nome dele. E aí eu fui lá na delegacia e tirei. Nem sei se era verdade. Outras vezes a violência aconteceu e eu não fiz nada. Como eu já tinha feito um e outro e pedido pra tirar, eu me sentia desacreditada. Hoje, não dá pra tirar, e isso é correto, porque logo que o homem sabe do BO, ele começa a chantagear e manipular a mulher, ele vira a vítima. Várias vezes ele falava pra mim: olha, eu vou preso, mas tu vai pro necrotério. Ou ainda: olha, vamos parar os dois na delegacia, mas eu quebro todos os teus dentes antes. Eram frases constantes. 

Você compartilhou essas violências com a sua rede de apoio?

Eu tenho uma mãe e um pai de idade, nunca ninguém soube o que eu passava. Uma vez eu menti que caí da escada, porque estava toda roxa, mas ia dizer que apanhei? Parece clichê, mas é a realidade. Depois, eu entrei num grupo de apoio pra entender o que passei e descobri que eles parecem ter todos o mesmo perfil. Eles primeiro são príncipes, depois começam a ficar mais agressivos e violentos, quando tu vê tá sendo xingada, humilhada, mas a culpa é tua porque alguma coisa tu fez pra merecer aquilo. E depois da violência vem o afeto, porque daí a pessoa vem com flores, vem com o celular novo, vem com uma bolsa e acha que aquilo ali resolve. 

Quando você resolveu dar o ponto final? 

Em junho de 2018. Eu me lembro que a gente veio pra Florianópolis de carro, era Copa do Mundo. Por algum motivo que nem eu, nem minha mãe, nem ninguém sabe, ele virou a tomada, tipo assim, surtou. A gente discutiu na frente da minha mãe e ele ficou total desestabilizado e se trancou no quarto. Eu dormi no sofá. No outro dia de manhã ele falou pra mim: você tem cinco minutos pra arrumar suas coisas e ir embora. A minha mãe escutou e falou: não, imagina, calma, Adriano, não é assim, não faz assim, tu vai te arrepender. E ele nada, né? Pegou as coisas dele e foi embora. Aí a minha mãe falou: olha, eu nunca me meti no teu relacionamento, mas eu preciso que tu me conte o que tá acontecendo porque pra mim é muito nítido que tu não existe mais. Aí eu comecei a chorar e falar que não queria mais voltar para Curitiba. Ela respondeu: bom, então tá resolvido, tu não vai voltar mais, pode ligar pro teu trabalho, fala com teu chefe, diz que tu tá abandonando tudo, não tem problema, tu tá voltando pra casa da tua mãe e ponto. Era aquilo ali que eu precisava, sabe? Da mesma forma que quando eu decidi ir pra Curitiba perguntei pra ela se eu podia ir, a hora que ela me acolheu de volta, acabou, quis voltar pra casa.

Ele tentou reatar?

Sim, de todas as formas possíveis. Um mês depois ele apareceu na minha casa dizendo que tinha uma coisa muito séria pra me falar, que estava precisando me ver, e foi me encontrar no parquinho do prédio. Eu olhei pra ele e ele estava visivelmente uns dez quilos mais magro. Chegou dizendo que estava com câncer e que o médico tinha recomendado que ele fosse morar numa cidade com uma melhor qualidade de vida, com um ar mais puro, e que ele estava vindo morar em Florianópolis de volta. Eu não queria acreditar naquilo, sabe? Eu falei: não, não pode ser verdade. Não, Deus, pelo amor de Deus, não pode ser verdade. 

A história do câncer era verdade?

Não, e vou te dizer que esses meses que vivi com ele morando aqui foram os piores da minha vida. Foram quatro meses que equivalem a uns dez anos, eu acho. Porque aí sim ele me destruiu. Ele me destruiu. Te digo que se ele não tivesse feito o que fez no final, talvez eu tivesse feito alguma coisa com a minha vida. Ele chegou a colocar rastreador no meu carro, ele me deu um gato que ele usava pra me manipular porque meu ponto fraco são os animais. Então, ele sabia que se eu ficasse responsável pelo animal, ele ia me ter ali naquele círculo, né? Eu falava com o oncologista pelo WhatsApp e na verdade era ele. Eu cheguei a fazer entrevistas de emprego contratada por ele. Mandei documentos achando que era pro RH da Cresol, mas era ele. Esse final foi muito puxado. E aí, quando ele pareceu se dar por satisfeito que eu não ia voltar com ele, ele me pediu ajuda pra voltar pra Curitiba. Queria que eu ajudasse a levar o gatinho junto. 

E aí, você veio?

Óbvio que sim. O que eu mais queria era ele longe. Eu disse que ia levar uma amiga junto e ele perguntou se eu estava com medo. Eu disse que sim, e que também não tinha o que fazer um dia inteiro em Curitiba. Fechamos, ok, ele aceitou. Eu comprei as passagens de ida e volta pra mim e pra ela, no dia 29 de dezembro. Deixamos ele e o gatinho no apartamento, fomos para o shopping e ele ligou perguntando se a gente tinha almoçado. Eu falei que não. Ele falou: ah, vamos almoçar de boa, nosso último almoço. Ele nos levou na Praça da Espanha, que eu gostava de ir. Sabe quando você tá meio: ok, qualquer coisa, só quero acabar com isso e ir embora?

Sim… E como foi esse último almoço? 

A minha amiga não conhecia o Adriano, mas ela tinha pavor pelas histórias. Ele a ganhou em uma hora de almoço. Fomos ao banheiro e ela me falou: volta pra ele, ele te ama. Eu falei: Elaine, tu caiu. Quando terminamos de almoçar, ele disse que um amigo queria se despedir de mim. Achei estranho, né? O fulano era empresário, ia estar lá no dia 29 de dezembro? Mas, bem, disse pra ele vir rápido, porque eu ainda queria passar na farmácia antes de ir pra rodoviária. Como era fim de ano, achei que a viagem seria longa e quis tomar alguma coisa pra relaxar. A pessoa não aparecia, não aparecia, então eu falei pra ele avisar que não dava mais tempo. Eu não lembro se ele ligou ou mandou áudio, supostamente pra essa pessoa, mas ele disse: olha, cara, não dá pra esperar, ela tá indo pra farmácia, fica pra próxima. A gente saiu do restaurante e o carro estava na frente, mas ele falou pra gente ir a pé que ele ia pegar o carro, dar a volta na quadra e encontrar a gente lá. A Elaine questionou, mas eu falei: deixa, deixa, a gente vai conversando, tá um dia tão bonito.

Foi quando aconteceu o crime, certo? Você percebeu algo suspeito?

Sim. Entramos na farmácia, não tinha quase ninguém, estacionamento vazio, tudo tranquilo. Quando eu saio da farmácia, ele não tá lá na frente, então eu pego o telefone na mão e ligo pra ele. O celular dele tá desligado. Nisso, vem um rapaz por trás e fala pra eu passar o celular. Eu já virei com o celular na mão e estendi pra ele. Mas ele não pegou, começou a atirar e saiu correndo. Foi coisa de segundos. Eu vejo o vídeo tantas vezes e tento me lembrar… No começo, não achei que fosse tiro, sabe? Achei que fosse choque. Só me toquei quando coloquei a mão no abdômen e vi que era sangue. Aí eu sentei, não vi a minha amiga e já começou a chegar um monte de gente. Foi uma coisa muito rápida. Eu sei que fiquei ali até o Siate chegar. Antes disso, ele chegou e dizem – eu não vi – que foi dentro da ambulância comigo. Dias depois, ele foi considerado suspeito. No dia 1º de janeiro, ele já tinha o mandado de prisão, mas estava foragido. Isso foi o que me disseram.

E a amiga?

Coitada, ela ficou ali comigo até chegar socorro, mas ela se urinou inteira, estava toda molhada. Levaram ela pra delegacia, ela relatou o que aconteceu naquela hora, já falou exatamente tudo que o Adriano fazia comigo em Floripa, dizendo o que a gente estava fazendo lá, disse que tinha certeza que foi ele que fez, ele que armou. Depois ela voltou pra Floripa. A própria polícia a deixou na rodoviária, ela sem grana, não sei até hoje exatamente o que ela fez pra voltar. Enquanto ela esperava o ônibus, o Adriano tentou fazer contato com ela por meio de um Facebook fake, mandando mensagem, perguntando onde ela estava, onde estava o meu celular… Eu só fui conseguir ver a Elaine seis meses depois, porque ela não queria me ver. 

Ela deve ter sentido um bocado de medo.

Muito medo, e eu entendo, porque sei o que ele fazia comigo. Esses dias eu falei pra ela: olha, desculpa, eu realmente não queria te envolver mais nisso, mas a gente precisa encerrar esse ciclo, a gente precisa dar um fim nessa história. E eu preciso de ti de novo. Eu queria estar te convidando pra gente poder ir pra qualquer outro lugar, menos pra Curitiba. Mas infelizmente a gente vai ter que voltar lá. 

Como ficou a sua saúde, Andresa? 

Eu tô ótima, fisicamente. É óbvio que tenho uma cicatriz gigante, tenho vários pontos no tórax, na parte da costela, principalmente do lado direito, onde um nervo foi atingido, eu tenho uma sensibilidade muito grande, mas nada que me impeça de fazer nenhuma atividade, nenhum exercício, de tocar a minha vida. 

Quanto tempo você ficou hospitalizada? 

Eu fiquei, por um milagre de Deus, 12 dias no hospital. Quatro dias na UTI e oito no quarto. A minha recuperação dentro do hospital foi algo que todo mundo ficou chocado, porque era para eu pelo menos ter ficado 15 dias na UTI e em quatro dias eu já estava querendo comer e ir embora. Um tiro pegou no braço e os outros três foram no abdômen. Pegou fígado, vesícula, baço, pulmão, diafragma e estômago. Mas estão todos bem costuradinhos, rs. O único que não existe mais é a vesícula, tive que tirar, os outros estão bem costuradinhos. Eu tenho que rir, né? Vou fazer o quê?

Andresa e a mãe. Foto: arquivo pessoal

Hoje, quando você fala do assunto, como se sente? As pessoas acolhem?

Só quem passa sabe, Jess. Ontem mesmo alguém me disse: Andresa, aqui em Floripa só se escuta o teu nome, mas me diga uma coisa, se ele te batia, por que tu não saiu antes? Eu respondi: fulana, bater é o de menos, mas o dia que descobrirem como faz pra uma mulher sair facilmente de um relacionamento abusivo, terão descoberto algo proporcional à cura do câncer… Todo mundo diz: esquece, relaxa, a justiça de Deus não falha, o processo tá na Justiça. Mas eu não vou ser hipócrita, mentir ou querer me fazer de forte o tempo inteiro. Não tem um único dia da minha vida que eu não lembre do que vivi. Agora, trabalho num lugar bacana e parece que tô vendo uma luz no fim do túnel. Fui surpreendida pelo apoio, pela empatia das meninas do trabalho, que abraçaram a causa. Mas tu fica com medo, né? Fica com medo de falar, não sabe como as pessoas vão julgar… Eu espero, sinceramente, que quarta-feira que vem seja um dia que eu vá botar uma pedra em cima disso tudo e deixar o que passou pra trás. Eu preciso realmente recomeçar. Porque é bem aquela aquela frase clichê, né? A gente só sobrevive, a gente não vive. 

Você já conseguiu se abrir para novas relações?

Eu acredito nas pessoas, acredito no amor. Acredito que fiz uma péssima escolha e acredito que ele é uma pessoa doente, mas nem todo mundo é, né? Nem todo mundo tem essa maldade no coração. Claro que tô mais calejada, claro que os gatilhos existem. Mas tô aberta pra conhecer pessoas. Eu quero viver, eu quero viver e ser feliz. Eu acho que eu mereço. Nós merecemos.

Obrigada pelo compartilhamento. Muita força pra você, Andresa. Como tá o coração pra semana que vem?

É tão difícil se preparar pra lidar com emoções que tu não sabe nem quais são… E o fato de estar sendo julgada por pessoas que tu não sabe quem são, né? Literalmente julgada, porque ele tá sendo julgado, mas por coisas que têm a ver comigo, então eu tô sendo analisada também. Mas toda a investigação aponta pra ele e eu acredito muito na justiça. Cheguei a perguntar se realmente preciso estar na mesma sala que ele, se eu não consigo fazer o meu depoimento separado, e a resposta foi: sim, consegue, mas até que ponto isso vai ser bom para você perante os jurados? Então, vamos lá, vamos encarar do jeito que tem que ser.

Se puder, assine o Plural. Você pode escolher o valor que quer pagar. Isso faz muita diferença para nós: ser financiados por leitoras e leitores. As assinaturas nos mantêm funcionando com uma equipe que hoje tem oito pessoas e dezenas de colaboradores. Somos um jornal que cobre Curitiba em meio aos obstáculos da pandemia e fazemos isso com reportagens objetivas, textos de opinião e de cultura, charges e crônicas. Obrigado pela leitura.

2 comentários sobre ““Eu vou preso, mas tu vai pro necrotério”: uma entrevista sobre o caso Andresa Mendes e Adriano Tiezerini

  1. Um psicopata. Claramente.

    Só a lamentar que a vítima tenha se envolvido com ele.

    Perdido 6 anos de sua vida para quase perdê-la assassinada.

  2. Violência psicológica é terrível.
    A individualidade é destruída.
    A relação amor é ódio se entrelaça com fios de ouro e chumbo.
    Em muitos casos este drama inicia muito antes da relação marido e mulher.
    Inicia na infância, na relação de submissão ao autoritarismo do pai e conivência da mãe.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias